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sábado, 3 de fevereiro de 2018

A Revolta de Atlas - Ayn Rand



Impressões gerais

A Revolta de Atlas é um clássico moderno. Já foi resenhado, interpretado e adaptado muitas vezes. Para escrever este post, ignorei esse fato. Finjo que o livro é um lançamento e divido impressões.

Gostei e desgostei do livro a maior parte do tempo. Senti desprazer com a estória mal contada e com as pretensões filosóficas. Mas apreciei a exploração de alguns temas, e principalmente o estilo da prosa.

Pretendo manter o livro na prateleira, mas não ao lado dos melhores.


Inclinações políticas do blogueiro

No decorrer deste post, falo bem e mal do livro. E o livro fala bastante de política. Quem ler este post pode achar que minhas impressões foram influenciadas por minhas posições.

Para ajudar ou atrapalhar quem for tentar adivinhar minhas inclinações, seguem as dicas. Eu:

  - gosto de viajar para os Estados Unidos.
  - odeio imposto e também odeio ostentação de riqueza.
  - entendo que quem tem dinheiro tem o dever de dividi-lo com os miseráveis.
  - nas próximas eleições, vou escolher um candidato, ou votar em branco, ou anular o voto.
  - não vou dizer em quem votei, porque não sou obrigado. O voto é secreto.

Acredito que minhas impressões do livro não estão contaminadas de viés político.


Inclinações literárias do blogueiro

Das coisas que não gostei no livro, foi por violarem o que considero regras de ouro do romance, que me foram apresentadas em livros do Orhan Pamuk. Uma delas é:
O prazer real de ler um romance surge com a capacidade de ver o mundo não a partir de fora, mas pelos olhos dos protagonistas que habitam esse mundo.  

Antes que eu tivesse uma chance de gostar ou desgostar de alguma personagem, a autora já as havia apresentado como mocinhas ou vilãs. Ela se concentrou em julgar, e na melhor das hipóteses em especular sobre suas razões, não em entender.


Personagens artificiais

A Revolta de Atlas não corre naturalmente. A autora força os acontecimentos em uma direção, obrigando seus personagens bonzinhos a expor o que só pode ser o ponto de vista dela, e seus personagens desprezíveis a dizerem o que ela acredita que seus inimigos pensam.

A personagem John Galt, por exemplo, apresentada como o gênio entre os gênios, toma o controle de todas as rádios do país para transmitir um discurso ideológico. O discurso toma dezenas de páginas.

Suspeito que a autora escolheu sua personagem mais nobre para dar vazão aos seus próprios pensamentos.


Diálogos artificiais

As personagens fazem as exatas perguntas de que as outras precisam para expor seus argumentos com clareza e estilo. Os mais malvados criam sem parar oportunidades para que as protagonistas Dagny Taggart, Hank Rearden, Francisco d'Anconia e John Galt discursem sobre valores e os humilhem.

No que considero um bom romance, esqueço que estou lendo ficção. O que vejo parece real. Mas em A Revolta de Atlas, essa ilusão nunca dura muito tempo.

... assim como em alguns sonhos, queremos que o romance que estamos lendo prossiga e esperamos que essa segunda vida continue evocando em nós uma sensação consistente de realidade e autenticidade. Apesar do que sabemos sobre a ficção, ficamos irritados e aborrecidos se um romance deixa de sustentar a ilusão de que é, na verdade, a vida real. 
Orhan Pamuk.


O tema do livro

Uma pessoa boa é aquela que se preocupa consigo mesma, vivendo para trabalhar e trabalhando para viver. Pessoas ruins são aquelas que querem viver às custas das pessoas boas.

I want to be prepared to claim the greatest virtue of all - that I was a man who made money.
...there's nothing of any importance in life - except how well you do your work. Nothing. Only that. Whatever else you are, will come from that. It's the only measure of human value. All the codes of ethics they'll try to ram down your throat are just so much paper money put out by swindlers to fleece people of their virtues. The code of competence is the only system of morality that's on gold standard.
A Revolta de Atlas 

O mundo tem poucas pessoas boas, competentes e corajosas, que carregam uma humanidade ruim e covarde nas costas. O melhor lugar do mundo são os Estados Unidos, onde investidores, juízes, executivos, músicos e engenheiros geram, coordenam e inspiram mais riqueza.

Ninguém na estória do livro é meio termo. Sempre está claro quem é quem.

Danny Taggart, por exemplo, é dedicada, destemida, inteligente e linda. Já James Taggart é inseguro, invejoso, incompetente e feio. Só sabe coordenar corruptos para levar o governo a criar políticas ditas "sociais", através das quais o dinheiro dos honestos termina no seu bolso.


A trama

Alerta de Spoilers - aqui revelo detalhes da estória, inclusive o final.

O planeta está em recessão econômica. O motivo é que governos castigaram a ganância, tentando redistribuir a renda dos ricos para os pobres. No processo, tomaram a riqueza dos ricos e deram para os folgados e os ladrões.

As empresas morrem aos montes, pois não aguentam tanto tributo e regulamentação. América Latina e Europa estão sob o controle de quase ditaduras socialistas.

Nos Estados Unidos, o capitalismo dá os últimos suspiros. Não bastasse o governo sufocar a economia, os empresários e profissionais mais competentes do país começam a desaparecer misteriosamente.

Os desaparecimentos são obra de John Galt, um engenheiro alto, forte, bonito, corajoso, que resolve toda espécie de problema sem precisar pensar, inventa tecnologias, e é admirado e aceito como líder por todos que o conhecem. Ele encontra e persuade as maiores mentes dos Estados Unidos a abandonar a sociedade e a se esconder em seu vale paradisíaco e invisível. Ali, seu grupo de gênios não vai mais carregar o mundo nas costas.

Escondidos no vale, os nobres empresários e profissionais aguardam até que o mundo pare e os burocratas morram, já que não têm mais quem tributar, regular e roubar. E esse dia chega. Até as luzes de Nova Iorque se apagam, porque não há mais quem saiba operar as usinas na Terra. A tecnologia retrocede. Os trens param, e as pessoas passam a andar de carroça.

Finalmente, depois do fim do mundo, John Galt e seu grupo decidem que é hora de sair de seu vale e refundar a sociedade:

The road is cleared... we are going back to the world. 
A Revolta de Atlas 


Então o livro acaba.

Em mais de mil e duzentas páginas, a autora arquitetou a destruição do mundo. Na hora de construir um melhor, parou de escrever.


Como interpretar o livro?

A mensagem é que pouca gente de valor sustenta a humanidade imprestável.

Para que o mundo melhore, os ignorantes e corruptos precisam seguir as pessoas perfeitas que parecem heróis gregos. Exemplos dessas pessoas são suas incorruptíveis personagens Hank Rearden, John Galt, Dagny Taggart e Francisco d'Anconia, que sabem o que fazer em qualquer situação, criam tecnologias, preveem o futuro e não têm pena de ninguém.

Considerei que talvez a obra e suas personagens devessem ser entendidas como alegorias. Mas um dos valores defendidos no livro é a absoluta objetividade, que se trate dos assuntos sem referências indiretas, sem falar de perspectivas gerais, contexto como um todo, e outras expressões vagas.

He had no capacity for the sort of conversations which were not supposed to be meant.
         A Revolta de Atlas


E a própria autora propõe um entendimento literal de suas personagens:

Creio que ninguém vai me dizer que homens como esses sobre os quais escrevo não existem. Este livro ter sido escrito - e publicado - é minha prova de que existem sim.
         Ayn Rand


Uma estória que não respeita sua própria lógica

Em uma festa de ricos, os presentes recebem a notícia de que seu dinheiro investido em ações foi perdido, e saem do recinto em pânico. No capítulo seguinte, todos continuam ricos e tranquilos.

Um dia o governo proíbe que investidores sejam donos de grandes empresas. No dia seguinte, está tudo como antes.

O governo tenta evitar mais recessão "congelando"a economia. Ficam proibidas contratações, demissões, invenções e mudanças de preços. A novidade joga o país em mais um caos. Mas as empresas dos heróis Hank Rearden e Dagny Taggart não sofrem os efeitos.

Telefone, ar-condicionado, trens, estradas, motores, eletricidade, serviços... tudo pifa. A comida é ruim, porque as pessoas não sabem cozinhar. É difícil se deslocar, porque ninguém sabe dar informação. As pessoas até temem que os prédios desabem sob suas cabeças.

She could not tell whether the four at the counter were beggars or working men; neither clothes nor manner showed the difference, these days.
         A Revolta de Atlas


Mas de alguma forma, os executivos Hank Rearden e Dagny Taggart utilizam relatórios contábeis e gerenciais precisos. Recebem de seus empregados a informação completa de que necessitam para gerir brilhantemente seus negócios. Isso mostra como a autora entendia do mundo corporativo que descreveu!

Interessante notar que quando precisam construir uma nova ferrovia ou uma ponte, começam imediatamente, sem precisar de projeto ou de financiamento.

E apesar da corrupção e da incompetência generalizadas, Hank e Dagny sempre têm funcionários em que depositam confiança plena. Nunca são enganados, ou mesmo confundidos por eles.


Filosofia

Entre as poucas coisas que ouvi sobre o livro antes de lê-lo, é que trata-se de uma obra de filosofia. Não sou filósofo, então não vou opinar. Mas caso alguém queira saber, esse livro não me parece filosofia não.

Porém, a seguinte pergunta sai da boca de um dos personagens mais desprezíveis, James Taggart:

She... spends her life building tracks and bridges, not for any great deal, but only because that's what she enjoys doing. If she enjoys it, what is there to admire about her doing it?

Essa é, na minha humilde opinião, uma pergunta que merece e precisa ser feita.

Antes e depois dessa pergunta, James Taggart só abre a boca para mentir, chantagear, corromper, invejar e sofismar. Então me parece que se a autora utilizou a boca dele para articular esta interessante pergunta, é porque em sua opinião a pergunta só ocorre a pessoas desprezíveis.


Falando bem

As incoerências e ingenuidades da estória, em que navegam personagens artificiais, tornam essa leitura não muito prazerosa.

Já o estilo me agradou bastante. Seguem belas amostras:

Not everyone has friends in Washington, not everyone can benefit from a strong state.
Times change, and people change with the times - the wise ones do. Wisdom lies in knowing when to remember and when to forget. Consistency is not a habit of mind which it is wise to practice or to expect of the human race.
The evaluation of an action as 'practical', Dr. Ferris, depends on what it is that one wishes to practice.
There's no way to rule innocent men. The only power any government has is the power to crack down on criminals. Well, when there aren't enough criminals, one makes them. One declares so many things to be a crime that it becomes impossible for men to live without breaking laws. Who wants a nation of law-abiding citizens? What's there in that for anyone? But just pass the kind of laws that can neither be observed nor enforced nor objectively interpreted - and you create a nation of law-breakers - and then you cash in on guilt.
These were the standards which he did not live by, but had to consider.
The same kind of brain can't do both. Either you are good at running the mills or you're good at running to Washington.


E há pelo menos dois temas que A Revolta de Atlas explorou bem, ainda que involuntariamente, acredito.

O primeiro é a luta das personagens, das pessoas, e acredito que da própria autora, para acreditar que não devem caridade a ninguém. É a vontade de se convencer de que é moral perseguir os próprios interesses, sem sentir culpa pelo sofrimento alheio, e muito menos responsabilidade por diminuí-lo. É a ânsia de se persuadir de que conquistamos a saúde e os privilégios com que nascemos, enquanto os enfermos e os pobres são culpados pelo seu estado e atraem desgraça.

O segundo são as possíveis razões que levam uma pessoa a fingir compaixão. Tememos que alguém nos convença de sua santidade, e então nos engane e nos roube. Que nos acusem de ganância e distribuam nossos pertences, não porque se importam com os pobres, mas porque desejam tomar o que é nosso, e nos ver diminuídos e humilhados.

...do you know the hallmark of the second-rater? It's the resentment of another man's achievement.
A Revolta de Atlas 


Trechos

They dislike me, not because I do things badly, but because I do them well.
Both of them smiled derisively. But Francisco seemed to laugh at things because he saw something much greater. Jim laughed as if he wanted to let nothing remain great.
How can one deal in truth when one deals with the public?
It is not advisable, James, to venture unsolicited opinions. You should spare yourself the embarrassing discovery of their exact value to your listener.
Society is a complex structure. There are so many different issues awaiting decision, hanging by a thin thread. We can never tell when one such issue may be decided and what may be the decisive factor in a delicate balance. Do I make myself clear?

sábado, 20 de janeiro de 2018

Incesto - Anaïs Nin



Leitura abandonada

Essa seria uma continuação dos diários publicados como Henry e June, de que gostei.

Fui até a página sessenta. Não parece o mesmo diário. O texto é exagerado, impreciso, confuso, repetitivo e dramático demais.

Não dá para criticar a autora. Esse é seu diário, que ela podia escrever como quisesse.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

O Romancista Ingênuo e o Sentimental - Orhan Pamuk



Às vezes arriscamos pintar um quadro, compor uma canção, escrever um texto, e acaba ficando bom. Tentamos de novo, e sai ainda melhor. Descobrimos que temos talento para a coisa. Nunca ninguém nos ensinou nada, mas levamos jeito. Simplesmente sabemos aquilo. Podemos sair fazendo, sem pensar, usando nossa sensibilidade. Orhan Pamuk chama de ingênuo o escritor que executa esse milagre.

Um profissional pode então revisar nossa obra - por exemplo, um livro - e apontar problemas. A narrativa é incoerente, confusa e longa demais. Nos falta técnica. Nosso escrito fica ruim e ninguém aguenta ler. Não adianta uma artista ser apenas talentosa e ingênua. Ela também precisa ser sentimental. Isto é: ser conhecedora do ofício, fria, racional e crítica. A romancista precisa ser ingênua para criar vidas e universos, e também sentimental, para polir sua criação.

Quanto mais o romancista consegue ser, ao mesmo tempo, ingênuo e sentimental, melhor ele escreve.

Em O Romancista Ingênuo e o Sentimental, Orhan Pamuk usa essa distinção para falar sobre ler e escrever romances literários.

A vida dos protagonistas, seu lugar no mundo, a maneira como sentem, veem e lidam com seu mundo - esse é o tema do romance literário.
... a arte de escrever romances é a capacidade de perceber os pensamentos e sensações dos protagonistas numa paisagem - quer dizer, entre os objetos e imagens que os rodeiam. 

Para mim e para muitos, ler O Romancista Ingênuo e o Sentimental é felicidade. Este livro me deixa com vontade de ser romancista.


É difícil expressar um sentimento. Com frequência, nem é possível. Certas sensações e experiências são únicas para quem as viveu. Coloque uma dessas no papel, e ninguém lhe entenderá. Tentar descrever é inútil. Sua melhor chance é não tentar explicar. Ao invés disso, narre uma estória. Descrevendo objetos, pessoas e circunstâncias, pode ser que você induza no leitor aquilo que sente e pensa.

Ou pode ser que não.

Pode ser que eu seja incapaz de entender os sentimentos por trás de O Gigante Enterrado de Kazuo Ishiguro, e que eu não possa culpar quem acha O Museu da Inocência tedioso.

Assim é porque as vezes em que o esquecemos são as vezes em que acreditamos que o mundo fictício é real e que o "espelho" do escritor (metáfora antiquada para a maneira como o romance retrata ou "reflete" a realidade) é perfeito e natural. Evidentemente, não existe espelho perfeito. Só existem espelhos que correspondem perfeitamente às nossas expectativas. Todo leitor que decide ler um romance escolhe um espelho de acordo com seu gosto.

Um escritor pode escrever uma estória imaginada, uma ficção pura, e ainda assim revelar mais sobre si mesmo do que gostaria. Orhan Pamuk pode não ser seu protagonista Kemal, e talvez nunca tenha vivido suas experiências, como herdar e abrir mão de sua parte em um negócio lucrativo, ou se tornar um acumulador de objetos. Mas quando descreve o ciúme, a vergonha e a saudade que Kemal sente, está descrevendo sentimentos que conhece, porque já os viveu.


O romance literário possui um centro secreto. Quando é mais do que um vira-páginas, promessa de acontecimentos, excitação de suspenses e brincadeiras com pequenos mistérios, o romance é uma reflexão.

... cada frase de um bom romance suscita em nós um senso do conhecimento profundo e essencial do que significa existir nesse mundo. Também aprendi que nossa trajetória por esse mundo, a vida que levamos em cidades, ruas, casas, salas e na natureza consiste em nada mais que uma busca de um sentido secreto que pode ou não existir.
Para mim, o valor de um romance está em seu poder de provocar uma busca por um centro que também podemos ingenuamente projetar no mundo. Para simplificar: a real medida desse valor deve ser a capacidade do romance de despertar a sensação de que a vida é, com efeito, exatamente assim. O romance deve se dirigir a nossas principais ideias sobre a vida e deve ser lido com a esperança de que fará isso.

Manuais ensinam que as personagens são o centro de um livro. Editoras demandam que suas personalidades estejam claras e que entrem em conflito. Cada participante na estória deve ter seu jeitão e suas manias para que sejam memoráveis e interessantes para o leitor.

Mas acredito que essa seja uma tática comercial. Os leitores só vão gostar da mercadoria livro se encontrarem entretenimento, daí a importância das personagens.

Já nos romances literários, que não estão ali para entreter, mas para perturbar nossos pensamentos e sentimentos, é importante que as personagens e as ocorrências tenham mais semelhanças com a vida real. E na vida real, as pessoas são mais parecidas entre si. Suas personalidades não são tão marcantes e distintas.

Como acredito que o objetivo essencial da arte do romance é exibir uma acurada representação da vida, permitam-me ser franco. Na verdade, as pessoas não têm tanto caráter como o que encontramos no romance, sobretudo no romance dos séculos XIX e XX. Estou com 57 anos de idade ao escrever estas palavras. Nunca consegui identificar em mim mesmo o tipo de caráter que encontro nos romances - ou melhor, nos romances europeus. Ademais, o caráter humano não é tão importante na moldagem e nossa vida quanto se pretende que seja no romance e na crítica literária do Ocidente. Dizer que a criação do caráter da personagem deve ser o objetivo primário do romancista vai de encontro ao que sabemos sobre a vida humana em geral.
Assim como o mexerico sobre o caráter de pessoas que conhecemos na vida real, discursos eloquentes que celebram a natureza inesquecível de certos heróis literários frequentemente não passam de retórica vazia. 
O romancista não inventa primeiro um protagonista com uma alma muito especial e depois se deixa levar por ele a assuntos ou experiências específicas, segundo os desejos dessa figura. A vontade de explorar determinados tópicos surge primeiro. Só depois o romancista concebe as figuras mais adequadas para elucidar tais tópicos. É assim que sempre tenho feito. E acho que todos os escritores, consciente ou inconscientemente, fazem a mesma coisa.


Então qual é o objeto do romance literário?

A questão definidora da arte do romance não é a personalidade ou o caráter dos protagonistas, mas a maneira como veem o universo dentro da história.
Ao escrever um romance, de início meus anseios mais intensos são ter certeza de poder "ver" em palavras alguns tópicos e temas, explorar um aspecto da vida que nunca foi retratado até então e ser o primeiro a verbalizar os sentimentos, pensamentos e circunstâncias daquelas pessoas que vivem no mesmo universo que eu.
O que permanece em nossas mentes muitas vezes é a configuração geral ou o mundo inclusivo do romance, que chamo de "paisagem." Mas o protagonista é o elemento que nós sentimos que lembramos. Assim, em nossa imaginação, o nome dele ou dela se torna o nome da paisagem que o romance nos apresenta.


Por que lemos romances?

Alimentar o gosto pelo romance, cultivar o hábito de ler romances indica um desejo de escapar da lógica do mundo cartesiano monocêntrico, onde corpo e mente, lógica e imaginação estão em oposição. Um romance é uma estrutura única que nos permite ter pensamentos contraditórios sem constrangimento e entender diferentes pontos de vista ao mesmo tempo.

romance é também um remédio. Nossa percepção da realidade está distorcida pelo noticiário e pela ficção ordinária, que apontam suas lentes para os líderes e para os eventos mais barulhentos do mundo. O romance literário nos lembra que cada pessoa é um universo, e que os sentimentos e os pensamentos dos nossos vizinhos e colegas são até mais importantes.

Quando deixamos de lado as narrativas tradicionais e passamos a ler romances, sentimos que nosso mundo e nossas escolhas podem ser tão ou mais importantes quanto fatos históricos, guerras internacionais e decisões de reis, paxás, exércitos, governos e deuses - e que, ainda mais extraordinário, nossas sensações e nossos pensamentos têm potencial para ser muito mais interessantes que qualquer uma dessas coisas. 

E por que escrevem romances?

O anseio de criar os muitos tipos possíveis de herói superando todas as diferenças de cultura, história, classe e gênero - de transcender a nós mesmos a fim de ver e descobrir o todo - é um anseio liberador básico que torna atraente ler e escrever romances, bem como uma aspiração que nos faz reconhecer os limites da capacidade humana de entender o outro.

Em O Romancista Ingênuo e o Sentimental, e também em outros escritos e em entrevistas, Orhan Pamuk diz que leu, intensamente e com êxtase, muitos livros até chegar aos seus trinta anos. Em O Museu da Inocência, quando seu protagonista Kemal e sua noiva Sibel estão com trinta anos ou perto disso, Orhan diz que estão aproveitando os últimos dias de sua juventude.

Fico imaginando o que mudou na vida de Orhan Pamuk quando fez trinta anos. Parou de ler intensamente e com êxtase? Sentiu-se velho?

Ao devorar romances em minha juventude, eu experimentava uma vertiginosa sensação de liberdade e autoconfiança.

domingo, 29 de outubro de 2017

Um pai sem filho

Near Newport, Rhode Island - John Frederick Kensett

As a fatherless son, so a sonless father will be embraced by none.

Ferdowsi, Shahnameh

domingo, 3 de setembro de 2017

A Mulher de Cabelo Vermelho - Orhan Pamuk



Alerta de spoiler: este post revela detalhes de The Red-Haired Woman e de outros livros de Orhan Pamuk, inclusive o final.

Entre os prazeres de se ler Orhan Pamuk está o de viajar para o passado e para o futuro.

Quando Orhan descreve as sensações de ser criança, vejo minha infância com nitidez. Quando suas personagens vivem a adolescência, os primeiros anos como adultas e a passagem pelos trinta, reconheço suas agonias e alegrias. As almas e as circunstâncias criadas por Orhan Pamuk têm a textura da vida real.

Por isso, quando Orhan fala das idades que ainda não tenho (quarenta, cinquenta, sessenta), sei que estou aprendendo como serão meus anos.

Como O Museu da Inocência e Uma Estranheza em MimThe Red-Haired Woman já no início revela o assunto do romance e seu final:

I had wanted to be a writer. But after the events I am about to describe, I studied engineering geology and became a building contractor. Even so, readers shouldn't conclude from my telling the story now that it is over, that I've put it all behind me. The more I remember, the deeper I fall into it. Perhaps you, too, will follow, lured by the enigma of fathers and sons.

Sabemos na primeira página que o protagonista não realizou seu sonho de ser escritor, e que ainda está perturbado pela história que conta. Orhan não promete suspense.

Entre os romances que li de Orhan Pamuk, The Red-Haired Woman é o mais curto e intenso. Notei cinco temas principais:


1 - Sentimentos de admiração, competição e repulsa que um filho direciona a seu pai;

2 - A procura de figuras paternas para preencher espaços que um pai deixou vazios;

3 - Decepção e frustração de pais em relação a seus filhos;

4 - Hábitos e tradições mudando rapidamente em Istanbul;

5 - Incesto.


O tema 1 é recorrente nos livros de Orhan Pamuk. Em O Museu da Inocência, o protagonista Kemal fala sobre os sentimentos de reverência e seriedade que os objetos de seu pai lhe suscitam: lâmina de barbear, desodorante, graxa de sapato... Em Istanbul, o autor fala do sucesso financeiro, da beleza e do jeito de galã de seu pai. E em A Maleta do Meu Pai, Orhan fala sobre a satisfação que sentiu ao descobrir que seu pai gostaria de ter sido escritor, mas não teve coragem. Esse tema volta violentamente na última frase de The Red-Haired Woman:

Remember: your father always wanted to be a writer, too.

Em um debate em Londres em 15 de setembro de 2017, Orhan Pamuk dividiu que esse livro concentra seus sentimentos e experiências com o assunto da paternidade. Presumo que o tema 2 também deriva de sua experiência pessoal. O pai do jovem protagonista Cem se ausentava por longos períodos. Cem acabava encontrando figuras paternas em seus chefes: primeiro em um dono de livraria, e, depois, muito mais intensamente, em um poceiro. A substituição parece ocorrer dos dois lados: Cem admira e ressente o poceiro como se fosse seu pai. Já o poceiro lhe instrui, protege, agride e reage contrariado quando Cem não o enxerga como um herói. E tanto o poceiro quanto o livreiro fazem planos para o seu futuro, ensinam seu ofício e desejam que Cem siga seus passos.

O tema 3 brota na primeira e na última parte do livro. Na primeira, o poceiro Mahmut é rude e agressivo com seu aprendiz, Cem, quando não executa o trabalho da maneira que Mahmut idealiza, depois de tentar ensiná-lo com carinho e de estar emocionalmente envolvido com o jovem. Na última, Cem está frustrado com a aparência, os modos e a posição social de seu próprio filho, um contador mediano. Quando Cem percebe em seu filho alguma beleza e firmeza, sente orgulho. Mas em certos momentos, como quando nota que seu filho tem tons de arrogância e dificuldades para abrir um cadeado, prefere acreditar que aquele nem é seu filho.

O tema 4 é outra constante na obra de Orhan Pamuk, e espero que continue sendo. Sinto imenso prazer ao aprender, através de sua ficção, os hábitos e as ansiedades que existem ou existiram entre os cidadãos da Istanbul de seu tempo. Orhan recebeu o Prêmio Nobel, ensina nas melhores universidades do mundo e seus livros são traduzidos para dezenas de línguas, portanto seu registro das tradições de Istanbul e de seus significados, na forma de romances, está bem divulgado, protegido e disponível. Fantasio que registros e divulgações igualmente poderosos sejam feitos dos hábitos do Brasil do século XX, que, como os hábitos de Istanbul, vão sendo apagados rapidamente pela modernidade.

O tema 5 é explorado sutilmente e com frequência, sempre de forma enigmática, começando pela página de citações, em uma frase de Nietzsche...

There is a primitive popular belief, especially in Persia, that a wise Magian can be born only of incest.

...e terminando com um dos últimos parágrafos:

I would just hold his hand, and caress his arms, his shoulders, his back, his neck. He, in return, would cradle his sixty-year-old mother's hands in his and kiss them as fervidly as a lover.

Os cinco temas se conectam por uma trama.

1 - Um engenheiro introduz sua história, informando o leitor de que gostaria de ter sido um escritor, e que o enigma de sua vida é a relação entre pais e filhos. Aos quarenta e cinco anos, Cem ainda gosta de sentir cheiro de farmácia, como a daquela em que Akin Çelik, seu pai, trabalhava e onde passavam tempo juntos uma vez por semana.

2 - A narrativa avança para o dia em que o pai de Cem desaparece. Não era a primeira vez. Já havia sido preso por seu envolvimento com a militância de esquerda. Anos mais tarde sumira de novo, por razão que Cem não sabia ao certo. Mas agora a ausência de Akin Çelik deixava filho e esposa muito apertados de dinheiro. O jovem Cem ganha pouco trabalhando em uma livraria, a livraria do Sr. Deniz, que se apega a Cem rapidamente. Orgulhoso, Sr. Deniz apresenta Cem a conhecidos como um futuro escritor. Talvez Sr. Deniz tenha aprendido a ver Cem como um filho.

3 - A mãe de Cem acha que o salário pago por Sr. Deniz é muito pouco, e não gosta da ideia de o filho tentar ser escritor. Talvez para tirar Cem da influência de Deniz, cortar uns gastos e aumentar a renda, a mãe decide se mudar com Cem para a casa de tios. Ali, Cem recebe para vigiar a plantação de cerejas e pêssegos dos parentes. No jardim próximo à plantação, Cem observa que um senhor e dois aprendizes cavam um poço. O senhor nota o interesse de Cem, e convida-o para ser seu aprendiz em uma escavação que está para começar, perto de Küçükçekmece.

4 - Cem aceita o convite, que significa que terá que se afastar da mãe por algumas semanas. A mãe sofre com a novidade e chora a partida do filho, que passa a acampar com seu mestre, Mahmut, em um terreno longe dali, para que possam trabalhar no poço o dia inteiro. Mestre Mahmut cava o poço com uma picareta. O trabalho de Cem é carregar para longe a terra e as pedras que saem do poço.

5 - Depois de dois dias de trabalho pesado, Mestre Mahmut e seus dois aprendizes caminham por quinze minutos até Öngören, uma cidade de 6,200 habitantes. Lá compram suprimentos e ferramentas. No caminho de volta, passam na frente de uma casa. A porta da frente se abre, e saem uma senhora, depois um jovem adulto, e então aquela que parece sua irmã mais velha: uma mulher alta de cabelos ruivos. Ela oferece a Cem um sorriso melancólico, doce e afetuoso, como se houvesse notado algo de especial nele.

6 - De volta ao local de trabalho, Cem pensa constantemente na mulher ruiva que acabou de ver, e que está no título do livro. Está apaixonado. Sempre que Mestre Mahmut e Cem visitam Öngören para mais compras e para descansar, Cem passa novamente na frente da casa para tentar rever a mulher ruiva. É em um teatro itinerante que Cem a encontra. Ela é uma atriz e se chama Gulciham. Nas poucas vezes que se encontram, Gulciham olha para ele novamente com carinho, como se já o conhecesse.

7 - Os pensamentos e sentimentos de Cem estão sempre em Gulciham. Mas há mais sensações revirando sua alma nesse momento. Mestre Mahmut lhe instrui e lhe protege como nunca ninguém fez. E também lhe trata com dureza e rispidez que ele não conhecia. Ora Cem lhe quer bem, ora lhe ressente. Seu envolvimento emocional com Mahmut é mais profundo do que o que tem com seu pai. A convivência se torna mais desafiadora com os dias, o poço vai ficando mais fundo sem nunca surgir água e começa parecer que foi cavado no lugar errado. O dono do terreno comunica que não pagará mais salário pelo trabalho, a não ser que façam uma tentativa cavando em outro ponto. Mas Mahmut insiste que sabe o que está fazendo e prefere correr o risco de continuar cavando no mesmo lugar.

8 - Cem vai ao teatro itinerante onde Gulciham atua e assiste à sua peça. Ao final, ela o convida para um passeio. Enquanto caminham juntos pela rua à noite, Gulciham pergunta bastante sobre o pai de Cem, e fica pensativa enquanto ouve histórias da infância. Cem não é maior de idade ainda, mas Gulciham o convida para tomar raki em seu apartamento. Cem hesita antes de entrar, e Gulciham o encoraja:

Ela se virou para mim enquanto ligava as luzes. "Não tenha medo," ela disse, sorrindo. "Tenho idade o suficiente para ser sua mãe."

9 - Cem tem sua primeira experiência sexual com Gulciham, mas não a descreve no livro. Já é madrugada quando começa a caminhar de volta para a barraca. Cem dorme poucas horas, e mesmo assim se sente revigorado quando acorda, anestesiado pelas alegrias e prazeres da noite anterior. Mas sua disposição está frágil. Quando volta ao trabalho, cansa mais rápido que o de costume. O poço agora tem a profundidade de um prédio de dez andares, e ainda não há água. Mestre Mahmut continua no fundo, cavando e enchendo baldes de terra e pedra. Cem puxa os baldes até o topo, e já não aguenta o esforço.

10 - Um balde carregado de terra e pedras escapa das mãos de Cem e cai pelos muitos metros de poço cavado. Um grito de dor vem do fundo, e depois o silêncio. Mestre Mahmut fora atingido. Cem se desespera, e corre para a cidade para pedir ajuda. Apavorado, não sabe o que fazer. Depois de muita hesitação, conclui que é tarde demais para fazer qualquer coisa, e retorna para a casa de sua mãe. Cem não toca no assunto do acidente. Começa a frequentar um cursinho pré-vestibular, e espera que a polícia o venha prender a qualquer momento por sua negligência, ou por ter assassinado aquele que via como pai.

11 - Mas a polícia não vem. Cem não é acusado de seu crime e acredita que, se fingir que o episódio nunca aconteceu, será como se nunca tivesse acontecido. Passam-se semanas, depois meses, depois anos. Cem estuda engenharia geológica na universidade, e se apaixona e se casa com a estudante de farmácia Ayşe. Desejam ter filhos, mas não conseguem. Cem está bem empregado e tem dinheiro sobrando. Quando têm tempo livre, Cem e Ayşe viajam pelo mundo, visitando museus e comprando livros sobre duas estórias que perturbam a mente de Cem, e que, com o tempo, despertam também o interesse de sua esposa Ayşe: Édipo Rei, uma tragédia grega, e Rostam e Sohrab, da mitologia persa.

12 - Na tragédia grega, Laius, rei da cidade grega de Thebes, tem um filho chamado Édipo. Sobre Édipo, um oráculo faz uma profecia: ele matará seu pai, se casará com sua mãe e se tornará rei. Temendo esse futuro, Laius abandona seu filho Édipo ainda bebê para que morra. Mas Édipo é resgatado por uma mulher de um reino próximo e criado como um nobre, longe de sua família biológica. Quando adulto, Édipo consulta um oráculo, que lhe informa: matará seu pai e se casará com sua mãe. Tentando fugir desse destino, Édipo se muda para Thebes, sem saber que essa é sua terra natal. Ali ele briga por uma bobagem com um velho, e o mata, ignorante de que aquele era seu pai e rei. Mais tarde, Édipo mata a esfinge que atormenta a cidade, é coroado rei, e se casa com a rainha. E quando se põe a investigar o assassinato do rei anterior, chega à verdade de que ele próprio era o assassino, e de que estava casado com sua mãe. A essa descoberta, Édipo reage furando os próprios olhos.

Édipo e a Esfinge, de Gustave Moreau

13 - Na mitologia persa, Rostam é um guerreiro que vivia na Pérsia e visita o rei de Kaykavous. Hospedado em seu palácio, Rostam recebe a princesa Tahmina em seu quarto. Naquela noite, ela fica grávida de Sohrab. Rostam volta para sua terra, os anos passam, e uma guerra entre a Pérsia e Turan tem início. Sohrab, agora adulto, é o melhor guerreiro de Turan, e é enviado para lutar contra Rostam, seu pai. Os dois entram em confronto e batalham por dias e noites, sem saber a identidade um do outro. Finalmente, Rostam golpeia Sohrab mortalmente. Quando examina o corpo do seu inimigo, Rostam reconhece a marca de seu filho, e sofre terrível remorso.

14 - Cem já pensava muito sobre Édipo Rei antes do episódio do poço, e também se impressionara com a estória de Rostam e Sohrab desde que vira a cena do combate mortal interpretada no teatro onde Gulciham trabalhava. Talvez tivesse desejos de confrontar seu pai ou uma figura paterna? O incidente do poço parece ter reforçado a perturbação que a ideia de um combate mortal entre pai e filho causava em Cem. Sem conseguir ter o desejado filho, Cem e sua esposa imaginam como seria ter um, e refletem sobre os filhos dos outros:

Às vezes nós discutíamos o que deveríamos fazer para que um filho hipotético nosso não desenvolvesse um complexo de Édipo ou de Sohrab. Sempre que víamos nossos amigos, ficávamos ansiosos para discutir suas crianças assim que chegássemos em casa. Tínhamos teorias simplistas sobre pais opressivos e filhos rebeldes e de filhos submissos e pais permissivos.

Cem e Ayşe abrem uma empresa e a tratam como um garoto, dando-lhe o nome de Sohrab.

Sohrab era nosso filho. Estava crescendo muito mais rápido do que a maioria das crianças, superando seus pares, e ganhando elogios pelo seu tino comercial.

15 - A empresa Sohrab é bem sucedida. Expande-se por Istanbul e redondezas, comprando terras e engolindo bairros. Chega o dia em que o negócio começa a comprar terras nas redondezas de Öngören, região onde Cem e Mahmut cavaram um poço décadas atrás, e onde Cem conheceu Gulciham. Nessa época, quando está com quarenta e cinco anos, Cem recebe uma carta:

Sr. Cem,
Eu gostaria de poder respeitá-lo; você é meu pai (...)
Escreva-me (...) e eu explicarei tudo.
Não tenha medo do seu filho.
Enver

16 - Cem nunca responde a carta. Mas não escapa de ter que reconhecer a paternidade, depois de um teste de DNA. Enver é seu filho com Gulciham, que ficou grávida na única noite que tiveram juntos, assim como acontecera com Rostam e a princesa Tahmina. Cem finge que o filho não existe, e se esforça para nunca conhecê-lo. Mas parece que, de uma forma quase consciente, procura oportunidades de esbarrar com ele. É assim, por exemplo, quando Cem visita Öngören com seus funcionários, com o objetivo alegado de construir um relacionamento com os moradores locais e diminuir a imagem negativa de sua empresa, que tem a reputação de roubar os moradores.

17 - Alegando medo de que os moradores tentem agredi-lo, Cem leva consigo uma arma. Depois de uma apresentação para os moradores locais, Cem conversa com jovens adultos entre comes e bebes. Um deles conta que conhecera Mestre Mahmut. Mahmut não morrera no acidente, mas ficara aleijado quando o balde de terra e pedra que escapara da mão de Cem atingira seu ombro. Falecera anos mais tarde, já velho, com algum dinheiro e respeitado pela comunidade. Cem aprende que o poço ainda existe, e pede ao jovem que o leve até ele.

18 - Cem caminha até o poço com o jovem, e suspeita que aquele é Enver, seu filho. Cem nota semelhanças na sua aparência e no seu jeito, e tem sentimentos mistos: ora gosta do que vê, ora se irrita com sua petulância, talvez sua condição social, e sente repulsa ao invés de orgulho. O jovem, que de fato é Enver, percebe a irritação de seu pai, e também se incomoda. Já ao lado do poço, Enver manifesta enorme ressentimento, e também uma raiva nova, por perceber que seu pai está frustrado diante de sua presença.

"Às vezes minha raiva de você é tão forte que a coisa que eu mais quero é furar seus olhos. (...) Você nem é um pai de verdade."
"Você também não é um filho de verdade. Você é muito ressentido e muito submisso. 

19 - Em resposta à agressão de seu pai, Enver anda em sua direção. Cem se assusta e saca sua arma. A partir daí, a narração de Cem termina, e quem conclui o livro é Gulciham, A Mulher de Cabelo Vermelho. Ela conta que, naquela noite, saíra à procura do filho, e o encontrara próximo ao poço. Concluíra então que o filho acidentalmente matara o pai. O corpo de Cem estava no fundo do poço, e seu olho estava furado por uma bala de revolver.

20 - Para tentar evitar uma condenação por assassinato, Gulciham instrui seu filho Enver a escrever sua história na forma de um romance, que possa ser apresentada em juízo. Ela supõe que não será difícil, já que Enver gostava de escrever poesias. Então reúne todos os detalhes de que se lembra sobre Cem e sua vida, e consegue ainda mais informações com conhecidos e com a viúva de Cem, Ayşe. Ayşe colabora porque precisa estar em bons termos com Gulciham e Enver, já que Enver é o herdeiro legal da empresa Sohrab e pode, eventualmente, tomar a maior parte de seu patrimônio. Enver então escreve o livro The Red-Haired Woman. Cem nunca narrou sua própria história. Ao invés disso, seu filho Enver o fez, em primeira pessoa como se fosse Cem, usando os detalhes obtidos por sua mãe, e divididos pelo já deformado Mestre Mahmut, de quem era amigo.


Tentei resumir a trama do livro em vinte parágrafos. É possível que, sem querer, eu tenha interpretado o livro, quando minha intenção era só resumir e apresentar os acontecimentos-chave.

Se, por um milagre, fui absolutamente objetivo no meu resumo e não fiz interpretação alguma, divido agora alguns entendimentos e impressões.


Primeiramente, que trama!

Orhan Pamuk defende em seu livro O Romancista Ingênuo e o Sentimental que a trama é apenas uma linha que liga os acontecimentos e as personagens, que estão lá para revelar a paisagem em que vivem, formada pelos temas e lugares que o escritor de romances deseja explorar. Explicando assim, parece até que Orhan Pamuk não dá importância para a trama. Sua função é a mesma do papel: algo em que se possa escrever. Mas daí ele vem com uma dessas.

Suas possibilidades ficcionais e ambiguidades são muitas e elaboradíssimas. Considere-se, por exemplo, que foi o filho ressentido Enver quem narrou a história, sob a influência de sua mãe, com o objetivo de escapar da cadeia. Será que tivemos acesso à verdade dos fatos? Ou terão mãe e filho embelezado suas intenções?

Sobre a noite de amor entre Cem e Gulciham não ter sido descrita neste livro:

Naquela noite, eu dormi com uma mulher pela primeira vez na minha vida (...) Mas mesmo enquanto eu vivia aqueles momentos, eu já sabia que eu nunca dividiria tudo sobre aquela noite com ninguém. Mesmo agora, não vou me prolongar muito em detalhes.

Esse curto trecho aparece cedo no livro como se tivesse saído da caneta de Cem. Em outros livros de Orhan Pamuk, como O Museu da Inocência e Uma Sensação Estranha, momentos como esse duram páginas. Por que a diferença? Talvez porque o narrador é Enver, que ressentia seu pai demais para imaginá-lo com sua mãe. Ou porque Gulciham editou a obra, escolhendo como e quando queria ser descrita.

Nas últimas páginas, ao refletir sobre os acontecimentos narrados, Gulciham fala da mudança de comportamento do filho para um mais agressivo, na época em que ela decidiu que Enver era grande demais para continuarem tomando banho juntos. E também comenta essa estranha atitude de Enver, já na cadeia:

Muitas vezes eu quis lhe perguntar (...) por que ele era tão bravo, por que meteu uma bala no olho de seu pai, e por que ele parecia estar tão em paz agora (...)

Mencionando brevemente Sigmund Freud e Édipo neste livro, Orhan Pamuk pode estar oferecendo uma interpretação: Enver vivia uma agonia intensa e não admitida de competição com seu pai por sua mãe. Cem vive uma agonia análoga. Contra seu pai ausente, Cem parece não ter frequentes sentimentos de competição. Já contra Mahmut, em quem Cem vê um pai, o impulso é aparente e frequente nos seus dias de convivência. Cem não suporta imaginar Mahmut se aproximando de Gulciham.

Eu estava com tanto ciúmes que eu mal conseguia falar. Teriam Mestre Mahmut e a mulher de cabelo vermelho se tornado amigos?

E Cem gosta de Gulciham precisamente porque ela olha para ele com o carinho de uma mãe.

Um sorriso melancólico se formou nos seus lábios perfeitamente delineados, como se ela tivesse visto algo incomum em mim ou no cavalo. Ela era alta, seu sorriso inesperadamente doce e afetuoso.

Não entrando em competição com seu pai biológico por sua mãe biológica, Cem entrou essa competição com uma figura paterna por uma figura materna.

Mestre Mahmut pode ter aceitado seu papel na briga, entretendo o pensamento de tirar Cem de seu caminho. Gulciham fala sobre a noite em que Mahmut assistiu à sua peça:

"Ele não se incomodou nem um pouco na parte em que o pai matou seu filho ao final da nossa peça...,' ela disse. "Ele realmente pareceu gostar dos mitos e lendas.

A luta se passa na alma de Cem todos os dias, e ele quer vivê-la. Por isso lê e relê as estórias de Sohrab e de Édipo; por isso visita museus à procura de escritos e pinturas sobre o tema; por isso aprende sobre a obra de Freud.

Enver supera o drama matando o pai, e adquire a paz de espírito que nunca teve. Gulciham decide nunca acreditar nessa violência intencional, ou talvez seja incapaz, porque é sua mãe.

Orhan Pamuk traz o tema da competição contra o pai em seus livros e discursos. Talvez também esteja em uma luta do tipo?

Talvez, para um escritor que resolve explorar o assunto, tenha sido conveniente fazê-lo como Orhan fez: narrando a estória de alguém que compete por uma mãe que não é mesmo mãe, e por um pai que não é mesmo pai, evitando assim um desconforto maior tanto para o escritor quanto para o leitor.

Ainda mais intrigante é o fato de que a Europa (...) não produziu mais imagens de Édipo; não houve pinturas das cenas essenciais, como aquelas em que Édipo mata seu pai ou em que dorme com sua mãe. Pintores europeus podem ter conseguido descrever aqueles momentos em palavras e compreender seu significado. Mas não foram capazes de visualizar as ações descritas e pintá-las em tela.
Apenas Pier Paolo Pasolini, o romancista, pintor e cineasta italiano, foi quem quebrou a regra tácita em seu filme Édipo Rei. Eu assistira à sua adaptação inquietante quando fora exibida na retrospectiva de uma semana do trabalho de Pasolini, patrocinada pelo consulado italiano em Istambul. O jovem ator que interpreta Édipo abraça, beija e dorme com sua mãe, interpretada pela mais madura mas ainda cativante Silvana Mangano. Quando mãe e filho fizeram amor, o público de cinéfilos e intelectuais de Istambul presentes àquela noite no auditório (...) da Casa d'Italia afundou em um silêncio ensurdecedor.

O pai de Cem lhe trata bem e nunca lhe levanta a voz. Mas pode ser um mau sinal: aquele mesmo pai não faz questão de estar perto de seu filho. Conscientemente corre riscos que lhe colocam na cadeia e lhe afastam do garoto. Procura aventuras e relacionamentos, deixando Cem sem proteção, orientação ou dinheiro. Talvez o pai biológico não ligue muito para Cem.

Senhor Deniz, que emprega Cem em sua livraria, sente orgulho dele. Faz planos para seu futuro e quer que seja um escritor. Para ajudá-lo, permite até que Cem use a livraria como sua própria casa. Quando Cem começa a estudar engenharia e se envereda por outras profissões, Deniz fica um pouco triste, mas tenta ver o positivo do caminho seguido por Cem, e continua nutrindo carinho por ele. Nem Cem, nem Deniz expressam abertamente sentimentos de pai e filho. Mas dentre os três homens com idade para ser seu pai de quem Cem se aproxima, Deniz é o que lhe trata melhor e lhe quer perto por mais tempo. Pode ser que Deniz o estivesse adotando sem que percebesse. Ou pode ser que Cem e Deniz nutrissem simpatia por compartilharem o gosto pelos livros e um sonho: ser escritor.

Mestre Mahmut cuida de Cem, vigia sua saúde e seu bem estar e tenta lhe ensinar sobre a vida, inclusive sendo duro, como seu pai nunca fizera. Das três figuras paternas na vida de Cem, Mestre Mahmut parece ser a única que teme ter sua autoridade abalada. Frequentemente Mahmut lembra Cem de que é importante que lhe obedeça e confie no seu julgamento. Quando Cem lhe dirige perguntas pertinentes, Mestre Mahmut responde com longas lições sobre outros assuntos, que soam como tentativas de soar mais sábio e capaz do que é.

Quando Cem tem seu próprio filho, seus sentimentos são mistos. Estando com seu filho pela primeira vez, Cem não sabe se gosta do que vê. Chega a preferir que aquele não seja seu filho, ou que tivesse outras características, que lhe permitissem sentir orgulho.

Enver crescera afastado de seu pai, Cem. É possível que sua agressividade seja consequência dessa circunstância. A possibilidade ganha força após Enver adquirir uma paz de espírito que não lhe era típica, logo após matar seu pai.


Por que o livro se chama The Red-Haired Woman ?

Gulciham, a mulher de cabelo vermelho, aparece pouquíssimo na história. Mas o que acontece no livro acontece por causa dela. Ela é:

  - a paixão do pai de Cem;
  - o primeiro amor de Cem;
  - possivelmente o amor do filho de Cem;
  - a distração que leva Cem a ferir terrivelmente o ombro de Mahmut, alterando o curso da vida dos dois e dos seus familiares e conhecidos;
  - a idealizadora do livro e a autora de suas últimas páginas.

Talvez ela própria tenha escolhido o nome do livro?


Enver confessa sentir uma raiva intensa de seu pai, Cem, a ponto de querer furar seus olhos. Depois de uma discussão boba - como a que levou Édipo a matar seu pai - Enver parte para cima de Cem. Cem lhe aponta uma arma e manda que não avance. Enver ignora a ordem, arranca-lhe a arma, atira em seu olho e joga seu pai dentro do poço. Conhecedora desse fato, a mãe de Enver chega à conclusão de que seu filho matou seu pai por acidente, no que talvez seja um exemplo da dificuldade de uma mãe em enxergar, ou aceitar, os erros de um filho.


Sobre até onde pode ir a competição e a necessidade de aprovação: já com mais de quarenta anos, Cem está jantando com seu pai e ainda se esforça para impressioná-lo:

... eu me deixei levar, contando para o meu pai sobre Édipo, Sohrab e Rostam, toda a leitura que fiz, os museus que visitei na Europa, tudo só para mostrar para ele quão versado eu era em história cultural e social. 
... Ele havia formulado o mesmo tipo de pergunta que eu frequentemente me fazia a seu respeito ("O que meu pai diria se soubesse?")

Além da competição e da necessidade de aprovação, há ainda a necessidade de orientação que atormenta os adultos:

... parece que todos nós gostaríamos de um pai forte e decidido nos dizendo o que fazer e o que não fazer. Será que é porque é tão difícil distinguir o que deveríamos e o que não deveríamos fazer, o que é moral e certo do que é pecaminoso e errado? Ou é porque nós constantemente precisamos ser reassegurados de que somos inocentes e não pecamos? A necessidade de um pai está sempre lá, ou só quando estamos confusos, angustiados, quando nosso mundo está desmoronando?

Talvez as mesmas reflexões valham para a crença em deuses. Pode ser que precisemos deles para receber instruções na forma de mandamentos.

E pode ser que a dúvida também valha para a relação do cidadão com o Estado. Pode ser que desejemos um Estado que nos tire o peso de decidir, de procurar e de julgar corretamente. Talvez estejamos dispostos a entregar nossa liberdade em troca dessa paz.


Estórias de pais que matam o filho, de pais que quase matam o filho e de filhos que matam o pai - Rostam e Sohrab, Abraão e Isaac e Édipo Rei -, e do remorso envolvido, saem da imaginação dos escritores e são consumidas há milênios. Se é verdade que da caneta sai o que está no coração e na cabeça, essas estórias podem ser exemplos de vontades e medos ganhando vazão na forma de literatura e pintura.

Ivan the Terrible and His Son Ivan on November 16, 1581 - by Ilya Repin

Deixemos a trama e os temas de lado agora, e falemos da textura. As paisagens, as cores, os cheiros e os jeitos são críveis. Como sempre, quando Orhan narra pedaços de vida, memórias brotam. Seja explicando como um jovem se sente quando se afasta de sua terra e de sua família pela primeira vez, ou como reagimos quando a pessoa à nossa frente fica agressiva, ou como nos sentimos quando postergamos nossos sonhos... quando Orhan coloca essas sensações no papel, sei que estou lendo a realidade. Sempre sinto: é assim mesmo que as coisas são.

Com essa sensibilidade em retratar a realidade, Orhan também leva o leitor a viver, com nitidez, experiências que nunca teve e talvez nunca terá: cavar um poço, passar noites assistindo a uma televisão mal sintonizada dentro de uma barraca, beber raki, visitar museus de vários países à procura de pinturas e textos sobre um tema favorito...


Essas histórias que se passam em Istanbul sempre me lembram do meu país. Abaixo, Cem pensa alto sobre o início de sua empresa:

Nossa economia doméstica também ia bem. Uma vez que meu empregador tinha laços fortes com o governo e com o partido que estava no poder, nós sabíamos de antemão quais áreas da cidade estavam escaladas para obras: construção de altos prédios residenciais, novas ruas, essas coisas. Nós comprávamos terras em linha com esse conhecimento, e também tirávamos vantagem de subsídios governamentais para construções. Eu nunca julguei que houvesse algo de anti-ético na prática. 

Esse pode ser Cem, sendo sincero sobre seus valores. Mas também pode ser Enver, acusando seu pai de malandragem.


Pamuk traz museus e temas literários para suas estórias. Nesta, Cem reflete sobre sua motivação de ler tantos livros:

...eu acreditava que se continuasse explorando aqueles imensos mares de estórias, eu poderia algum dia resolver o enigma da minha vida e finalmente pousar em águas calmas. 

É por isso que lemos livros como esse: para encontrar pedaços do sentido da vida. Ainda que saibamos que é inútil.

... O que nós aprendemos ... foi quão efêmeras foram aquelas vidas do passado, quão rapidamente foram todas esquecidas, e quão vãos somos nós em pensar que podemos compreender o sentido da vida e da história se aprendermos um punhado de fatos.

Quem quiser saber como foi viver em Istanbul entre os anos oitenta e hoje pode procurar fotos e jornais velhos. Quem quiser saber como as pessoas de Istanbul eram e se sentiam nesses dias poderá recorrer a registros de sentimentos como esses que Orhan Pamuk tem produzido, e produziu mais uma vez em The Red-Haired Woman, com a sensibilidade aguçada como nunca.


quem quiser saber como uma história dessas nasce pode procurar por vídeos de Orhan Pamuk falando sobre a nova obra. Eu gostaria de relembrar de sua apresentação em 15 de setembro em Londres.

Naquela noite, Orhan disse que The Red-Haired Woman é um de seus menores livros, mas veio sendo escrito por trinta anos. Nos anos oitenta, Orhan escrevia O Livro Negro, quando notou que um poço estava sendo cavado nas proximidades de seu local de trabalho. Responsável pela obra havia um senhor que era ajudado por aprendizes. Às vezes pediam água e eletricidade a Orhan. À noite, descansavam juntos e assistiam a uma pequena televisão. Orhan os entrevistou, e aqueles dias ficaram em sua memória.

Orhan disse que tem anotações e memórias sobre muitas ocorrências. A melhor coisa, diz Orhan, é quando, de repente, um desses muitos episódios de que se lembra parece se relacionar com outro, encaixando-se em um tema. A história do senhor que cavava o poço com seus aprendizes, por exemplo, se encaixou no enigma dos pais e filhos.

A tradução de The Red-Haired Woman para o inglês é, na opinião de Orhan Pamuk, maravilhosa.

Perto do fim, Orhan disse que ainda pinta quadros, e que as sensações de pintar e de escrever são diferentes. Quando pinta, sente-e feliz. Quando escreve, sente-se inteligente.


Orhan Pamuk não dá sinal de se cansar de seu ofício. Meu livro favorito de sua autoria continua sendo O Museu da Inocência, de 2008. Mas me parece que cada livro publicado desde então foi ainda maior em algum aspecto.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Na Principal Estrada Entre Kendal e Keswick

Na principal estrada entre Kendal e Keswick, na Região dos Lagos, na Inglaterra, há uma bela casa onde se escreviam poesias.

Dove Cottage
O poeta que ali morava era William Wordsworth. Seu quintal parece uma serra em um domingo nublado que dura para sempre.

Dove Cottage
Do quintal sobe uma escada, que leva à cabana onde Dorothy Wordsworth escrevia cartas.

Dove Cottage
O que é mais solene: a cabana onde se escreviam cartas, ou a vista que tinha quem as escrevia?

Vista da cabana
A escada que une o quintal à cabana hoje é decorada com pedras onde se leem as poesias do antigo morador. Pode ser que a escada saia de um, leve a um, ou seja um paraíso.


Fotos por Renan Caleffi de Oliveira.

sábado, 29 de julho de 2017

The Shepherd's Life - James Rebanks



Capa

Uma capa que me induz tranquilidade. Provavelmente porque nada nela remete aos problemas da minha rotina. A neblina que nunca aparece na cidade, o Border Collie que eu gostaria de ter, ou de ser, envolvido em paz e silêncio, um mato bonito... nada disso existe no meu mundo diário.

Deve haver uns quantos para quem a imagem romântica oferece promessa de alívio. Sem tempo de buscar paz no campo, resta esperança em consumir o produto atrás da capa.


Conteúdo

O alívio está lá. É para a mente entristecida na cidade que o autor fala sobre seu lar, o Lake District.

O livro não vem na forma de fantasia. James Rebanks descreve uma vida rural que depende da ajuda financeira do governo. No Lake Districit as famílias criam ovelhas usando técnicas antigas, gerando lucros mínimos que já não permitem o sustento. Os filhos se mudam para a cidade para conseguir emprego. Às vezes um deles volta para assumir os negócios quando o pai já está muito velho e a fazenda está mais pobre.

Enquanto a vida dos moradores se complica, turistas vêm cheios de alegria e dinheiro passar as férias nas redondezas, e tratam como parque de diversões o chão que, para os locais, é um lar sagrado e um cemitério de tradições.

Ainda assim, o livro oferece ar fresco ao morador da cidade. Porque os problemas ali descritos são outros. Da descrição de se cuidar das ovelhas, de preparar a terra, de enfrentar o frio e de trabalhar com os vizinhos, brotam sentimentos que não brotam das telas de computador, das mesas de escritório e do concreto.


A vida do autor

Esse livro é, entre outras coisas, a biografia de um desconhecido. Uma maravilha. Um lembrete de como há universos soltos por aí dentro de pessoas, esperando por uma vazão literária.

James Rebanks narra uma infância em que ele e todas as crianças da região vão à escola porque a lei obriga. Na sala de aula os estudantes só pensam em voltar para a fazenda e ajudar os pais no trabalho do campo. Porque as paisagens do Lake District são tão belas, e seus valores de trabalho tão apaixonantes, que as famílias e seus filhos não consideram qualquer alternativa de futuro. O importante é viver o que eles já conhecem e querem, abandonando os estudos assim que permitido.

Para o autor, as pessoas da cidade são obcecadas pela ideia de fazer algo de suas vidas. Para os residentes do Lake District, que cuidam de suas terras há séculos, essa perturbação mental não está presente. Rebanks só sentiu necessidade de se afastar das ovelhas quando se tornou um adulto e quis cuidar da fazenda do seu jeito, entrando em conflito com o pai. Sendo um raro aluno de destaque, aproveitou as notas altas para se candidatar e passar em provas que o levaram à Universidade de Oxford.

Durante seu tempo de estudos e graduação, frequentou Oxford e Londres e achou tudo horrível. Contou os dias para retornar ao Lake District. Por hábito, continuou acordando de madrugada, no que diz ser um impulso de seguir os valores do campo e de começar a trabalhar antes de o sol nascer.

Acho que foi aqui que comecei a notar que o autor está propenso a achar especial cada aspecto de sua vida rural, em comparação com a vida na cidade. Senti vontade de adicionar uma nota de rodapé àquela página. Quem toca um restaurante na cidade também acorda de madrugada para preparar a comida. Cabeleireiros também acordam de madrugada para preparar o salão. Contadores também acordam de madrugada para preparar relatório. Advogados varam a noite preparando seus casos. A lista de quem dorme pouco para ir atrás do sustento é e sempre foi longa, no campo e longe dele.


A alma

Formado, o autor voltou para as terras da família, que hoje ele toca, ao mesmo tempo em que estuda estilos de vida semelhantes aos do Lake District ao redor do mundo, e que escreve e publica este livro em que despreza a vida urbana, e enaltece os atributos imensamente melhores de sua existência rural. Ter sido descoberto um prodígio e ter se graduado em uma das melhores universidades da Terra não mudaram sua preferência pelos lagos, de onde ele afirma e reafirma que o mundo está errado em não perceber o que há de precioso na vida que ele leva. Entre uma reflexão e outra, conta histórias de sucesso pessoal, em um tom de quem não as queria contar, mas pressionado pelas circunstâncias acabou contando sem querer.

O que leva alguém a repetir tanto que não quer uma coisa? A escrever páginas e páginas sobre assuntos e dúvidas que não o incomodam?

Esse livro não é apenas uma celebração do Lake District. Quem sente necessidade de celebrar sentiria necessidade de comparar? De derrotar?

Esse é um registro da angústia de uma existência em 2015. Uma ansiedade diante da morte de tradições e da indiferença do mundo urbano. Vejo um apelo para ser amado, para ter um estilo de vida reconhecido e valorizado, para não ser esquecido. A região que o autor descreve soa única e bela, mas essa mente que ali vive não parece estar livre dos impulsos de comparação e competição, e do medo da humilhação. Diz desprezar a cidade, mas pede seu carinho.


Sobre ler este livro

É mágico. O que falei acima é só minha interpretação, e não vejo nada de negativo. Se o que estou insinuando for verdade, o autor está sendo humano e produzindo um texto belo em que pede para não ser deixado para trás, enquanto descreve em um estilo original a sua vida. Uma obra de estreia e de valor. Cada página vale algo. O tema principal está pipocado de faíscas de reflexões sobre outros.

As descrições vêm em trechos de meia página a duas, que avançam e retrocedem entre memórias significativas. Pula-se de um jantar para um passeio na montanha, de uma reunião de pastores para uma colheita de feno, de um corte de lã para uma feira. Lembranças doloridas e prazerosas de alguém que tenta atribuir um propósito, uma ordem e uma direção ao seu passado. Um autor que tenta se defender e se justificar para um leitor que não havia perguntado nada.

I'd gone to prove a point to myself and maybe to other people too. But there wasn't much satisfaction in it. I'd lost the hunger to keep proving it.

Pode ser que o autor tenha experimentado as vidas no campo, na cidade e corroborado o que já sabia: a primeira é melhor. Ou pode ser que o autor tenha desejado a cidade, tentado conquistá-la, falhado, e então voltou para os braços do Lake District, de onde desdenha daquilo que diz que nunca quis.


Intercâmbio

Esse livro parece ter sido bem sucedido aqui na Inglaterra. Estava em destaque nas livrarias quando o comprei. Especulo que os leitores que gostaram da obra por aqui, que sentiram prazer no contato com tradições cultivadas no meio rural, gostariam muito de conhecer literatura gaúcha na sequência. Bom que seria se O Tempo E O Vento, traduzido para o inglês, fosse exposto na mesma prateleira. E que The Shepherd's Life fosse vendido em gauchês no Rio Grande do Sul. O mais próximo disso, por hora, é a tradução para o espanhol La vida del pastor.


Trecho

The past falters and dies by little steps. Then it has gone, and old men go home disappointed.