Translate

sábado, 30 de junho de 2018

O Código de Honra - Kwame Anthony Appiah



Sobre o livro

Nascemos querendo respeito, com o instinto de reagir a agressões, exclusões e humilhações. A honra é inata.

Lutamos por alimento, sexo e poder; mas também por honra. Em busca da honra, as pessoas despendem recursos e, mais especialmente os homens, colocam a vida em risco. Isso só se assentaria em nós como tendência hereditária se os custos trouxessem benefícios que compensassem. Seja como for, eles provavelmente explicam por que nossa preocupação com a hierarquia - e nossa capacidade de incluir a nós e aos outros dentro dela - é tão aguçada.

A honra interage com a cultura. Um dia foi desonroso para um rico não possuir um escravo. Para o mesmo rico, hoje seria desonroso aceitar a escravidão. Da mesma forma, hoje um operário pode ter orgulho de seu ofício. Mas quando seu mesmo ofício era praticado por escravos, o trabalho era vergonhoso. Então o operário, para escapar da vergonha de trabalhar como um escravo, ficou contra a escravidão.

Kwame argumenta que quando se mudam as fontes de honra e de vergonha, mudam-se as atitudes. Cavalheiros na Inglaterra pararam de duelar entre si quando a prática foi considerada ridícula. Pais e mães começaram a amarrar, quebrar e deformar os pés de suas filhas quando pés pequenos se tornaram símbolos de classe e castidade na China, e pararam quando a prática passou a ser vista como retrógrada.

O livro explica conceitos de honra com que se trabalha na academia, conta a história milenar do sentimento e seu impacto na história, e propõe que façamos uso da honra para diminuir o sofrimento da humanidade.

Já que a honra já vem instalada e rodando em todos nós, temos uma ferramenta barata para engajar o planeta contra os problemas do mundo. E se conseguirmos, por exemplo, nos envergonhar, de verdade, do machismo, e infligir constrangimento nos países onde é mais brutal? Kwame sugere que esse esforço poderia, por exemplo, diminuir a violência no Paquistão, onde não é incomum que mulheres divorciadas sejam assassinadas para limpar a honra da família.


Minhas reflexões

Senti falta de uma apresentação e exploração da hipótese de que não foi a honra que acabou com a escravidão, o duelo na Inglaterra e o enfaixamento de pés na China.

Mas o livro não é nada de menos por isso. A obra não tem o tom de uma enunciação de verdades, nem sugere um consenso sobre o assunto. Está alerta para outros elementos que influenciaram a história.

Vale ressaltar que, no antiescravismo britânico, havia muito mais coisas em jogo do que a honra nacional. O dever cristão e o conceito de serem todos os homens irmãos, filhos do Deus de Abraão, também eram temas centrais.

E a importância do tema está mais do que explicada na introdução:

O cerne da psicologia da honra - mostrar e receber respeito - já está em todos os seres humanos normais, por mais esclarecidos e avançados que sejam. Essa é uma das razões pelas quais penso que devemos levá-la em conta. A honra se baseia em tendências fundamentais da psicologia social humana, e certamente é melhor entender nossa natureza e lidar com ela do que declarar que preferíamos ser diferentes - ou, pior, fazer de conta que não temos natureza nenhuma. Podemos achar que acabamos com a honra, mas a honra não acabou conosco.

Em certos momentos, a escrita é claríssima. Em outros, nem tanto. Não sei dizer se isso é atributo do livro ou da tradução para o português.

A leitura é excelente. E para concluir, reproduzo uma provocação feita pelo autor em uma de suas palestras.

Do que é que sua geração irá se envergonhar daqui alguns anos?  


terça-feira, 22 de maio de 2018

O Velho e o Mar - Ernest Hemingway


Tentei resumir a estória em cinco minutos, e acabei chorando. Não acontecia há anos. Havia até esquecido que os livros fazem isso.

Acho que eu vinha pensando que ninguém se importa com ninguém, que caridade é tática, que não existe bondade. Então em O Velho e o Mar, leio os pensamentos e as ações de dois verdadeiros amigos. Um velho e um jovem.

O garoto pergunta ao velho, sobre uma de suas batalhas pessoais:

'Quanto você sofreu?'
'Bastante,' disse o velho.
Enquanto o garoto saía pela porta e descia pelo caminho aberto no coral, voltava a chorar. 

Fiquei comovido com um personagem que chora quando seu amigo passa por maus bocados. Que notícia boa: há autores que criam personagens assim, e lhes dão uma estória feita de companheirismo. E talvez ainda melhor do que isso: há gente o bastante que gosta desse livro há décadas. O suficiente para o livro ser um clássico.

As palavras ordenadas em frases são insuficientes para expressar sentimentos. Frases ordenadas em  romances chegam mais perto do objetivo. Conheço um sentimento que eu nunca soube expressar, mas agora sei. Vou chamar o sentimento de O Velho e o Mar. É o sentimento de gostar de algo de um jeito que só você sabe; de ter uma experiência ou lembrança única. Não adianta falar sobre ela para ninguém. Quem ler este livro vai lembrar da sua. No caso do protagonista, o velho, é a lembrança de leões na África.

O livro é sensorial. Dá para sentir cheiro de mar, de peixe, de café servido na lata; areia raspando no pé; sol queimando a nuca; dor de carregar peso; frescor de dormir com a janela aberta.

E também é emoção. Dá medo de perder o respeito dos conhecidos, de nada dar certo, de não conseguir levar a conquista para casa.


E o livro também é aquele prazer de conversar com um velho que sabe das coisas, porque viveu e refletiu sobre tudo.

Depois daquela vez ele lutou mais algumas e parou. Concluiu que derrotaria qualquer um se realmente quisesse, e que aquilo fazia mal para sua mão direita...

A questão não é se é possível conseguir o que se quer, e sim o que vale a pena querer.


O velho também é, para o leitor, um companheiro de reflexões e de celebração da vida.

Ele ficou triste pelo grande peixe que não tinha nada para comer (...) Quantas pessoas ele irá alimentar, ele pensou. Mas serão elas merecedoras? Não, claro que não. Não há ninguém digno de comê-lo, diante da sua atitude e de sua grande dignidade.
Eu queria que fosse um sonho e eu nunca o tivesse fisgado. Sinto muito, peixe.

domingo, 1 de abril de 2018

A Balada de Adam Henry - Ian McEwan



O livro

Livro recomendadíssimo, sem ressalvas. Feito de parágrafos curtos, densos de estilo e significado.

Jack, professor de universidade e escritor, surpreende a esposa Fiona com uma proposta: posso me aventurar com outra mulher?

Fiona não dá o consentimento, mas Jack vai assim mesmo morar com Melanie, especialista em estatística. Fiona troca as fechaduras da casa para que Jack não possa voltar, e logo se arrepende. Por um lado, não o quer de volta. Por outro, acha uma insanidade seu casamento acabar assim, quando esperava caminhar calma e acompanhada para a velhice.

Com sessenta anos e sentindo mais idade do que tem, gostaria que seus filhos intervissem. Que organizassem uma reunião de família, trouxessem-os à mesa e cobrassem sensatez. Por que essa maluquice de separação quando eram bons um para o outro?

Mas seus filhos não existem. Fiona nunca teve crianças. Postergou a gravidez até não ser mais possível ser mãe, depois se arrependeu.

Agora sente-se sozinha e constrangida de antemão, por todos os conhecidos e colegas que descobrirão que foi abandonada.

Ser objeto de uma piedade generalizada também era uma forma de morte social.

Logo ela, juíza da vara de família, que passara a vida olhando de cima para baixo e julgando com desprezo casais irresponsáveis.

Entre raiva, tristeza e arrependimentos, Fiona continua seu trabalho nos tribunais, onde precisa decidir o futuro de crianças e pais. Rascunha uma sentença, toma café, futrica no celular para ver se chegou mensagem do marido, volta para o julgamento. Abalada e fazendo tudo ao mesmo tempo, talvez esteja mais propensa a se equivocar e repetir o que seus colegas juízes já fizeram: condenar inocentes.

Como no caso de uma mãe amorosa e dedicada que terminou na cadeia porque juízes, polícia e imprensa se excitaram mutuamente e concluíram, mesmo sem evidências, que matara os filhos. E também o caso dos pais que foram condenados por supostamente utilizarem crianças em rituais satânicos.

Fiona recebe o caso urgente do jovem Adam Henry para julgar. Ele tem leucemia e se recusa a receber o tratamento que pode salvar sua vida, porque inclui transfusão de sangue, o que é contra sua religião. Mas ele é menor de idade, portanto há dúvidas sobre a validade legal de sua recusa. O hospital pede autorização para tratá-lo à força. O pai de Adam pede que sua vontade seja respeitada, porque está fazendo o que se espera das Testemunhas de Jeová.

"Toda vida é uma dádiva de Deus. Que pode tomá-la de volta."
"Fácil de dizer, sr. Henry, quando não se trata da sua vida."
"Mais difícil de dizer quando é a vida do seu próprio filho." 

Sobre o que é o livro, afinal? Dramas de divórcio? Pretensões? Perigos da religião? Ter ou não ter filhos? Expectativas inocentes sobre as famílias? Vaidades? Falibilidade da justiça? Direito de morrer? Discernimento das crianças?

Não tenho certeza. Esses são alguns aspectos explorados com sensibilidade, e poderia-se utilizar A Balada de Adam Henry para discutir cada um deles. Esse livro é como a vida: profundo e não se sabe ao certo do que se trata.


O centro secreto

Mas se esse livro tem um centro secreto, eu arriscaria dizer que é o atrito entre secularismo e religião.

Pelo bem da convivência harmoniosa, diz-se por aí que não há conflito. A Balada de Adam Henry sugere que às vezes a convivência é desafiadora. Seculares, por exemplo, interferem nos assuntos das Testemunhas de Jeová quando tentam persuadi-los ou forçá-los a receber uma transfusão de sangue. E igrejas às vezes tentam impedir médicos de salvar vidas.

Fiona reflete sobre o caso de dois irmãos siameses, de nomes bíblicos. Se os médicos tentarem separá-los, um morrerá. Se não fizerem nada, morrerão os dois.
... num extremo se encontravam as pessoas de persuasão laica e utilitária, impacientes com os pormenores jurídicos, abençoados por uma fácil equação moral: uma criança salva é melhor que duas mortas. No extremo oposto, aqueles não apenas convencidos da existência de Deus, mas de conhecerem sua vontade.
Não a surpreendia ou afetava o fato de que religiosos desejassem eliminar o potencial de uma vida válida a fim de sustentar um preceito teológico. A própria lei tinha problemas similares quando permitia que médicos sufocassem, desidratassem ou privassem de nutrição certos pacientes desenganados até morrerem, embora não permitisse o alívio de uma injeção fatal. 
Nas fotografias relembradas de Matthew e Mark, via uma nulidade cega e sem propósito. Um ovo microscópico deixara de se dividir no momento certo devido a um defeito em certo ponto de uma cadeia de eventos químicos, uma minúscula perturbação na cascata de reações proteicas. Um evento molecular se inflacionara como um universo em expansão para ocupar uma larga região da miséria humana. Nenhuma crueldade, nenhuma vingança, nenhum fantasma se movendo de modo misterioso. Nada mais que um gene transcrito erroneamente, uma receita de enzimas defeituosa, um elo químico rompido. Um processo de perda natural tão indiferente quanto sem sentido. Que apenas punha em relevo a vida saudável e formada com perfeição, mas também aleatória, igualmente sem propósito. Pura sorte, chegar ao mundo com seu corpo devidamente formado e com tudo nos lugares certos, ter pais amorosos e não cruéis, escapar à guerra e à pobreza por um acidente geográfico ou social. E, por isso, descobrir que é muito mais fácil ser virtuoso.

Daqui para frente

Espero ler tudo do autor a partir de agora.

sábado, 17 de março de 2018

A Mente Organizada - Daniel Levitin

Impressões gerais

Como organizar melhor anotações sobre interesses, planos e problemas? O título A Mente Organizada - Como Pensar Com Clareza na Era da Sobrecarga de Informação me pegou.

Na livraria, o título estava entre autores respeitáveis na seção Smart Thinking. Mas deveria ficar na seção de auto-ajuda, notei frustrado ao longo da leitura.


Dos objetos

O autor se apresenta como neurocientista. Sua proposta é explicar o que seu ramo ensina sobre organização da informação, da rotina e da cabeça.

O livro dá dicas para evitar distrações, tomar decisões difíceis, ter ideias e cansar menos.

Uma dica é que cada ambiente seja escolhido e preparado para seu propósito. Cozinha para comer, cama para dormir, escritório para trabalhar... se você trabalha onde come, a comida vai te lembrar trabalho, e o trabalho vai te lembrar comida.

Nenhuma novidade, mas fácil de esquecer, com as residências e os escritórios cada vez menores.

Outra dica é a de utilizar mais papel e menos eletrônicos. Computadores fazem de tudo, e por isso nos lembram de tudo: pagar contas, declarar imposto, planejar férias, falar com o amigo... papel e caneta são menos versáteis, por isso nos distraem menos.


Digressão

Eu, que não perco uma chance de mencionar um livro do Orhan Pamuk, gostaria de lembrar que essa verdade está no coração de seus livros O Museu da Inocência A Inocência dos Objetos.

Loção pós barba tem alguns propósitos: tratar o rosto do usuário, deixá-lo com um aroma agradável, enriquecer fabricantes, enfeitar pias...

Mas para Orhan Pamuk, o cheiro da loção pós barba é o cheiro da autoridade. O pai, alto e severo,  faz a barba, passa sua loção, e depois a guarda junto com a lâmina, a graxa de sapato e o desodorante. Com o rosto perfumado, alerta a criança: "não mexa nessas minhas coisas."

Para toda a vida, quando sentir o cheiro da loção, a criança lembrará do alerta. Quando chegar à adolescência, por exemplo, o garoto passará a loção e se sentirá poderoso, sábio e adulto.

O fabricante da loção não planejou essa associação. Disso ele é inocente.


Das palavras

Como eu estava dizendo - antes do assunto objeto me lembrar de A Inocência dos Objetos - o objeto que você utiliza para uma coisa te lembra daquela coisa quando você o utiliza para outra. Assim como as palavras.



Em um experimento, participantes viram a foto de um acidente de carro. Depois foram orientados a descrever o automóvel batido. Outro grupo de participantes viu a mesma foto, mas foi solicitado a descrever a foto do automóvel espatifado. A palavra "espatifado" levou os participantes a lembrar de coisas que nem estavam na foto, como cacos de vidro.


Das associações

O cérebro associa as sensações de um momento com os objetos ao redor. Por isso, de novo, é um erro utilizar ferramentas que fazem de tudo, ou usar um lugar para várias coisas. As experiências e os pensamentos se fundem às coisas que nos cercam.

Por esse motivo, Sting tem um quarto com decorações e cores que lhe inspiram. Ali escreve músicas e só. Quando viaja pelo mundo em turnê, seus assistentes reconstroem seu quarto em todas as cidades por onde ele passa. Assim ele pode se inspirar e escrever onde estiver.

Certas pessoas, vejam só, não têm dinheiro para construir quartos personalizados em centenas de cidades. O conselho do autor é adaptar o princípio à sua realidade. Não tem como comprar dez computadores? Então você pode ter um, e criar um usuário e um esquema de cores diferente para cada tarefa. O fundo de tela pode ser azul para declarar IR, e amarelo para fazer compras, por exemplo.


Do cansaço mental

Você acorda com uma garrafa cheia de energia para raciocinar. Cada vez que você toma uma decisão durante o dia, você toma um gole dessa energia. Para decidir algo bobo, você precisa tomar o mesmo gole que tomaria para decidir algo importante. Depois de vinte goles, a garrafa acaba.

Para piorar, sempre que você redireciona sua atenção de um assunto para o outro, você precisa tomar um gole, mesmo que não decida nada. Se estiver escrevendo um email e notar seu celular tocando, bebe. Para decidir atender ou não, bebe de novo. E depois, para trazer seus pensamentos de volta para o email, bebe outra vez.

Assim funciona o cérebro. Há um limite de coisas em que sua cabeça consegue pensar entre uma noite e outra. Abrir uma piada no celular consome sua cognição e sua disposição, aquela que você usaria mais tarde para decidir sobre seguros de vida e cirurgias de risco.


Do maior erro

A grande besteira da atualidade é o multitasking. Porque não é possível fazer duas coisas ao mesmo tempo. O que é possível é alternar a atenção rapidamente entre duas ou mais tarefas, o que esgota a cabeça rapidamente.

Para piorar, o multitasking dá a ilusão de ter terminado muita coisa. Na verdade ele te faz concluir menos trabalho, te exaure, e você ainda fica se sentindo produtivo.

... muito multitasking requer tomada de decisão: devo responder essa mensagem ou ignorá-la? Como eu respondo essa mensagem? Onde arquivo esse email? Continuo o que estou fazendo agora ou dou uma descansada?


Dos problemas

O livro tem generalizações e imprecisões demais.

Na universidade McGill, o reitor de ciência conduziu uma iniciativa anos atrás chamada STARS... eram palestras de almoço no departamento de ciência, apresentadas para trabalhadores em geral: secretárias, escriturários, técnicos e guardas. A iniciativa foi bem sucedida em todos os sentidos - os funcionários ganharam um entendimento do contexto maior do que estavam fazendo... um guarda mais tarde comentou que estava orgulhoso de ser parte de um time que fazia um trabalho tão importante.

O que um parágrafo desses faz em um livro de um cientista? Bem sucedida em todos os sentidos, entendimento do contexto maior, e um guarda comentou...

Quando fazemos uma coisa de cada vez... há mudanças benéficas na rede cerebral de divagação e um aumento da conectividade. Entre outras coisas, acredita-se que protege contra o mal de Alzheimer.

Quem acredita? E protege em que sentido? Previne? Retarda? E se o entendimento está no estágio da crença de alguém que não se sabe quem é, qual é o valor de mencioná-lo?

Sobre a desvantagem de bibliotecas grandes, o autor diz:

Muitas pessoas hoje reportam que descobriram algumas das suas músicas favoritas ao mexer nas pequenas coleções de amigos.

E sobre o prazer de se colocar ordem em uma bagunça:

Muitas pessoas de sucesso reportam que experimentam benefícios mentais em organizar e reorganizar armários e gavetas.

Tento imaginar:

 - por quais métodos o autor concluiu que as muitas pessoas que reportam são de sucesso?

 - quantas pessoas o autor considera muitas? Dez? Cem? Mil?

 - o que será um benefício mental?

 - o que reportam as pessoas de fracasso quando organizam gavetas? Malefícios mentais?

 - o que leva uma pessoa, de sucesso ou de fracasso, a reportar o que sente quando arruma gavetas?

 - o que concluir sobre pessoas que arrumam gavetas e não reportam nada?

 - como se coletam controladamente os reportes de sensações de quem arruma gavetas?


Da pior parte

No capítulo sobre como organizar nosso mundo social, o autor fala de croudsourcing.

O artista e engenheiro Salvatore Iaconesi usou croudsourcing para entender opções de tratamento para seu câncer de cérebro e colocou todas as suas informações médicas na rede. Ele recebeu 500.000 respostas. Montaram-se equipes, à medida em que médicos discutiam opções uns com os outros. "Soluções vieram de todo o planeta, cobrindo milhares de anos de história humana e tradições", diz Iaconesi. Percorrendo as orientações, ele escolheu cirurgia convencional com algumas terapias alternativas, e o câncer agora está retrocedendo. 
O autor sugere que o câncer de Salvatore Iaconesi retrocede porque ele utilizou croudsourcing? Estranho.

Sem dúvidas o autor sabe que o câncer poderia ter retrocedido só com a cirurgia, ou só com as terapias alternativas, ou só amarrando casca de batata na testa, ou só colocando um copo de água com sal atrás da porta. Não temos como saber o que fez o câncer retroceder - partindo do princípio de que retrocedeu mesmo e de que o diagnóstico inicial foi correto.

Esse parágrafo sobre um episódio isolado não ensina nada sobre o benefício de se informar por crowdsourcing. O paciente acabou escolhendo o que qualquer um poderia ter escolhido sem expor seus dados médicos na internet e sem consultar 500.000 pessoas: correr o risco calculado de uma cirurgia, e ao mesmo tempo experimentar terapias de eficácia não comprovada.

Se o autor nos apresentasse dados sobre a frequência com que câncer de cérebro retrocede em pacientes que usam crowdsourcing, em comparação com pacientes que não usam crowdsourcing, aí teríamos algo para começar a discutir.

No capítulo Organizando Informação Para As Decisões Mais Difíceis, o autor mostra que entende estatística, terapia alternativa e associações indevidas. Então não entendi o motivo dessa associação confusa entre crowdsourcing e efetividade de tratamentos médicos.


Conclusão

O livro traz lembretes empolgantes e aparentemente lógicos para não sobrecarregar a cabeça à toa.

Mas daí o autor dá a entender que, além dos cento e tantos estudos listados ao final do livro e não referenciados ao longo dos capítulos, ele também se orientou pelo que muitas pessoas reportam e comentam, e fez associações que valeria a pena debater antes de aceitar.

Então o leitor precisa ser perdoado se sentir que não recebeu a evidência e o entendimento de que precisava para concordar ou discordar do que leu.

sábado, 3 de fevereiro de 2018

A Revolta de Atlas - Ayn Rand



Impressões gerais

A Revolta de Atlas é um clássico moderno. Já foi resenhado, interpretado e adaptado muitas vezes. Para escrever este post, ignorei esse fato. Finjo que o livro é um lançamento e divido impressões.

Gostei e desgostei do livro a maior parte do tempo. Senti desprazer com a estória mal contada e com as pretensões filosóficas. Mas apreciei a exploração de alguns temas, e principalmente o estilo da prosa.

Pretendo manter o livro na prateleira, mas não ao lado dos melhores.


Inclinações políticas do blogueiro

No decorrer deste post, falo bem e mal do livro. E o livro fala bastante de política. Quem ler este post pode achar que minhas impressões foram influenciadas por minhas posições.

Para ajudar ou atrapalhar quem for tentar adivinhar minhas inclinações, seguem as dicas. Eu:

  - gosto de viajar para os Estados Unidos.
  - odeio imposto e também odeio ostentação de riqueza.
  - entendo que quem tem dinheiro tem o dever de dividi-lo com os miseráveis.
  - nas próximas eleições, vou escolher um candidato, ou votar em branco, ou anular o voto.
  - não vou dizer em quem votei, porque não sou obrigado. O voto é secreto.

Acredito que minhas impressões do livro não estão contaminadas de viés político.


Inclinações literárias do blogueiro

Das coisas que não gostei no livro, foi por violarem o que considero regras de ouro do romance, que me foram apresentadas em livros do Orhan Pamuk. Uma delas é:
O prazer real de ler um romance surge com a capacidade de ver o mundo não a partir de fora, mas pelos olhos dos protagonistas que habitam esse mundo.  

Antes que eu tivesse uma chance de gostar ou desgostar de alguma personagem, a autora já as havia apresentado como mocinhas ou vilãs. Ela se concentrou em julgar, e na melhor das hipóteses em especular sobre suas razões, não em entender.


Personagens artificiais

A Revolta de Atlas não corre naturalmente. A autora força os acontecimentos em uma direção, obrigando seus personagens bonzinhos a expor o que só pode ser o ponto de vista dela, e seus personagens desprezíveis a dizerem o que ela acredita que seus inimigos pensam.

A personagem John Galt, por exemplo, apresentada como o gênio entre os gênios, toma o controle de todas as rádios do país para transmitir um discurso ideológico. O discurso toma dezenas de páginas.

Suspeito que a autora escolheu sua personagem mais nobre para dar vazão aos seus próprios pensamentos.


Diálogos artificiais

As personagens fazem as exatas perguntas de que as outras precisam para expor seus argumentos com clareza e estilo. Os mais malvados criam sem parar oportunidades para que as protagonistas Dagny Taggart, Hank Rearden, Francisco d'Anconia e John Galt discursem sobre valores e os humilhem.

No que considero um bom romance, esqueço que estou lendo ficção. O que vejo parece real. Mas em A Revolta de Atlas, essa ilusão nunca dura muito tempo.

... assim como em alguns sonhos, queremos que o romance que estamos lendo prossiga e esperamos que essa segunda vida continue evocando em nós uma sensação consistente de realidade e autenticidade. Apesar do que sabemos sobre a ficção, ficamos irritados e aborrecidos se um romance deixa de sustentar a ilusão de que é, na verdade, a vida real. 
Orhan Pamuk.


O tema do livro

Uma pessoa boa é aquela que se preocupa consigo mesma, vivendo para trabalhar e trabalhando para viver. Pessoas ruins são aquelas que querem viver às custas das pessoas boas.

I want to be prepared to claim the greatest virtue of all - that I was a man who made money.
...there's nothing of any importance in life - except how well you do your work. Nothing. Only that. Whatever else you are, will come from that. It's the only measure of human value. All the codes of ethics they'll try to ram down your throat are just so much paper money put out by swindlers to fleece people of their virtues. The code of competence is the only system of morality that's on gold standard.
A Revolta de Atlas 

O mundo tem poucas pessoas boas, competentes e corajosas, que carregam uma humanidade ruim e covarde nas costas. O melhor lugar do mundo são os Estados Unidos, onde investidores, juízes, executivos, músicos e engenheiros geram, coordenam e inspiram mais riqueza.

Ninguém na estória do livro é meio termo. Sempre está claro quem é quem.

Danny Taggart, por exemplo, é dedicada, destemida, inteligente e linda. Já James Taggart é inseguro, invejoso, incompetente e feio. Só sabe coordenar corruptos para levar o governo a criar políticas ditas "sociais", através das quais o dinheiro dos honestos termina no seu bolso.


A trama

Alerta de Spoilers - aqui revelo detalhes da estória, inclusive o final.

O planeta está em recessão econômica. O motivo é que governos castigaram a ganância, tentando redistribuir a renda dos ricos para os pobres. No processo, tomaram a riqueza dos ricos e deram para os folgados e os ladrões.

As empresas morrem aos montes, pois não aguentam tanto tributo e regulamentação. América Latina e Europa estão sob o controle de quase ditaduras socialistas.

Nos Estados Unidos, o capitalismo dá os últimos suspiros. Não bastasse o governo sufocar a economia, os empresários e profissionais mais competentes do país começam a desaparecer misteriosamente.

Os desaparecimentos são obra de John Galt, um engenheiro alto, forte, bonito, corajoso, que resolve toda espécie de problema sem precisar pensar, inventa tecnologias, e é admirado e aceito como líder por todos que o conhecem. Ele encontra e persuade as maiores mentes dos Estados Unidos a abandonar a sociedade e a se esconder em seu vale paradisíaco e invisível. Ali, seu grupo de gênios não vai mais carregar o mundo nas costas.

Escondidos no vale, os nobres empresários e profissionais aguardam até que o mundo pare e os burocratas morram, já que não têm mais quem tributar, regular e roubar. E esse dia chega. Até as luzes de Nova Iorque se apagam, porque não há mais quem saiba operar as usinas na Terra. A tecnologia retrocede. Os trens param, e as pessoas passam a andar de carroça.

Finalmente, depois do fim do mundo, John Galt e seu grupo decidem que é hora de sair de seu vale e refundar a sociedade:

The road is cleared... we are going back to the world. 
A Revolta de Atlas 


Então o livro acaba.

Em mais de mil e duzentas páginas, a autora arquitetou a destruição do mundo. Na hora de construir um melhor, parou de escrever.


Como interpretar o livro?

A mensagem é que pouca gente de valor sustenta a humanidade imprestável.

Para que o mundo melhore, os ignorantes e corruptos precisam seguir as pessoas perfeitas que parecem heróis gregos. Exemplos dessas pessoas são suas incorruptíveis personagens Hank Rearden, John Galt, Dagny Taggart e Francisco d'Anconia, que sabem o que fazer em qualquer situação, criam tecnologias, preveem o futuro e não têm pena de ninguém.

Considerei que talvez a obra e suas personagens devessem ser entendidas como alegorias. Mas um dos valores defendidos no livro é a absoluta objetividade, que se trate dos assuntos sem referências indiretas, sem falar de perspectivas gerais, contexto como um todo, e outras expressões vagas.

He had no capacity for the sort of conversations which were not supposed to be meant.
         A Revolta de Atlas


E a própria autora propõe um entendimento literal de suas personagens:

Creio que ninguém vai me dizer que homens como esses sobre os quais escrevo não existem. Este livro ter sido escrito - e publicado - é minha prova de que existem sim.
         Ayn Rand


Uma estória que não respeita sua própria lógica

Em uma festa de ricos, os presentes recebem a notícia de que seu dinheiro investido em ações foi perdido, e saem do recinto em pânico. No capítulo seguinte, todos continuam ricos e tranquilos.

Um dia o governo proíbe que investidores sejam donos de grandes empresas. No dia seguinte, está tudo como antes.

O governo tenta evitar mais recessão "congelando"a economia. Ficam proibidas contratações, demissões, invenções e mudanças de preços. A novidade joga o país em mais um caos. Mas as empresas dos heróis Hank Rearden e Dagny Taggart não sofrem os efeitos.

Telefone, ar-condicionado, trens, estradas, motores, eletricidade, serviços... tudo pifa. A comida é ruim, porque as pessoas não sabem cozinhar. É difícil se deslocar, porque ninguém sabe dar informação. As pessoas até temem que os prédios desabem sob suas cabeças.

She could not tell whether the four at the counter were beggars or working men; neither clothes nor manner showed the difference, these days.
         A Revolta de Atlas


Mas de alguma forma, os executivos Hank Rearden e Dagny Taggart utilizam relatórios contábeis e gerenciais precisos. Recebem de seus empregados a informação completa de que necessitam para gerir brilhantemente seus negócios. Isso mostra como a autora entendia do mundo corporativo que descreveu!

Interessante notar que quando precisam construir uma nova ferrovia ou uma ponte, começam imediatamente, sem precisar de projeto ou de financiamento.

E apesar da corrupção e da incompetência generalizadas, Hank e Dagny sempre têm funcionários em que depositam confiança plena. Nunca são enganados, ou mesmo confundidos por eles.


Filosofia

Entre as poucas coisas que ouvi sobre o livro antes de lê-lo, é que trata-se de uma obra de filosofia. Não sou filósofo, então não vou opinar. Mas caso alguém queira saber, esse livro não me parece filosofia não.

Porém, a seguinte pergunta sai da boca de um dos personagens mais desprezíveis, James Taggart:

She... spends her life building tracks and bridges, not for any great deal, but only because that's what she enjoys doing. If she enjoys it, what is there to admire about her doing it?

Essa é, na minha humilde opinião, uma pergunta que merece e precisa ser feita.

Antes e depois dessa pergunta, James Taggart só abre a boca para mentir, chantagear, corromper, invejar e sofismar. Então me parece que se a autora utilizou a boca dele para articular esta interessante pergunta, é porque em sua opinião a pergunta só ocorre a pessoas desprezíveis.


Falando bem

As incoerências e ingenuidades da estória, em que navegam personagens artificiais, tornam essa leitura não muito prazerosa.

Já o estilo me agradou bastante. Seguem belas amostras:

Not everyone has friends in Washington, not everyone can benefit from a strong state.
Times change, and people change with the times - the wise ones do. Wisdom lies in knowing when to remember and when to forget. Consistency is not a habit of mind which it is wise to practice or to expect of the human race.
The evaluation of an action as 'practical', Dr. Ferris, depends on what it is that one wishes to practice.
There's no way to rule innocent men. The only power any government has is the power to crack down on criminals. Well, when there aren't enough criminals, one makes them. One declares so many things to be a crime that it becomes impossible for men to live without breaking laws. Who wants a nation of law-abiding citizens? What's there in that for anyone? But just pass the kind of laws that can neither be observed nor enforced nor objectively interpreted - and you create a nation of law-breakers - and then you cash in on guilt.
These were the standards which he did not live by, but had to consider.
The same kind of brain can't do both. Either you are good at running the mills or you're good at running to Washington.


E há pelo menos dois temas que A Revolta de Atlas explorou bem, ainda que involuntariamente, acredito.

O primeiro é a luta das personagens, das pessoas, e acredito que da própria autora, para acreditar que não devem caridade a ninguém. É a vontade de se convencer de que é moral perseguir os próprios interesses, sem sentir culpa pelo sofrimento alheio, e muito menos responsabilidade por diminuí-lo. É a ânsia de se persuadir de que conquistamos a saúde e os privilégios com que nascemos, enquanto os enfermos e os pobres são culpados pelo seu estado e atraem desgraça.

O segundo são as possíveis razões que levam uma pessoa a fingir compaixão. Tememos que alguém nos convença de sua santidade, e então nos engane e nos roube. Que nos acusem de ganância e distribuam nossos pertences, não porque se importam com os pobres, mas porque desejam tomar o que é nosso, e nos ver diminuídos e humilhados.

...do you know the hallmark of the second-rater? It's the resentment of another man's achievement.
A Revolta de Atlas 


Trechos

They dislike me, not because I do things badly, but because I do them well.
Both of them smiled derisively. But Francisco seemed to laugh at things because he saw something much greater. Jim laughed as if he wanted to let nothing remain great.
How can one deal in truth when one deals with the public?
It is not advisable, James, to venture unsolicited opinions. You should spare yourself the embarrassing discovery of their exact value to your listener.
Society is a complex structure. There are so many different issues awaiting decision, hanging by a thin thread. We can never tell when one such issue may be decided and what may be the decisive factor in a delicate balance. Do I make myself clear?

sábado, 20 de janeiro de 2018

Incesto - Anaïs Nin



Leitura abandonada

Essa seria uma continuação dos diários publicados como Henry e June, de que gostei.

Fui até a página sessenta. Não parece o mesmo diário. O texto é exagerado, impreciso, confuso, repetitivo e dramático demais.

Não dá para criticar a autora. Esse é seu diário, que ela podia escrever como quisesse.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

O Romancista Ingênuo e o Sentimental - Orhan Pamuk



Às vezes arriscamos pintar um quadro, compor uma canção, escrever um texto, e acaba ficando bom. Tentamos de novo, e sai ainda melhor. Descobrimos que temos talento para a coisa. Nunca ninguém nos ensinou nada, mas levamos jeito. Simplesmente sabemos aquilo. Podemos sair fazendo, sem pensar, usando nossa sensibilidade. Orhan Pamuk chama de ingênuo o escritor que executa esse milagre.

Um profissional pode então revisar nossa obra - por exemplo, um livro - e apontar problemas. A narrativa é incoerente, confusa e longa demais. Nos falta técnica. Nosso escrito fica ruim e ninguém aguenta ler. Não adianta uma artista ser apenas talentosa e ingênua. Ela também precisa ser sentimental. Isto é: ser conhecedora do ofício, fria, racional e crítica. A romancista precisa ser ingênua para criar vidas e universos, e também sentimental, para polir sua criação.

Quanto mais o romancista consegue ser, ao mesmo tempo, ingênuo e sentimental, melhor ele escreve.

Em O Romancista Ingênuo e o Sentimental, Orhan Pamuk usa essa distinção para falar sobre ler e escrever romances literários.

A vida dos protagonistas, seu lugar no mundo, a maneira como sentem, veem e lidam com seu mundo - esse é o tema do romance literário.
... a arte de escrever romances é a capacidade de perceber os pensamentos e sensações dos protagonistas numa paisagem - quer dizer, entre os objetos e imagens que os rodeiam. 

Para mim e para muitos, ler O Romancista Ingênuo e o Sentimental é felicidade. Este livro me deixa com vontade de ser romancista.


É difícil expressar um sentimento. Com frequência, nem é possível. Certas sensações e experiências são únicas para quem as viveu. Coloque uma dessas no papel, e ninguém lhe entenderá. Tentar descrever é inútil. Sua melhor chance é não tentar explicar. Ao invés disso, narre uma estória. Descrevendo objetos, pessoas e circunstâncias, pode ser que você induza no leitor aquilo que sente e pensa.

Ou pode ser que não.

Pode ser que eu seja incapaz de entender os sentimentos por trás de O Gigante Enterrado de Kazuo Ishiguro, e que eu não possa culpar quem acha O Museu da Inocência tedioso.

Assim é porque as vezes em que o esquecemos são as vezes em que acreditamos que o mundo fictício é real e que o "espelho" do escritor (metáfora antiquada para a maneira como o romance retrata ou "reflete" a realidade) é perfeito e natural. Evidentemente, não existe espelho perfeito. Só existem espelhos que correspondem perfeitamente às nossas expectativas. Todo leitor que decide ler um romance escolhe um espelho de acordo com seu gosto.

Um escritor pode escrever uma estória imaginada, uma ficção pura, e ainda assim revelar mais sobre si mesmo do que gostaria. Orhan Pamuk pode não ser seu protagonista Kemal, e talvez nunca tenha vivido suas experiências, como herdar e abrir mão de sua parte em um negócio lucrativo, ou se tornar um acumulador de objetos. Mas quando descreve o ciúme, a vergonha e a saudade que Kemal sente, está descrevendo sentimentos que conhece, porque já os viveu.


O romance literário possui um centro secreto. Quando é mais do que um vira-páginas, promessa de acontecimentos, excitação de suspenses e brincadeiras com pequenos mistérios, o romance é uma reflexão.

... cada frase de um bom romance suscita em nós um senso do conhecimento profundo e essencial do que significa existir nesse mundo. Também aprendi que nossa trajetória por esse mundo, a vida que levamos em cidades, ruas, casas, salas e na natureza consiste em nada mais que uma busca de um sentido secreto que pode ou não existir.
Para mim, o valor de um romance está em seu poder de provocar uma busca por um centro que também podemos ingenuamente projetar no mundo. Para simplificar: a real medida desse valor deve ser a capacidade do romance de despertar a sensação de que a vida é, com efeito, exatamente assim. O romance deve se dirigir a nossas principais ideias sobre a vida e deve ser lido com a esperança de que fará isso.

Manuais ensinam que as personagens são o centro de um livro. Editoras demandam que suas personalidades estejam claras e que entrem em conflito. Cada participante na estória deve ter seu jeitão e suas manias para que sejam memoráveis e interessantes para o leitor.

Mas acredito que essa seja uma tática comercial. Os leitores só vão gostar da mercadoria livro se encontrarem entretenimento, daí a importância das personagens.

Já nos romances literários, que não estão ali para entreter, mas para perturbar nossos pensamentos e sentimentos, é importante que as personagens e as ocorrências tenham mais semelhanças com a vida real. E na vida real, as pessoas são mais parecidas entre si. Suas personalidades não são tão marcantes e distintas.

Como acredito que o objetivo essencial da arte do romance é exibir uma acurada representação da vida, permitam-me ser franco. Na verdade, as pessoas não têm tanto caráter como o que encontramos no romance, sobretudo no romance dos séculos XIX e XX. Estou com 57 anos de idade ao escrever estas palavras. Nunca consegui identificar em mim mesmo o tipo de caráter que encontro nos romances - ou melhor, nos romances europeus. Ademais, o caráter humano não é tão importante na moldagem e nossa vida quanto se pretende que seja no romance e na crítica literária do Ocidente. Dizer que a criação do caráter da personagem deve ser o objetivo primário do romancista vai de encontro ao que sabemos sobre a vida humana em geral.
Assim como o mexerico sobre o caráter de pessoas que conhecemos na vida real, discursos eloquentes que celebram a natureza inesquecível de certos heróis literários frequentemente não passam de retórica vazia. 
O romancista não inventa primeiro um protagonista com uma alma muito especial e depois se deixa levar por ele a assuntos ou experiências específicas, segundo os desejos dessa figura. A vontade de explorar determinados tópicos surge primeiro. Só depois o romancista concebe as figuras mais adequadas para elucidar tais tópicos. É assim que sempre tenho feito. E acho que todos os escritores, consciente ou inconscientemente, fazem a mesma coisa.


Então qual é o objeto do romance literário?

A questão definidora da arte do romance não é a personalidade ou o caráter dos protagonistas, mas a maneira como veem o universo dentro da história.
Ao escrever um romance, de início meus anseios mais intensos são ter certeza de poder "ver" em palavras alguns tópicos e temas, explorar um aspecto da vida que nunca foi retratado até então e ser o primeiro a verbalizar os sentimentos, pensamentos e circunstâncias daquelas pessoas que vivem no mesmo universo que eu.
O que permanece em nossas mentes muitas vezes é a configuração geral ou o mundo inclusivo do romance, que chamo de "paisagem." Mas o protagonista é o elemento que nós sentimos que lembramos. Assim, em nossa imaginação, o nome dele ou dela se torna o nome da paisagem que o romance nos apresenta.


Por que lemos romances?

Alimentar o gosto pelo romance, cultivar o hábito de ler romances indica um desejo de escapar da lógica do mundo cartesiano monocêntrico, onde corpo e mente, lógica e imaginação estão em oposição. Um romance é uma estrutura única que nos permite ter pensamentos contraditórios sem constrangimento e entender diferentes pontos de vista ao mesmo tempo.

romance é também um remédio. Nossa percepção da realidade está distorcida pelo noticiário e pela ficção ordinária, que apontam suas lentes para os líderes e para os eventos mais barulhentos do mundo. O romance literário nos lembra que cada pessoa é um universo, e que os sentimentos e os pensamentos dos nossos vizinhos e colegas são até mais importantes.

Quando deixamos de lado as narrativas tradicionais e passamos a ler romances, sentimos que nosso mundo e nossas escolhas podem ser tão ou mais importantes quanto fatos históricos, guerras internacionais e decisões de reis, paxás, exércitos, governos e deuses - e que, ainda mais extraordinário, nossas sensações e nossos pensamentos têm potencial para ser muito mais interessantes que qualquer uma dessas coisas. 

E por que escrevem romances?

O anseio de criar os muitos tipos possíveis de herói superando todas as diferenças de cultura, história, classe e gênero - de transcender a nós mesmos a fim de ver e descobrir o todo - é um anseio liberador básico que torna atraente ler e escrever romances, bem como uma aspiração que nos faz reconhecer os limites da capacidade humana de entender o outro.

Em O Romancista Ingênuo e o Sentimental, e também em outros escritos e em entrevistas, Orhan Pamuk diz que leu, intensamente e com êxtase, muitos livros até chegar aos seus trinta anos. Em O Museu da Inocência, quando seu protagonista Kemal e sua noiva Sibel estão com trinta anos ou perto disso, Orhan diz que estão aproveitando os últimos dias de sua juventude.

Fico imaginando o que mudou na vida de Orhan Pamuk quando fez trinta anos. Parou de ler intensamente e com êxtase? Sentiu-se velho?

Ao devorar romances em minha juventude, eu experimentava uma vertiginosa sensação de liberdade e autoconfiança.