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quarta-feira, 2 de maio de 2012

Drácula - Bram Stoker

   Vem escrito na capa do livro "Drácula", de Bram Stoker, na edição da Collector´s Library de 2003: "Complete & Unabridged". Ou seja: completo e sem "emendas" ou cortes.


   Comprei o livro, assim, na expectativa de ler um texto em um estado quase bruto, como eu queria. Para a minha surpresa, porém, antes da primeira página do primeiro capítulo, está escrito:
    How these papers have been placed in sequence will be made clear in the reading of them. All needless matters have been eliminated, so that a history almost at variance with the possibilities of latter-day belief may stand forth as simple fact. There is throughout no statement of past events wherein memory mar err, for all the records chosen are exactly contemporary, given from the standpoints and within the range of knowledge of those who made them.
     Entendi o texto assim:
    "Como esses papeis foram postos em sequência ficará claro pela sua leitura. Todos os assuntos desnecessários foram eliminados, para que a história possa se manter coerente e compreensível em um quadro de crenças e entendimentos de épocas futuras. Não há ao longo da obra referências a eventos passados que possam conter imprecisão, uma vez que os registros escolhidos são exatamente contemporâneos, postos a partir dos pontos de vista e dentro do alcance do conhecimento daqueles que os escreveram".
     Fiquei confuso. Na capa, consta que o livro está bruto, sem cortes. Mas antes de o livro começar, um alerta: tudo que é desnecessário foi eliminado do texto para que a obra, de 1897, seja compreensível para o leitor de hoje. Afinal, a edição tem ou não tem cortes?
     Enfim. Segui adiante no livro, que começa com o diário de um viajante. Mais adiante, começa o diário da noiva do viajante. Ainda mais a frente, aparecem outros diários e textos de jornal.
     Já quase pela metade do livro, faço uma pesquisa na internet para entender se o livro tem ou não tem cortes. E logo fica clara a minha trapalhada na interpretação do texto. O trecho How these papers have been placed... não é nota da editora, mas do próprio autor do livro, o Bram Stoker. Ou seja: o autor finge que não é um autor, e sim um editor, que reuniu trechos de diários de pessoas que em algum momento interagiram direta ou indiretamente com o Conde Drácula, e de jornais das localidades por onde o Conde passou.
 
      Atenção! Há spoilers daqui para frente. Não vá adiante se você pretende ler o livro.

      Como eu comentei acima, o livro começa com o diário de Jonathan Harker em sua viagem de negócios à Romênia. Esse diário soa bastante autêntico. Tem, por exemplo, anotações sobre os pratos que o personagem experimenta no caminho e pretende reproduzir em casa depois, e lembretes sobre assuntos para conversar com a noiva. O destino de Jonathan é o castelo do Conde Drácula, que tenta através dele adquirir um imóvel. Enquanto acerta os detalhes da compra, o Conde hospeda Jonathan, que continua inserindo registros em seu diário, a única fonte que o leitor do livro tem para entender o que se passa. A certa altura do diário, fica claro que Jonathan não tem meios de sair do castelo do Conde. Para piorar as coisas, o Conde é um velho que se alimenta de sangue de pessoas.
       A autenticidade que marca esse primeiro diário é o que passa gradativamente a faltar nos demais diários que surgem ao longo do livro, escritos por diferentes personagens. Há trechos de diários, por exemplo, que os personagens dizem ter escrito pouco antes de dormir, depois de um dia exaustivo. Acontece que a riqueza poética desses trechos de diário faz ser estranho imaginar que se trata de um diário escrito em tal estado de cansaço. Essa poesia, aliás, é ainda mais improvável por ser semelhante nos diários de três personagens de quem seria de se esperar personalidades distintas: um médico, um advogado e uma senhorita de quem não sabemos muitos detalhes.
       Ao final do livro, os diários já não têm autenticidade nenhuma. É como se o autor de repente ficasse com pressa de terminar a obra e então começasse a escrever rapidamente para acabar de vez a história. Também parece que diminui seu esforço para dar personalidade aos personagens, de forma que é fácil pensar que estamos lendo o diário de um personagem e depois nos darmos conta de que estávamos lendo o diário de outro.
       Engraçado ainda é como os diários retratam com precisão o que seus autores ouviram de seus colegas ao longo do dia. O personagem Dr. Seward, por exemplo, lembra com detalhes as frases ditas pelo seu colega Dr. Van Helsing, longas e ornamentadas como as pragas bíblicas.

       Curiosidades

       - Para salvar a vida de uma personagem que acaba de ter seu sangue sugado, o médico Dr. Van Helsing faz uma transfusão de sangue do seu braço para o braço da personagem. Para salvar a mesma personagem de um outro ataque, transfunde o sangue do braço de um colega para o braço da coitada. Para salvá-la de um último ataque, faz uma tranfusão de sangue entre a vítima e seu noivo. A personagem sobrevive às três tranfusões, sem episódios de infecção ou coagulação por incompatibilidade. Se não estou enganado, à época do livro as pesquisas sobre tipos sanguíneos ainda estavam em andamento. Então, talvez escrever sobre as consequências de uma transfusão de sangue ainda fosse um exercício de especulação.
        - Um dos personagens é louco e está internado em um hospício. Entre suas loucuras, está o hábito de escrever em um caderno e documentar anotações que parecem "testes de soma de auditoria." Fica a pergunta: os auditores enloquecem de tanto fazer testes de soma e vão parar no hospício? Ou quando uma pessoa começa a brincar de teste de soma é que fica constatada a insanidade e chega a hora da internação?

        Falando sério: reflexões

     O posfácio do livro trata do Conde Drácula como uma encarnação daquilo que a sociedade vitoriana abominava, dado que o personagem é pagão e sensual.
        Que personagem representaria os atributos abominados pela sociedade atual?
        A sociedade atual abomina algum atributo?

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