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domingo, 29 de outubro de 2017

Um pai sem filho

Near Newport, Rhode Island - John Frederick Kensett

As a fatherless son, so a sonless father will be embraced by none.

Ferdowsi, Shahnameh

domingo, 3 de setembro de 2017

A Mulher de Cabelo Vermelho - Orhan Pamuk



Alerta de spoiler: este post revela detalhes de The Red-Haired Woman e de outros livros de Orhan Pamuk, inclusive o final.

Entre os prazeres de se ler Orhan Pamuk está o de viajar para o passado e para o futuro.

Quando Orhan descreve as sensações de ser criança, vejo minha infância com nitidez. Quando suas personagens vivem a adolescência, os primeiros anos como adultas e a passagem pelos trinta, reconheço suas agonias e alegrias. As almas e as circunstâncias criadas por Orhan Pamuk têm a textura da vida real.

Por isso, quando Orhan fala das idades que ainda não tenho (quarenta, cinquenta, sessenta), sei que estou aprendendo como serão meus anos.

Como O Museu da Inocência e Uma Estranheza em MimThe Red-Haired Woman já no início revela o assunto do romance e seu final:

I had wanted to be a writer. But after the events I am about to describe, I studied engineering geology and became a building contractor. Even so, readers shouldn't conclude from my telling the story now that it is over, that I've put it all behind me. The more I remember, the deeper I fall into it. Perhaps you, too, will follow, lured by the enigma of fathers and sons.

Sabemos na primeira página que o protagonista não realizou seu sonho de ser escritor, e que ainda está perturbado pela história que conta. Orhan não promete suspense.

Entre os romances que li de Orhan Pamuk, The Red-Haired Woman é o mais curto e intenso. Notei cinco temas principais:


1 - Sentimentos de admiração, competição e repulsa que um filho direciona a seu pai;

2 - A procura de figuras paternas para preencher espaços que um pai deixou vazios;

3 - Decepção e frustração de pais em relação a seus filhos;

4 - Hábitos e tradições mudando rapidamente em Istanbul;

5 - Incesto.


O tema 1 é recorrente nos livros de Orhan Pamuk. Em O Museu da Inocência, o protagonista Kemal fala sobre os sentimentos de reverência e seriedade que os objetos de seu pai lhe suscitam: lâmina de barbear, desodorante, graxa de sapato... Em Istanbul, o autor fala do sucesso financeiro, da beleza e do jeito de galã de seu pai. E em A Maleta do Meu Pai, Orhan fala sobre a satisfação que sentiu ao descobrir que seu pai gostaria de ter sido escritor, mas não teve coragem. Esse tema volta violentamente na última frase de The Red-Haired Woman:

Remember: your father always wanted to be a writer, too.

Em um debate em Londres em 15 de setembro de 2017, Orhan Pamuk dividiu que esse livro concentra seus sentimentos e experiências com o assunto da paternidade. Presumo que o tema 2 também deriva de sua experiência pessoal. O pai do jovem protagonista Cem se ausentava por longos períodos. Cem acabava encontrando figuras paternas em seus chefes: primeiro em um dono de livraria, e, depois, muito mais intensamente, em um poceiro. A substituição parece ocorrer dos dois lados: Cem admira e ressente o poceiro como se fosse seu pai. Já o poceiro lhe instrui, protege, agride e reage contrariado quando Cem não o enxerga como um herói. E tanto o poceiro quanto o livreiro fazem planos para o seu futuro, ensinam seu ofício e desejam que Cem siga seus passos.

O tema 3 brota na primeira e na última parte do livro. Na primeira, o poceiro Mahmut é rude e agressivo com seu aprendiz, Cem, quando não executa o trabalho da maneira que Mahmut idealiza, depois de tentar ensiná-lo com carinho e de estar emocionalmente envolvido com o jovem. Na última, Cem está frustrado com a aparência, os modos e a posição social de seu próprio filho, um contador mediano. Quando Cem percebe em seu filho alguma beleza e firmeza, sente orgulho. Mas em certos momentos, como quando nota que seu filho tem tons de arrogância e dificuldades para abrir um cadeado, prefere acreditar que aquele nem é seu filho.

O tema 4 é outra constante na obra de Orhan Pamuk, e espero que continue sendo. Sinto imenso prazer ao aprender, através de sua ficção, os hábitos e as ansiedades que existem ou existiram entre os cidadãos da Istanbul de seu tempo. Orhan recebeu o Prêmio Nobel, ensina nas melhores universidades do mundo e seus livros são traduzidos para dezenas de línguas, portanto seu registro das tradições de Istanbul e de seus significados, na forma de romances, está bem divulgado, protegido e disponível. Fantasio que registros e divulgações igualmente poderosos sejam feitos dos hábitos do Brasil do século XX, que, como os hábitos de Istanbul, vão sendo apagados rapidamente pela modernidade.

O tema 5 é explorado sutilmente e com frequência, sempre de forma enigmática, começando pela página de citações, em uma frase de Nietzsche...

There is a primitive popular belief, especially in Persia, that a wise Magian can be born only of incest.

...e terminando com um dos últimos parágrafos:

I would just hold his hand, and caress his arms, his shoulders, his back, his neck. He, in return, would cradle his sixty-year-old mother's hands in his and kiss them as fervidly as a lover.

Os cinco temas se conectam por uma trama.

1 - Um engenheiro introduz sua história, informando o leitor de que gostaria de ter sido um escritor, e que o enigma de sua vida é a relação entre pais e filhos. Aos quarenta e cinco anos, Cem ainda gosta de sentir cheiro de farmácia, como a daquela em que Akin Çelik, seu pai, trabalhava e onde passavam tempo juntos uma vez por semana.

2 - A narrativa avança para o dia em que o pai de Cem desaparece. Não era a primeira vez. Já havia sido preso por seu envolvimento com a militância de esquerda. Anos mais tarde sumira de novo, por razão que Cem não sabia ao certo. Mas agora a ausência de Akin Çelik deixava filho e esposa muito apertados de dinheiro. O jovem Cem ganha pouco trabalhando em uma livraria, a livraria do Sr. Deniz, que se apega a Cem rapidamente. Orgulhoso, Sr. Deniz apresenta Cem a conhecidos como um futuro escritor. Talvez Sr. Deniz tenha aprendido a ver Cem como um filho.

3 - A mãe de Cem acha que o salário pago por Sr. Deniz é muito pouco, e não gosta da ideia de o filho tentar ser escritor. Talvez para tirar Cem da influência de Deniz, cortar uns gastos e aumentar a renda, a mãe decide se mudar com Cem para a casa de tios. Ali, Cem recebe para vigiar a plantação de cerejas e pêssegos dos parentes. No jardim próximo à plantação, Cem observa que um senhor e dois aprendizes cavam um poço. O senhor nota o interesse de Cem, e convida-o para ser seu aprendiz em uma escavação que está para começar, perto de Küçükçekmece.

4 - Cem aceita o convite, que significa que terá que se afastar da mãe por algumas semanas. A mãe sofre com a novidade e chora a partida do filho, que passa a acampar com seu mestre, Mahmut, em um terreno longe dali, para que possam trabalhar no poço o dia inteiro. Mestre Mahmut cava o poço com uma picareta. O trabalho de Cem é carregar para longe a terra e as pedras que saem do poço.

5 - Depois de dois dias de trabalho pesado, Mestre Mahmut e seus dois aprendizes caminham por quinze minutos até Öngören, uma cidade de 6,200 habitantes. Lá compram suprimentos e ferramentas. No caminho de volta, passam na frente de uma casa. A porta da frente se abre, e saem uma senhora, depois um jovem adulto, e então aquela que parece sua irmã mais velha: uma mulher alta de cabelos ruivos. Ela oferece a Cem um sorriso melancólico, doce e afetuoso, como se houvesse notado algo de especial nele.

6 - De volta ao local de trabalho, Cem pensa constantemente na mulher ruiva que acabou de ver, e que está no título do livro. Está apaixonado. Sempre que Mestre Mahmut e Cem visitam Öngören para mais compras e para descansar, Cem passa novamente na frente da casa para tentar rever a mulher ruiva. É em um teatro itinerante que Cem a encontra. Ela é uma atriz e se chama Gulciham. Nas poucas vezes que se encontram, Gulciham olha para ele novamente com carinho, como se já o conhecesse.

7 - Os pensamentos e sentimentos de Cem estão sempre em Gulciham. Mas há mais sensações revirando sua alma nesse momento. Mestre Mahmut lhe instrui e lhe protege como nunca ninguém fez. E também lhe trata com dureza e rispidez que ele não conhecia. Ora Cem lhe quer bem, ora lhe ressente. Seu envolvimento emocional com Mahmut é mais profundo do que o que tem com seu pai. A convivência se torna mais desafiadora com os dias, o poço vai ficando mais fundo sem nunca surgir água e começa parecer que foi cavado no lugar errado. O dono do terreno comunica que não pagará mais salário pelo trabalho, a não ser que façam uma tentativa cavando em outro ponto. Mas Mahmut insiste que sabe o que está fazendo e prefere correr o risco de continuar cavando no mesmo lugar.

8 - Cem vai ao teatro itinerante onde Gulciham atua e assiste à sua peça. Ao final, ela o convida para um passeio. Enquanto caminham juntos pela rua à noite, Gulciham pergunta bastante sobre o pai de Cem, e fica pensativa enquanto ouve histórias da infância. Cem não é maior de idade ainda, mas Gulciham o convida para tomar raki em seu apartamento. Cem hesita antes de entrar, e Gulciham o encoraja:

Ela se virou para mim enquanto ligava as luzes. "Não tenha medo," ela disse, sorrindo. "Tenho idade o suficiente para ser sua mãe."

9 - Cem tem sua primeira experiência sexual com Gulciham, mas não a descreve no livro. Já é madrugada quando começa a caminhar de volta para a barraca. Cem dorme poucas horas, e mesmo assim se sente revigorado quando acorda, anestesiado pelas alegrias e prazeres da noite anterior. Mas sua disposição está frágil. Quando volta ao trabalho, cansa mais rápido que o de costume. O poço agora tem a profundidade de um prédio de dez andares, e ainda não há água. Mestre Mahmut continua no fundo, cavando e enchendo baldes de terra e pedra. Cem puxa os baldes até o topo, e já não aguenta o esforço.

10 - Um balde carregado de terra e pedras escapa das mãos de Cem e cai pelos muitos metros de poço cavado. Um grito de dor vem do fundo, e depois o silêncio. Mestre Mahmut fora atingido. Cem se desespera, e corre para a cidade para pedir ajuda. Apavorado, não sabe o que fazer. Depois de muita hesitação, conclui que é tarde demais para fazer qualquer coisa, e retorna para a casa de sua mãe. Cem não toca no assunto do acidente. Começa a frequentar um cursinho pré-vestibular, e espera que a polícia o venha prender a qualquer momento por sua negligência, ou por ter assassinado aquele que via como pai.

11 - Mas a polícia não vem. Cem não é acusado de seu crime e acredita que, se fingir que o episódio nunca aconteceu, será como se nunca tivesse acontecido. Passam-se semanas, depois meses, depois anos. Cem estuda engenharia geológica na universidade, e se apaixona e se casa com a estudante de farmácia Ayşe. Desejam ter filhos, mas não conseguem. Cem está bem empregado e tem dinheiro sobrando. Quando têm tempo livre, Cem e Ayşe viajam pelo mundo, visitando museus e comprando livros sobre duas estórias que perturbam a mente de Cem, e que, com o tempo, despertam também o interesse de sua esposa Ayşe: Édipo Rei, uma tragédia grega, e Rostam e Sohrab, da mitologia persa.

12 - Na tragédia grega, Laius, rei da cidade grega de Thebes, tem um filho chamado Édipo. Sobre Édipo, um oráculo faz uma profecia: ele matará seu pai, se casará com sua mãe e se tornará rei. Temendo esse futuro, Laius abandona seu filho Édipo ainda bebê para que morra. Mas Édipo é resgatado por uma mulher de um reino próximo e criado como um nobre, longe de sua família biológica. Quando adulto, Édipo consulta um oráculo, que lhe informa: matará seu pai e se casará com sua mãe. Tentando fugir desse destino, Édipo se muda para Thebes, sem saber que essa é sua terra natal. Ali ele briga por uma bobagem com um velho, e o mata, ignorante de que aquele era seu pai e rei. Mais tarde, Édipo mata a esfinge que atormenta a cidade, é coroado rei, e se casa com a rainha. E quando se põe a investigar o assassinato do rei anterior, chega à verdade de que ele próprio era o assassino, e de que estava casado com sua mãe. A essa descoberta, Édipo reage furando os próprios olhos.

Édipo e a Esfinge, de Gustave Moreau

13 - Na mitologia persa, Rostam é um guerreiro que vivia na Pérsia e visita o rei de Kaykavous. Hospedado em seu palácio, Rostam recebe a princesa Tahmina em seu quarto. Naquela noite, ela fica grávida de Sohrab. Rostam volta para sua terra, os anos passam, e uma guerra entre a Pérsia e Turan tem início. Sohrab, agora adulto, é o melhor guerreiro de Turan, e é enviado para lutar contra Rostam, seu pai. Os dois entram em confronto e batalham por dias e noites, sem saber a identidade um do outro. Finalmente, Rostam golpeia Sohrab mortalmente. Quando examina o corpo do seu inimigo, Rostam reconhece a marca de seu filho, e sofre terrível remorso.

14 - Cem já pensava muito sobre Édipo Rei antes do episódio do poço, e também se impressionara com a estória de Rostam e Sohrab desde que vira a cena do combate mortal interpretada no teatro onde Gulciham trabalhava. Talvez tivesse desejos de confrontar seu pai ou uma figura paterna? O incidente do poço parece ter reforçado a perturbação que a ideia de um combate mortal entre pai e filho causava em Cem. Sem conseguir ter o desejado filho, Cem e sua esposa imaginam como seria ter um, e refletem sobre os filhos dos outros:

Às vezes nós discutíamos o que deveríamos fazer para que um filho hipotético nosso não desenvolvesse um complexo de Édipo ou de Sohrab. Sempre que víamos nossos amigos, ficávamos ansiosos para discutir suas crianças assim que chegássemos em casa. Tínhamos teorias simplistas sobre pais opressivos e filhos rebeldes e de filhos submissos e pais permissivos.

Cem e Ayşe abrem uma empresa e a tratam como um garoto, dando-lhe o nome de Sohrab.

15 - A empresa Sohrab é bem sucedida. Expande-se por Istanbul e redondezas, comprando terras e engolindo bairros. Chega o dia em que o negócio começa a comprar terras nas redondezas de Öngören, região onde Cem e Mahmut cavaram um poço décadas atrás, e onde Cem conheceu Gulciham. Nessa época, quando está com quarenta e cinco anos, Cem recebe uma carta:

Sr. Cem,
Eu gostaria de poder respeitá-lo; você é meu pai (...)
Escreva-me (...) e eu explicarei tudo.
Não tenha medo do seu filho.
Enver

16 - Cem nunca responde a carta. Mas não escapa de ter que reconhecer a paternidade, depois de um teste de DNA. Enver é seu filho com Gulciham, que ficou grávida na única noite que tiveram juntos, assim como acontecera com Rostam e a princesa Tahmina. Cem finge que o filho não existe, e se esforça para nunca conhecê-lo. Mas parece que, de uma forma quase consciente, procura oportunidades de esbarrar com ele. É assim, por exemplo, quando Cem visita Öngören com seus funcionários, com o objetivo alegado de construir um relacionamento com os moradores locais e diminuir a imagem negativa de sua empresa, que tem a reputação de roubar os moradores.

17 - Alegando medo de que os moradores tentem agredi-lo, Cem leva consigo uma arma. Depois de uma apresentação para os moradores locais, Cem conversa com jovens adultos entre comes e bebes. Um deles conta que conhecera Mestre Mahmut. Mahmut não morrera no acidente, mas ficara aleijado quando o balde de terra e pedra que escapara da mão de Cem atingira seu ombro. Falecera anos mais tarde, já velho, com algum dinheiro e respeitado pela comunidade. Cem aprende que o poço ainda existe, e pede ao jovem que o leve até ele.

18 - Cem caminha até o poço com o jovem, e suspeita que aquele é Enver, seu filho. Cem nota semelhanças na sua aparência e no seu jeito, e tem sentimentos mistos: ora gosta do que vê, ora se irrita com sua petulância, talvez sua condição social, e sente repulsa ao invés de orgulho. O jovem, que de fato é Enver, percebe a irritação de seu pai, e também se incomoda. Já ao lado do poço, Enver manifesta enorme ressentimento, e também uma raiva nova, por perceber que seu pai está frustrado diante de sua presença.

"Às vezes minha raiva de você é tão forte que a coisa que eu mais quero é furar seus olhos. (...) Você nem é um pai de verdade."
"Você também não é um filho de verdade. Você é muito ressentido e muito submisso. 

19 - Em resposta à agressão de seu pai, Enver anda em sua direção. Cem se assusta e saca sua arma. A partir daí, a narração de Cem termina, e quem conclui o livro é Gulciham, A Mulher de Cabelo Vermelho. Ela conta que, naquela noite, saíra à procura do filho, e o encontrara próximo ao poço. Concluíra então que o filho acidentalmente matara o pai. O corpo de Cem estava no fundo do poço, e seu olho estava furado por uma bala de revolver.

20 - Para tentar evitar uma condenação por assassinato, Gulciham instrui seu filho Enver a escrever sua história na forma de um romance, que possa ser apresentada em juízo. Ela supõe que não será difícil, já que Enver gostava de escrever poesias. Então reúne todos os detalhes de que se lembra sobre Cem e sua vida, e consegue ainda mais informações com conhecidos e com a viúva de Cem, Ayşe. Ayşe colabora porque precisa estar em bons termos com Gulciham e Enver, já que Enver é o herdeiro legal da empresa Sohrab e pode, eventualmente, tomar a maior parte de seu patrimônio. Enver então escreve o livro The Red-Haired Woman. Cem nunca narrou sua própria história. Ao invés disso, seu filho Enver o fez, em primeira pessoa como se fosse Cem, usando os detalhes obtidos por sua mãe, e divididos pelo já deformado Mestre Mahmut, de quem era amigo.


Tentei resumir a trama do livro em vinte parágrafos. É possível que, sem querer, eu tenha interpretado o livro, quando minha intenção era só resumir e apresentar os acontecimentos-chave.

Se, por um milagre, fui absolutamente objetivo no meu resumo e não fiz interpretação alguma, divido agora alguns entendimentos e impressões.


Primeiramente, que trama!

Orhan Pamuk defende em seu livro O Romancista Ingênuo e o Sentimental que a trama é apenas uma linha que liga os acontecimentos e as personagens, que estão lá para revelar a paisagem em que vivem, formada pelos temas e lugares que o escritor de romances deseja explorar. Explicando assim, parece até que Orhan Pamuk não dá importância para a trama. Sua função é a mesma do papel: algo em que se possa escrever. Mas daí ele vem com uma dessas.

Suas possibilidades ficcionais e ambiguidades são muitas e elaboradíssimas. Considere-se, por exemplo, que foi o filho ressentido Enver quem narrou a história, sob a influência de sua mãe, com o objetivo de escapar da cadeia. Será que tivemos acesso à verdade dos fatos? Ou terão mãe e filho embelezado suas intenções?

Sobre a noite de amor entre Cem e Gulciham não ter sido descrita neste livro:

Naquela noite, eu dormi com uma mulher pela primeira vez na minha vida (...) Mas mesmo enquanto eu vivia aqueles momentos, eu já sabia que eu nunca dividiria tudo sobre aquela noite com ninguém. Mesmo agora, não vou me prolongar muito em detalhes.

Esse curto trecho aparece cedo no livro como se tivesse saído da caneta de Cem. Em outros livros de Orhan Pamuk, como O Museu da Inocência e Uma Sensação Estranha, momentos como esse duram páginas. Por que a diferença? Talvez porque o narrador é Enver, que ressentia seu pai demais para imaginá-lo com sua mãe. Ou porque Gulciham editou a obra, escolhendo como e quando queria ser descrita.

Nas últimas páginas, ao refletir sobre os acontecimentos narrados, Gulciham fala da mudança de comportamento do filho para um mais agressivo, na época em que ela decidiu que Enver era grande demais para continuarem tomando banho juntos. E também comenta essa estranha atitude de Enver, já na cadeia:

Muitas vezes eu quis lhe perguntar (...) por que ele era tão bravo, por que meteu uma bala no olho de seu pai, e por que ele parecia estar tão em paz agora (...)

Mencionando brevemente Sigmund Freud e Édipo neste livro, Orhan Pamuk pode estar oferecendo uma interpretação: Enver vivia uma agonia intensa e não admitida de competição com seu pai por sua mãe. Cem vive uma agonia análoga. Contra seu pai ausente, Cem parece não ter frequentes sentimentos de competição. Já contra Mahmut, em quem Cem vê um pai, o impulso é aparente e frequente nos seus dias de convivência. Cem não suporta imaginar Mahmut se aproximando de Gulciham.

Eu estava com tanto ciúmes que eu mal conseguia falar. Teriam Mestre Mahmut e a mulher de cabelo vermelho se tornado amigos?

E Cem gosta de Gulciham precisamente porque ela olha para ele com o carinho de uma mãe.

Um sorriso melancólico se formou nos seus lábios perfeitamente delineados, como se ela tivesse visto algo incomum em mim ou no cavalo. Ela era alta, seu sorriso inesperadamente doce e afetuoso.

Não entrando em competição com seu pai biológico por sua mãe biológica, Cem entrou essa competição com uma figura paterna por uma figura materna.

Mestre Mahmut pode ter aceitado seu papel na briga, entretendo o pensamento de tirar Cem de seu caminho. Gulciham fala sobre a noite em que Mahmut assistiu à sua peça:

"Ele não se incomodou nem um pouco na parte em que o pai matou seu filho ao final da nossa peça...,' ela disse. "Ele realmente pareceu gostar dos mitos e lendas.

A luta se passa na alma de Cem todos os dias, e ele quer vivê-la. Por isso lê e relê as estórias de Sohrab e de Édipo; por isso visita museus à procura de escritos e pinturas sobre o tema; por isso aprende sobre a obra de Freud.

Enver supera o drama matando o pai, e adquire a paz de espírito que nunca teve. Gulciham decide nunca acreditar nessa violência intencional, ou talvez seja incapaz, porque é sua mãe.

Orhan Pamuk traz o tema da competição contra o pai em seus livros e discursos. Talvez também esteja em uma luta do tipo?

Talvez, para um escritor que resolve explorar o assunto, tenha sido conveniente fazê-lo como Orhan fez: narrando a estória de alguém que compete por uma mãe que não é mesmo mãe, e por um pai que não é mesmo pai, evitando assim um desconforto maior tanto para o escritor quanto para o leitor.

Ainda mais intrigante é o fato de que a Europa (...) não produziu mais imagens de Édipo; não houve pinturas das cenas essenciais, como aquelas em que Édipo mata seu pai ou em que dorme com sua mãe. Pintores europeus podem ter conseguido descrever aqueles momentos em palavras e compreender seu significado. Mas não foram capazes de visualizar as ações descritas e pintá-las em tela.
Apenas Pier Paolo Pasolini, o romancista, pintor e cineasta italiano, foi quem quebrou a regra tácita em seu filme Édipo Rei. Eu assistira à sua adaptação inquietante quando fora exibida na retrospectiva de uma semana do trabalho de Pasolini, patrocinada pelo consulado italiano em Istambul. O jovem ator que interpreta Édipo abraça, beija e dorme com sua mãe, interpretada pela mais madura mas ainda cativante Silvana Mangano. Quando mãe e filho fizeram amor, o público de cinéfilos e intelectuais de Istambul presentes àquela noite no auditório (...) da Casa d'Italia afundou em um silêncio ensurdecedor.

O pai de Cem lhe trata bem e nunca lhe levanta a voz. Mas pode ser um mau sinal: aquele mesmo pai não faz questão de estar perto de seu filho. Conscientemente corre riscos que lhe colocam na cadeia e lhe afastam do garoto. Procura aventuras e relacionamentos, deixando Cem sem proteção, orientação ou dinheiro. Talvez o pai biológico não ligue muito para Cem.

Senhor Deniz, que emprega Cem em sua livraria, sente orgulho dele. Faz planos para seu futuro e quer que seja um escritor. Para ajudá-lo, permite até que Cem use a livraria como sua própria casa. Quando Cem começa a estudar engenharia e se envereda por outras profissões, Deniz fica um pouco triste, mas tenta ver o positivo do caminho seguido por Cem, e continua nutrindo carinho por ele. Nem Cem, nem Deniz expressam abertamente sentimentos de pai e filho. Mas dentre os três homens com idade para ser seu pai de quem Cem se aproxima, Deniz é o que lhe trata melhor e lhe quer perto por mais tempo. Pode ser que Deniz o estivesse adotando sem que percebesse. Ou pode ser que Cem e Deniz nutrissem simpatia por compartilharem o gosto pelos livros e um sonho: ser escritor.

Mestre Mahmut cuida de Cem, vigia sua saúde e seu bem estar e tenta lhe ensinar sobre a vida, inclusive sendo duro, como seu pai nunca fizera. Das três figuras paternas na vida de Cem, Mestre Mahmut parece ser a única que teme ter sua autoridade abalada. Frequentemente Mahmut lembra Cem de que é importante que lhe obedeça e confie no seu julgamento. Quando Cem lhe dirige perguntas pertinentes, Mestre Mahmut responde com longas lições sobre outros assuntos, que soam como tentativas de soar mais sábio e capaz do que é.

Quando Cem tem seu próprio filho, seus sentimentos são mistos. Estando com seu filho pela primeira vez, Cem não sabe se gosta do que vê. Chega a preferir que aquele não seja seu filho, ou que tivesse outras características, que lhe permitissem sentir orgulho.

Enver crescera afastado de seu pai, Cem. É possível que sua agressividade seja consequência dessa circunstância. A possibilidade ganha força após Enver adquirir uma paz de espírito que não lhe era típica, logo após matar seu pai.


Por que o livro se chama The Red-Haired Woman ?

Gulciham, a mulher de cabelo vermelho, aparece pouquíssimo na história. Mas o que acontece no livro acontece por causa dela. Ela é:

  - a paixão do pai de Cem;
  - o primeiro amor de Cem;
  - possivelmente o amor do filho de Cem;
  - a distração que leva Cem a ferir terrivelmente o ombro de Mahmut, alterando o curso da vida dos dois e dos seus familiares e conhecidos;
  - a idealizadora do livro e a autora de suas últimas páginas.

Talvez ela própria tenha escolhido o nome do livro?


Enver confessa sentir uma raiva intensa de seu pai, Cem, a ponto de querer furar seus olhos. Depois de uma discussão boba - como a que levou Édipo a matar seu pai - Enver parte para cima de Cem. Cem lhe aponta uma arma e manda que não avance. Enver ignora a ordem, arranca-lhe a arma, atira em seu olho e joga seu pai dentro do poço. Conhecedora desse fato, a mãe de Enver chega à conclusão de que seu filho matou seu pai por acidente, no que talvez seja um exemplo da dificuldade de uma mãe em enxergar, ou aceitar, os erros de um filho.


Sobre até onde pode ir a competição e a necessidade de aprovação: já com mais de quarenta anos, Cem está jantando com seu pai e ainda se esforça para impressioná-lo:

... eu me deixei levar, contando para o meu pai sobre Édipo, Sohrab e Rostam, toda a leitura que fiz, os museus que visitei na Europa, tudo só para mostrar para ele quão versado eu era em história cultural e social. 
... Ele havia formulado o mesmo tipo de pergunta que eu frequentemente me fazia a seu respeito ("O que meu pai diria se soubesse?")

Além da competição e da necessidade de aprovação, há ainda a necessidade de orientação que atormenta os adultos:

... parece que todos nós gostaríamos de um pai forte e decidido nos dizendo o que fazer e o que não fazer. Será que é porque é tão difícil distinguir o que deveríamos e o que não deveríamos fazer, o que é moral e certo do que é pecaminoso e errado? Ou é porque nós constantemente precisamos ser reassegurados de que somos inocentes e não pecamos? A necessidade de um pai está sempre lá, ou só quando estamos confusos, angustiados, quando nosso mundo está desmoronando?

Talvez as mesmas reflexões valham para a crença em deuses. Pode ser que precisemos deles para receber instruções na forma de mandamentos.

E pode ser que a dúvida também valha para a relação do cidadão com o Estado. Pode ser que desejemos um Estado que nos tire o peso de decidir, de procurar e de julgar corretamente. Talvez estejamos dispostos a entregar nossa liberdade em troca dessa paz.


Estórias de pais que matam o filho, de pais que quase matam o filho e de filhos que matam o pai - Rostam e Sohrab, Abraão e Isaac e Édipo Rei -, e do remorso envolvido, saem da imaginação dos escritores e são consumidas há milênios. Se é verdade que da caneta sai o que está no coração e na cabeça, essas estórias podem ser exemplos de vontades e medos ganhando vazão na forma de literatura e pintura.

Ivan the Terrible and His Son Ivan on November 16, 1581 - by Ilya Repin

Deixemos a trama e os temas de lado agora, e falemos da textura. As paisagens, as cores, os cheiros e os jeitos são críveis. Como sempre, quando Orhan narra pedaços de vida, memórias brotam. Seja explicando como um jovem se sente quando se afasta de sua terra e de sua família pela primeira vez, ou como reagimos quando a pessoa à nossa frente fica agressiva, ou como nos sentimos quando postergamos nossos sonhos... quando Orhan coloca essas sensações no papel, sei que estou lendo a realidade. Sempre sinto: é assim mesmo que as coisas são.

Com essa sensibilidade em retratar a realidade, Orhan também leva o leitor a viver, com nitidez, experiências que nunca teve e talvez nunca terá: cavar um poço, passar noites assistindo a uma televisão mal sintonizada dentro de uma barraca, beber raki, visitar museus de vários países à procura de pinturas e textos sobre um tema favorito...


Essas histórias que se passam em Istanbul sempre me lembram do meu país. Abaixo, Cem pensa alto sobre o início de sua empresa:

Nossa economia doméstica também ia bem. Uma vez que meu empregador tinha laços fortes com o governo e com o partido que estava no poder, nós sabíamos de antemão quais áreas da cidade estavam escaladas para obras: construção de altos prédios residenciais, novas ruas, essas coisas. Nós comprávamos terras em linha com esse conhecimento, e também tirávamos vantagem de subsídios governamentais para construções. Eu nunca julguei que houvesse algo de anti-ético na prática. 

Esse pode ser Cem, sendo sincero sobre seus valores. Mas também pode ser Enver, acusando seu pai de malandragem.


Pamuk traz museus e temas literários para suas estórias. Nesta, Cem reflete sobre sua motivação de ler tantos livros:

...eu acreditava que se continuasse explorando aqueles imensos mares de estórias, eu poderia algum dia resolver o enigma da minha vida e finalmente pousar em águas calmas. 

É por isso que lemos livros como esse: para encontrar pedaços do sentido da vida. Ainda que saibamos que é inútil.

... O que nós aprendemos ... foi quão efêmeras foram aquelas vidas do passado, quão rapidamente foram todas esquecidas, e quão vãos somos nós em pensar que podemos compreender o sentido da vida e da história se aprendermos um punhado de fatos.

Quem quiser saber como foi viver em Istanbul entre os anos oitenta e hoje pode procurar fotos e jornais velhos. Quem quiser saber como as pessoas de Istanbul eram e se sentiam nesses dias poderá recorrer a registros de sentimentos como esses que Orhan Pamuk tem produzido, e produziu mais uma vez em The Red-Haired Woman, com a sensibilidade aguçada como nunca.


quem quiser saber como uma história dessas nasce pode procurar por vídeos de Orhan Pamuk falando sobre a nova obra. Eu gostaria de relembrar de sua apresentação em 15 de setembro em Londres.

Naquela noite, Orhan disse que The Red-Haired Woman é um de seus menores livros, mas veio sendo escrito por trinta anos. Nos anos oitenta, Orhan escrevia O Livro Negro, quando notou que um poço estava sendo cavado nas proximidades de seu local de trabalho. Responsável pela obra havia um senhor que era ajudado por aprendizes. Às vezes pediam água e eletricidade a Orhan. À noite, descansavam juntos e assistiam a uma pequena televisão. Orhan os entrevistou, e aqueles dias ficaram em sua memória.

Orhan disse que tem anotações e memórias sobre muitas ocorrências. A melhor coisa, diz Orhan, é quando, de repente, um desses muitos episódios de que se lembra parece se relacionar com outro, encaixando-se em um tema. A história do senhor que cavava o poço com seus aprendizes, por exemplo, se encaixou no enigma dos pais e filhos.

A tradução de The Red-Haired Woman para o inglês é, na opinião de Orhan Pamuk, maravilhosa.

Perto do fim, Orhan disse que ainda pinta quadros, e que as sensações de pintar e de escrever são diferentes. Quando pinta, sente-e feliz. Quando escreve, sente-se inteligente.


Orhan Pamuk não dá sinal de se cansar de seu ofício. Meu livro favorito de sua autoria continua sendo O Museu da Inocência, de 2008. Mas me parece que cada livro publicado desde então foi ainda maior em algum aspecto.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Na Principal Estrada Entre Kendal e Keswick

Na principal estrada entre Kendal e Keswick, na Região dos Lagos, na Inglaterra, há uma bela casa onde se escreviam poesias.

Dove Cottage
O poeta que ali morava era William Wordsworth. Seu quintal parece uma serra em um domingo nublado que dura para sempre.

Dove Cottage
Do quintal sobe uma escada, que leva à cabana onde Dorothy Wordsworth escrevia cartas.

Dove Cottage
O que é mais solene: a cabana onde se escreviam cartas, ou a vista que tinha quem as escrevia?

Vista da cabana
A escada que une o quintal à cabana hoje é decorada com pedras onde se leem as poesias do antigo morador. Pode ser que a escada saia de um, leve a um, ou seja um paraíso.


Fotos por Renan Caleffi de Oliveira.

sábado, 29 de julho de 2017

The Shepherd's Life - James Rebanks



Capa

Uma capa que me induz tranquilidade. Provavelmente porque nada nela remete aos problemas da minha rotina. A neblina que nunca aparece na cidade, o Border Collie que eu gostaria de ter, ou de ser, envolvido em paz e silêncio, um mato bonito... nada disso existe no meu mundo diário.

Deve haver uns quantos para quem a imagem romântica oferece promessa de alívio. Sem tempo de buscar paz no campo, resta esperança em consumir o produto atrás da capa.


Conteúdo

O alívio está lá. É para a mente entristecida na cidade que o autor fala sobre seu lar, o Lake District.

O livro não vem na forma de fantasia. James Rebanks descreve uma vida rural que depende da ajuda financeira do governo. No Lake Districit as famílias criam ovelhas usando técnicas antigas, gerando lucros mínimos que já não permitem o sustento. Os filhos se mudam para a cidade para conseguir emprego. Às vezes um deles volta para assumir os negócios quando o pai já está muito velho e a fazenda está mais pobre.

Enquanto a vida dos moradores se complica, turistas vêm cheios de alegria e dinheiro passar as férias nas redondezas, e tratam como parque de diversões o chão que, para os locais, é um lar sagrado e um cemitério de tradições.

Ainda assim, o livro oferece ar fresco ao morador da cidade. Porque os problemas ali descritos são outros. Da descrição de se cuidar das ovelhas, de preparar a terra, de enfrentar o frio e de trabalhar com os vizinhos, brotam sentimentos que não brotam das telas de computador, das mesas de escritório e do concreto.


A vida do autor

Esse livro é, entre outras coisas, a biografia de um desconhecido. Uma maravilha. Um lembrete de como há universos soltos por aí dentro de pessoas, esperando por uma vazão literária.

James Rebanks narra uma infância em que ele e todas as crianças da região vão à escola porque a lei obriga. Na sala de aula os estudantes só pensam em voltar para a fazenda e ajudar os pais no trabalho do campo. Porque as paisagens do Lake District são tão belas, e seus valores de trabalho tão apaixonantes, que as famílias e seus filhos não consideram qualquer alternativa de futuro. O importante é viver o que eles já conhecem e querem, abandonando os estudos assim que permitido.

Para o autor, as pessoas da cidade são obcecadas pela ideia de fazer algo de suas vidas. Para os residentes do Lake District, que cuidam de suas terras há séculos, essa perturbação mental não está presente. Rebanks só sentiu necessidade de se afastar das ovelhas quando se tornou um adulto e quis cuidar da fazenda do seu jeito, entrando em conflito com o pai. Sendo um raro aluno de destaque, aproveitou as notas altas para se candidatar e passar em provas que o levaram à Universidade de Oxford.

Durante seu tempo de estudos e graduação, frequentou Oxford e Londres e achou tudo horrível. Contou os dias para retornar ao Lake District. Por hábito, continuou acordando de madrugada, no que diz ser um impulso de seguir os valores do campo e de começar a trabalhar antes de o sol nascer.

Acho que foi aqui que comecei a notar que o autor está propenso a achar especial cada aspecto de sua vida rural, em comparação com a vida na cidade. Senti vontade de adicionar uma nota de rodapé àquela página. Quem toca um restaurante na cidade também acorda de madrugada para preparar a comida. Cabeleireiros também acordam de madrugada para preparar o salão. Contadores também acordam de madrugada para preparar relatório. Advogados varam a noite preparando seus casos. A lista de quem dorme pouco para ir atrás do sustento é e sempre foi longa, no campo e longe dele.


A alma

Formado, o autor voltou para as terras da família, que hoje ele toca, ao mesmo tempo em que estuda estilos de vida semelhantes aos do Lake District ao redor do mundo, e que escreve e publica este livro em que despreza a vida urbana, e enaltece os atributos imensamente melhores de sua existência rural. Ter sido descoberto um prodígio e ter se graduado em uma das melhores universidades da Terra não mudaram sua preferência pelos lagos, de onde ele afirma e reafirma que o mundo está errado em não perceber o que há de precioso na vida que ele leva. Entre uma reflexão e outra, conta histórias de sucesso pessoal, em um tom de quem não as queria contar, mas pressionado pelas circunstâncias acabou contando sem querer.

O que leva alguém a repetir tanto que não quer uma coisa? A escrever páginas e páginas sobre assuntos e dúvidas que não o incomodam?

Esse livro não é apenas uma celebração do Lake District. Quem sente necessidade de celebrar sentiria necessidade de comparar? De derrotar?

Esse é um registro da angústia de uma existência em 2015. Uma ansiedade diante da morte de tradições e da indiferença do mundo urbano. Vejo um apelo para ser amado, para ter um estilo de vida reconhecido e valorizado, para não ser esquecido. A região que o autor descreve soa única e bela, mas essa mente que ali vive não parece estar livre dos impulsos de comparação e competição, e do medo da humilhação. Diz desprezar a cidade, mas pede seu carinho.


Sobre ler este livro

É mágico. O que falei acima é só minha interpretação, e não vejo nada de negativo. Se o que estou insinuando for verdade, o autor está sendo humano e produzindo um texto belo em que pede para não ser deixado para trás, enquanto descreve em um estilo original a sua vida. Uma obra de estreia e de valor. Cada página vale algo. O tema principal está pipocado de faíscas de reflexões sobre outros.

As descrições vêm em trechos de meia página a duas, que avançam e retrocedem entre memórias significativas. Pula-se de um jantar para um passeio na montanha, de uma reunião de pastores para uma colheita de feno, de um corte de lã para uma feira. Lembranças doloridas e prazerosas de alguém que tenta atribuir um propósito, uma ordem e uma direção ao seu passado. Um autor que tenta se defender e se justificar para um leitor que não havia perguntado nada.

I'd gone to prove a point to myself and maybe to other people too. But there wasn't much satisfaction in it. I'd lost the hunger to keep proving it.

Pode ser que o autor tenha experimentado as vidas no campo, na cidade e corroborado o que já sabia: a primeira é melhor. Ou pode ser que o autor tenha desejado a cidade, tentado conquistá-la, falhado, e então voltou para os braços do Lake District, de onde desdenha daquilo que diz que nunca quis.


Intercâmbio

Esse livro parece ter sido bem sucedido aqui na Inglaterra. Estava em destaque nas livrarias quando o comprei. Especulo que os leitores que gostaram da obra por aqui, que sentiram prazer no contato com tradições cultivadas no meio rural, gostariam muito de conhecer literatura gaúcha na sequência. Bom que seria se O Tempo E O Vento, traduzido para o inglês, fosse exposto na mesma prateleira. E que The Shepherd's Life fosse vendido em gauchês no Rio Grande do Sul. O mais próximo disso, por hora, é a tradução para o espanhol La vida del pastor.


Trecho

The past falters and dies by little steps. Then it has gone, and old men go home disappointed.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Science in the Soul - Richard Dawkins


Eu estava no meu corredor favorito: o corredor do Museu de História Natural de Oxford.


Muitas vezes entrei nesse museu disposto a olhar tudo. Mas acabei sempre exaurindo minha energia mental em umas poucas caixas de exibição. Prefiro voltar para apreciar o resto outro dia, descansado, atento e reverente diante do maior espetáculo da Terra: a evolução das espécies.

O ciclo se repete há anos. No dia 14 de junho de 2017, eu estava novamente nesse corredor. Eram 18:30. Faltavam trinta minutos para o evento: um bate-papo entre escritores. Decidi que enquanto não chegasse a hora eu passaria o meu tempo como se deve: admirando espécies de estrela do mar. Expostas juntas, suas mínimas variações são claras e de uma beleza que se atingiu depois de dezenas de milhões de anos de trabalho.

Algo na genética da nossa espécie gregária nos dá um impulso de querer dividir as experiências e de ser entendido. Minha esposa procurava o auditório e não estava ali para me ouvir falar do que eu sentia enquanto olhava também os pepinos do mar. Meu amigo mais capaz de compartilhar o sentimento estava muito longe. Então fiquei ali, aproveitando um maravilhamento intenso e solitário. Até que passa atrás de mim um senhor falante de cabelo branco: Richard Dawkins.

Aquele senhor não seria capaz só de entender a sensação que brotava daquela caixa de vidro em um corredor silencioso. Ele é bom em ensinar como se atinge esse estado quando se está diante da natureza. Por isso foi professor de compreensão pública da ciência. Sua escrita é a mais clara que lembro de ter lido. Em seus livros, ele auxilia quem está interessado em absorver a magia da realidade. Possivelmente eu teria aprendido a chorar diante de sequoias e de evoluções convergentes mesmo que não houvesse lido A Grande História da Evolução, O Gene Egoísta ou A Escalada do Monte Improvável, porque lembro de ser propenso à contemplação desde muito novo. Mas essas obras aguçaram a sensibilidade.

O velhinho se sentou diante de uma mesa e pré-assinou sozinho vários livros bonitos de capa preta com detalhes brancos, azuis e laranjas. Seria um novo livro dele? Pesquisei no celular, e não encontrei nada. Que milagre! Os mecanismos de busca não haviam ainda absorvido bem a novidade: Richard Dawkins publicou um novo livro.

Eu só entendi de fato que ele tinha um livro novo quando, minutos depois, eu já estava sentado no auditório e ele estava logo à frente, lendo o primeiro parágrafo sobre sua experiência de visitar o Grand Canyon:

The Grand Canyon confers stature on a religion, outclassing the petty smallness of the Abrahamics, the three squabbling cults which, through historical accident, still afflict the world. 

Na outra vez em que fora em um evento do Richard Dawkins, a ocasião fora mais solene. Ele lera em voz baixa trechos seríssimos de alguns de seus livros, diante de uma plateia grande em um auditório espaçoso.

No Museu de História Natural, a experiência foi mais próxima. Auditório pequeno e clima informal. Estava junto Yan Wong, com quem Dawkins escreveu A Grande História da Evolução. Eles bateram um papo diante dos presentes, se empolgando com os comentários um do outro sobre a melhor forma de se exibir a árvore da vida, os resquícios de genes de neandertais entre os europeus, os genes comuns que determinam o tipo sanguíneo A entre humanos e primatas, e outras coisas que não consegui acompanhar. Depois da dolorosa sessão das sempre mal formuladas perguntas do público, comprei o livro e peguei a assinatura desse autor tão fácil de se admirar. 

Interessante ver assim de perto um escritor tão grande, falando à vontade sobre seus assuntos favoritos, em seu habitat, e na sua companhia favorita.


O resumo do livro virá mais tarde. Quis registrar a experiência de chegar ao livro enquanto ainda estava quente na mente.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Felicidade Construída - Paul Dolan



Felicidade

Ouço que felicidade significa uma coisa diferente para cada pessoa. Não procede.

Felizmente para o leitor de Felicidade Construída, o livro começa com uma boa definição: felicidade são experiências de prazer e propósito ao longo do tempo.

Qualquer um sabe o que lhe é prazeroso, o que é sentir propósito, e como é sofrido fazer algo tedioso ou sem sentido.


Confusão e adaptação a esta leitura

Esse livro me confundiu, no bom sentido. Senti um desconforto de adaptação.

A organização é estranha. Em um mesmo capítulo, há um gênero smart thinking - que me atrai - e um tom de autoajuda, que me afasta.

Nas primeiras páginas, o autor soa como um cientista resumindo os resultados de experimentos recentes sobre o tema Felicidade. Ao falar de cada experimento, soa humilde, e diz que os resultados não são definitivos, que um equívoco no método do estudo pode tê-lo invalidado, e que, apesar de muito esforço, podemos saber ainda muito pouco sobre os padrões de satisfação. Já no final dos capítulos, o autor muda a atitude e vira guru. O cuidado, o reconhecimento das limitações da especulação, a admissão da incerteza desaparecem. Paul Dolan começa a decretar: para serem felizes, as pessoas deveriam fazer isso, e parar de fazer aquilo.

Daí a minha confusão: se o autor reconhece as limitações e as dificuldades das pesquisas sobre a felicidade, de onde vem a segurança para dizer às pessoas o que fazer?

Rejeitei o livro e sua aparente incoerência. Senti vontade de ironizar a obra. Até escrevi uns desaforos em um rascunho desse post, que excitaram um contra-pensamento: e se o autor estiver apenas sendo racional diante da incerteza e da ignorância? Se estiver reunindo as evidências, debatendo seus possíveis significados com os maiores especialistas que se conhece, digerindo o resultado desse esforço, e oferecendo a quem estiver interessado algumas sugestões que parecem brotar?


Vocabulário novo e útil

Paul Dolan propõe falar de felicidade em duas partes: prazer e propósito.

Prazer é o primeiro gole para quem está morrendo de sede, deitar depois de se exaurir, cair no mar em dia quente...

Propósito é a sensação de dar um passo na direção desejada. É vencer uma tentação, trabalhar cansado, economizar, resistir, doar dinheiro. É fazer algo até desagradável, mas que proporciona satisfação, porque nos deixa mais próximos do que queremos da vida.

Munidos desta distinção, podemos pesquisar melhor a felicidade. Perguntado "quão feliz você estava trabalhando ontem às oito da noite", eu responderia "pouco feliz". Se perguntado mais especificamente "quanto prazer você estava sentindo", eu responderia "zero", ou "prazer negativo." Mas se perguntado "quanto propósito você estava sentindo...", minha resposta seria mais positiva, porque sinto satisfação em sacrificar um pouco de tempo para chegar mais perto de matar uma vontade velha.

Às vezes tudo o que um livro nos dá é um vocabulário para expressar o que já sabemos. Uma experiência maravilhosa: ler algumas páginas, e ser capaz de dizer o que sempre se quis. É como aprender a falar.


Tensão

Talvez eu seja viciado em preocupação e remorso. Gosto de um livro perturbador. Preciso que minhas leituras sejam ricas em hesitações e verdades.

Esse livro resume os resultados de pesquisas sobre o que causa felicidade: quanto dinheiro, quanto estudo, quantos amigos, quantos filhos, quanta certeza, quanto tempo se deslocando para o trabalho, casamento, peso...

A cada parágrafo, uma chance de descobrir que você escolheu errado e é tarde demais para mudar de rumo. Ou pior, que você nasceu errado e não tem chances de mudar nada.


Redenção

Felicidade Construída nos aterroriza, mas também nos consola. As pesquisas sobre felicidade sugerem que não é possível ser muito infeliz, nem muito feliz.

Se você ganhar um aumento, quase que imediatamente passará a achar seu novo salário ruim. Se algo triste acontecer na sua vida, depois de um tempo tudo terá voltado ao normal.

O estado de satisfação mais comum é o moderado.

While we each may initially react quite differently to an event, we all have a built-in ability to detect and neutralize challenges to our happiness. This has been called our psychological immune system. Just as your body adjusts to getting into hot water, so your mind adjusts to change...


Felicidade comparada

Entre os muitos elementos que aumentam ou diminuem a felicidade, um apareceu quase nada em Felicidade Construída: a felicidade dos outros.

Essa ausência me saltou aos olhos porque ando lendo muito Alain de Botton e assistindo a muitos dos vídeos da sua The School of Life. Para ele, que digere filosofia e psicologia e devolve na forma de livros para o grande público, a felicidade resulta da comparação. Sentiremos bem estar se olharmos para os nossos pares e acharmos que estamos tão bem ou melhor do que eles.

Nossos pares são aqueles que nasceram e cresceram em circunstâncias parecidas. O Bill Gates ser rico não me fará mal, porque não começamos no mesmo lugar, nem na mesma época, nem estudamos juntos. Mas se meu colega de colégio, vindo de uma família parecida, acabar ganhando mais dinheiro, fazendo mais amigos e formando uma família mais bonita, isso irá ferir minha tranquilidade. Para recobrar minha paz, posso sentir necessidade de estudar e trabalhar mais para correr atrás do sucesso. Ou posso desprezar a sociedade de consumo e a vaidade alheia, e defender um estilo de vida simples e sem ambições para me convencer de que eu não queria mesmo aquilo que meu colega tem.

Por esse ponto de vista, a felicidade é estar em condições de humilhar nossos semelhantes. É olhar para a humanidade e estar em condições de sentir pena. Os impulsos de "compartilhar" as viagens, as compras, as conquistas, a beleza, as refeições e os finais de semana felizes nas mídias sociais, ou de publicar comentários sobre buscar a simplicidade para ser feliz, são o resultado da psique e dos instintos fervendo. É a alma desesperada para exibir o que possui e desdenhar do que não possui.

Por que será que o livro de Paul Dolan quase não explora esse aspecto? Especulo: talvez porque os experimentos científicos sobre felicidade partem da indagação. Em um experimento típico, uma pessoa é indagada: de zero a dez, quanto prazer você sente quando dirige para o trabalho? E na academia? E quando ganha um aumento? E quando ensina tabuada para seus filhos? Perguntas fáceis de se responder com sinceridade.

Mas e se um questionário para testar as especulações do Alain de Botton fosse aplicado? Obteríamos respostas honestas?

Como medir o desgaste emocional de testemunhar o sucesso alheio? E o deleite de assistir à humilhação do rival? Talvez seja essa a dificuldade que impede a entrada do tema no livro de Paul Dolan, que tenta falar de ciência. E se essa dificuldade existe, ainda faz sentido embarcar na especulação guiada pelo Alain de Botton. Faz sentido viver os mistérios que sobram.

Um dos poucos trechos de Felicidade Construída sobre o assunto:

We want to be like people we consider to be similar to us - but we can also be adversely affected by their success. Studies have found that life satisfaction and reports of pleasure fall when the income of those living in your local area rises. The income of those around you doesn't have to increase for it to adversely affect you - you just need to find out that others are earning more than you.

Envelhecimento

Pessoas reportam menos felicidade entre os quarenta e os cinquenta anos. Vi uma vez um jornal especular que o motivo seria o fardo que pessoas dessa idade costumam carregar: cuidar dos filhos muito jovens e dos pais muito idosos. Será que também poderia ser a tomada de consciência de que já se passou metade da vida? Será a sensação de envelhecimento se impondo, e durando até que a pessoa se conforme?

O que será que nos dizem então os resultados de experimentos com grandes primatas? Elem também são menos felizes durante sua meia idade! Tristemente, o livro não explica como se mediu a felicidade de um chimpanzé. Acreditando por um instante que de fato isso aconteceu e que a medição é confiável, quero imaginar: o que será que derruba a satisfação dos humanos e dos gorilas na mesma altura de suas vidas? O estado do corpo? Dos hormônios? Da mente? Do sexo? Sua posição na sociedade ou na família?
   

Riqueza 

Pesquisa feita nos EUA sugere que quanto mais dinheiro uma pessoa ganha, mais feliz ela é. Mas o limite da felicidade é 75.000 dólares por ano. Ganhar mais do que isso não deixa ninguém mais feliz.

Pensamento lateral: será que há uma renda abaixo da qual não é possível ser mais infeliz? Ou uma dor máxima? Ou uma tristeza limite?



Filhos

O cotidiano é feito de realidade, mas nossas conversas estão purificadas de verdades, e nossas interações são irrelevantes. Infelizmente, só na arte e nos livros a cabeça ousa.

The PPP might also help us answer a hugely important question, which actually got me thinking about purpose in the first place: why would any of us ever choose to have children? I mean really choose to, rather than because of a biological imperative to reproduce? A big part of the answer to this question must be because we would expect to be happier as a result. What do the data tell us? Well mostly, that, at best, children are neutral in their impact on happiness.
Now, it could still be the case that many of those who have kids might have been much less happy if they remained childless and also that some of those without kids would have been happier with them. To truly show the effect of kids on happiness, we would need to know what otherwise might have been the case for each individual, and this is impossible to establish. This highlights the fact that we need to be very careful about making any claims about the causal effects of life events on happiness when people, to some degree at least, self-select into the groups whose happiness we are comparing.
It should come as no great surprise that having children does not improve happiness, though. You need only to have a desire for having sex, which sometimes results in pregnancy, and then to emotionally connect to a baby that looks like you when it is born, which means that you are then much less likely to abandon your kids. What happens to your happiness thereafter is then of little consequence.

Demência digital


Temei.
A era moderna está constantemente removendo obstáculos ao vício em verificar e-mails ou atualizações de amigos virtuais no Facebook. Médicos estão agora alertando sobre "demência digital", que é definida como déficits irreversíveis no desenvolvimento do cérebro e perda de memória em crianças que passam bastante tempo em equipamentos eletrônicos como laptops e celulares.

A história do pescador

Um dos problemas que o livro discute é quanto vale a pena trabalhar para ganhar mais ou para ser promovido. Para explorar o tema, o autor introduz, vejam só, a história do pescador brasileiro que eu pauleei em outro post (para ler, clique aqui).

Foi a primeira vez que vi a história em inglês. Mas o episódio parece pertencer mesmo ao Brasil:

There was once a businessman who was sitting by the beach in a small Brazilian village. As he sat, he saw a Brazilian fisherman rowing a small boat toward the shore having caught quite a few big fish.

Para quem não sabe, é uma história em que um executivo sai para pescar e conhece um pescador humilde que, depois de pescar uns peixes grandes, começa a caminhar para casa. O executivo critica a falta de ambição do pescador humilde, que, se trabalhasse duro e aproveitasse seu talento de pescador, rapidamente enriqueceria e se aposentaria para viver uma vida tranquila e feliz. O pescador não vê sentido na crítica, porque já leva uma vida tranquila e feliz.

Essa história não ensina nada.

Neste caso, o autor aproveitou a história para lembrar que, além de perder a tranquilidade que se persegue, o trabalhador dedicado perde amigos no caminho, e se sente deslocado e estranho nos ambientes mais ricos que passa a frequentar.

Much of what the fisherman is meant to aspire to he has now. The consequences of this tale could, in fact, turn out to be worse than circular, as the fisherman loses friends on the way up and out. He could also develop doubts about his sense of identity. This is one reason why many of the scholarship kids from poor backgrounds are not as happy as their equally high-achieving peers from wealthier backgrounds.

O raciocínio é lógico, mas incompleto. Perde-se amigos no caminho, mas faz-se outros. E o senso de identidade pode ficar em dúvida no começo de uma experiência, mas uma nova identidade começa a se formar no mesmo momento. Isso não é nada mais que vivência. Toda pessoa que tiver o privilégio de envelhecer passará por isso em algum momento. A casa não parece mais nossa, o bairro em que crescemos não é mais aquele, as pessoas não se comportam como antes, as músicas mudam, e um dia quase todo o planeta é mais novo do que você, e suas preferências importam cada vez menos para o mundo.


Gostar de romances

Orhan Pamuk defende que os romances são as coisas mais preciosas. São a janela para o que as pessoas de uma época pensam e sentem.

Os romances são o acesso direto à intimidade do escritor, das pessoas que conheceu, das que escondeu, e das que gostaria de ter sido. Com os romances interage-se com outros humanos como não se pode de outra forma.

Meu caro Paul Dolan... você quase me faz jogar seu livro pela janela.

I have never read a novel in my life (unless you count Of Mice and Men at school...)

Mas você não está errado. Eu gosto de ler romances e, naturalmente, adoraria acreditar que isso me deixa mais inteligente e me faz melhor. Mas não há evidência nesse sentido. A verdade é que, para quem gosta, ler romances é viver. Pode ser puro hedonismo.


Trechos

When thinking about how to be happier, you must keep in mind that your memories of the past are important experiences of happiness in the present. Happiness includes good memories of good experiences.

Some philosophers say that you can only really judge a life from its deathbed, as you reflect upon your successes and failures. To quote Bertrand Russell, "I feel as if one would only discover on one's deathbed what one ought to have lived for." But no moment should be privileged simply because it is that moment, and that includes your deathbed. I'm sure may of us care about how we will look back on our lives on our deathbed, but the value of our lives comes from the experiences of pleasure and purpose over our lifetimes and not from a judgment we might make at an arbitrarily chosen moment in time.


Mais sobre o livro

Revisão do livro no Telegraph:
http://www.telegraph.co.uk/culture/books/bookreviews/11047898/Happiness-by-Design-review-occasionally-jargon-heavy.html

Entrevista com Paul Dolan na Veja:
http://veja.abril.com.br/economia/prazer-mais-proposito-a-equacao-da-felicidade/

Algumas ideias de Paul Dolan na Galileu:
http://revistagalileu.globo.com/Revista/noticia/2015/08/siga-nosso-guia-anarquista-da-felicidade-cientifica.html

Boa revisão no Goodreads:
https://www.goodreads.com/book/show/18667892-happiness-by-design

quarta-feira, 15 de março de 2017

A Importância dos Livros



Copiado de The Book Of Life

Os grifos são meus.

E só sou capaz de grifar. O motivo está no corpo do texto.


The Importance of Books


Around 130 million books have been published in the history of humanity; a heavy reader will at best get through 6,000 in a lifetime. Most of them won’t be much fun or very memorable. Books are like people; we meet many but fall in love very seldom. Perhaps only thirty books will ever truly mark us. They will be different for each of us, but the way in which they affect us will be similar.

The core – and perhaps unexpected – thing that books do for us is simplify. It sounds odd, because we think of literature as sophisticated. But there are powerful ways in which books organise, and clarify our concerns – and in this sense simplify.

Centrally, by telling a story a book is radically simpler than lived experience. The writer omits a huge amount that could have been added in (and in life always – by necessity – is there). In the plot, we move from one important moment directly to the next – whereas in life there are endless sub-plots that distract and confuse us. In a story, the key events of a marriage unfold across a few dozen pages: in life they are spread over many years and interleaved with hundreds of business meetings, holidays, hours spent watching television, chats with one’s parents, shopping trips and dentist’s appointments. The compressed logic of a plot corrects the chaos of existence: the links between events can be made much more obvious. We understand – finally – what is going on.


Writers often do a lot of explaining along the way. They frequently shed light on why a character is acting as they do; they reveal people’s secret thoughts and motives. The characters are much more clearly defined than the people we actually encounter. On the page, we meet purer villains, braver more resourceful heroes, people whose suffering is more obvious or whose virtues are more striking than would ever normally be the case. They – and their actions – provide us with simplified targets for our emotional lives. We can love or revile them, pity them or condemn them more neatly than we ever can our friends and acquaintances.

We need simplification because our minds get checkmated by the complexity of our lives. The writer, on rare but hugely significant occasions, puts into words feelings that had long eluded us, they know us better than we know ourselves. They seem to be narrating our own stories, but with a clarity we could never achieve.

Literature corrects our native inarticulacy. So often we feel lost for words; we’re impressed by the sight of a bird wheeling in the dusk sky; we’re aware of a particular atmosphere at dawn, we love someone’s slightly wild but sympathetic manner. We struggle to verbalise our feelings; we may end up remarking: ‘that’s so nice’. Our feelings seem too complex, subtle, vague and elusive for us to be able to spell out. The ideal writer homes in on a few striking things: the angle of the wing; the slow movement of the largest branch of a tree; the angle of the mouth in a smile. Simplification doesn’t betray the nuance of life, it renders life more visible.


The great writers build bridges to people we might otherwise have dismissed as unfeasibly strange or unsympathetic. They cut through to the common core of experience. By selection and emphasis, they reveal the important things we share. They show us where to look.

They help us to feel. Often we want to be good, we want to care, we want to feel warmly and tenderly – but can’t. It seems there is no suitable receptacle in our ordinary lives into which our emotions can vent themselves. Our relationships are too compromised and fraught. It can feel too risky to be very nice to someone who might not reciprocate. So we don’t do much feeling; we freeze over. But then – in the pages of a story – we meet someone, perhaps she is very beautiful, tender, sensitive, young and dying; and we weep for her and all the cruelty and injustice of the world. And we come away, not devastated, but refreshed. Our emotional muscles are exercised and their strength rendered newly available for our lives.

Not all books necessarily contain the simplifications we happen to need. We are often not in the right place to make use of the knowledge a book has to offer. The task of linking the right book to the right person at the right time hasn’t yet received the attention it deserves: newspapers and friends recommend books to us because they work for them, without quite thinking through why they might also work for us. But when we happen to come across the ideal book for us we are presented with an extraordinarily clearer, more lucid, better organised account of our own concerns and experiences: for a time at least our minds become less clouded and our hearts become more accurately sensitive. Through books’ benign simplification, we become a little better at being who we always really were.