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terça-feira, 29 de abril de 2014

Grandes Esperanças - Charles Dickens



AVISO

* Os posts deste blog quase sempre revelam detalhes importantes da obra. Ou seja: contêm spoilers.





Provocação



Espero que o tamanho deste post desencoraje-o a lê-lo, assim como o tamanho de “Great Expectations” desencoraja a maioria dos maus leitores.



Essa foi uma provocação feita ao vento! 





Digressão


Em uma livraria Waterstones em Londres, vi um livro de Machado de Assis traduzido para o inglês exposto em uma prateleira logo após a entrada. Um comentário impresso e colado perto do livro dizia: “Machado de Assis foi o mais perto que a América Latina chegou de produzir um Charles Dickens.” Ah, como eu gostaria que uma amostra representativa de leitores de diferentes países que tivessem lido as obras completas de ambos os autores pelo menos três vezes, em diferentes idades, dividissem suas considerações sobre esta afirmação, depois de um sincero e planejado esforço de objetividade e de um processo de revisão por pares!

Tradução

Estava lendo uma edição inglesa deste livro, que tem o título Great Expectations. Já um pouco adiantado na leitura, vejo o personagem Pip pedir uma “antecipação de suas expectativas” a um escritório que cuidava das suas finanças. Faço uma pesquisa sobre a palavra expectations para tentar entender como um escritório pode antecipar uma expectativa a alguém, e descubro que, no inglês arcaico, expectations pode significar uma expectativa de receber uma herança. Portanto, Pip estava pedindo ao escritório que lhe adiantasse em dinheiro uma parte da herança que lhe havia sido prometida. 

Gostaria de poder ouvir de um entendedor da língua portuguesa se as palavras “esperança” e “expectativa” em português carregam ou já carregaram esse sentido. Caso não, esse livro deve ter imposto uma dificuldade de tradução já no título. E, obviamente, uma dificuldade de entendimento também às gerações futuras de falantes de inglês que desconhecessem esse sentido arcaico da palavra. No meu caso, eu só aprendi sobre o duplo sentido depois de a palavra ter aparecido no livro muitas vezes. Portanto, oportunidades de apreciar possíveis ambiguidades já estavam perdidas.

Grandes Esperanças X Razão e Sensibilidade


Durante os dois anos em que devo morar na Inglaterra, pretendo ler apenas livros britânicos, em um esforço de imersão. O primeiro da série foi “Razão e Sensibilidade”, que comentei neste post (Razão e Sensibilidade), e que já foi definido como “uma história bem inglesa.” Refleti sobre o que teria dado esse rótulo ao livro: a ode aos valores aristocráticos? A comunicação indireta? Ou outra coisa?

Em Great Expectations, história publicada uns cinquenta anos depois, a comunicação indireta e o understatement também estão lá o tempo todo. Mas esta é uma obra que explora um pedaço maior da sociedade. Embora a história também trate, dentre muitas outras coisas, do sofrimento de não ser parte da classe que se gostaria, aqui os pobres, os empregados, os bandidos e os empreendedores existem. Mesmo as figuras abastadas têm com o que se preocupar. No livro de Jane Austeen, a vida se passa em um universo de conto de fadas. Enquanto em R&R o mais próximo que se chega de um desconforto financeiro seja a frustração de não se poder engordar o patrimônio com uma bela herança, em GE as pessoas terminam na cadeia por falharem em pagar suas contas. Em R&R um chalé com poucos servos deixa insatisfeita uma familia que gostaria de poder pagar por uma manção com muitos. Em GE, há casas sem servos, que podem ser ao mesmo tempo moradia, ferraria, ringue, hospital e cena do crime. Em R&R, a doença é elegante e teatral. Em GE, ela é terrível, tem pus, deixa sequelas definitivas. Por fim, em R&R, enquanto o enredo gira em torno das profundezas do quotidiano em um tempo mínimo, em GE o narrador informa o leitor de que pulará o dia-a-dia, porque está contando uma história sobre grandes acontecimentos e ironias que submetem vidas a encontros maravilhosos e horríveis por quase trinta anos.

Certamente, Austen e Dickens apontaram suas lentes para trechos diferentes das vidas, e com distâncias também diferentes. Qual das duas lentes oferece a experiência mais autêntica? Qual das duas histórias ensina mais ao leitor sobre si mesmo?

Nos livros e nos filmes, temos maior facilidade de nos comover com a realidade de crianças sofridas, como Pip neste livro de Charles Dickens, que são órfãs, pobres e desejosas de um futuro. Mas se esbarramos com pessoas necessitadas nas ruas, viramos o olhar quase imediatamente e evitamos até as reflexões sobre nossa parcela de responsabilidade por essa situação. E tentamos assim viver em um mundo das nossas preocupações, onde a pobreza e a desigualdade extrema não existem, sonhando em alcançar um degrau acima entre as classes sociais, nunca atentando para quem está um degrau abaixo. Um mundo igual ao das personagens de Razão e Sensibilidade. Ao explorar com maestria as camadas da superficialidade de um cotidiano de egoísmo e desprovido de grandes eventos, Austen expõe uma faceta não menos importante da condição humana.

Resumo da história


Um órfão chamado Pip, de quem não sabemos nada, narra sua história de algum lugar e tempo que também desconhecemos, a partir de suas mais remotas lembranças da infância, quando o garotinho costumava visitar sozinho pântanos melancólicos, escuros e nebulosos, para ficar perto dos túmulos dos familiares que não conheceu, imaginar como eram e diminuir sua solidão. Em sua casa, era criado com maus tratos pela irmã, mas encontrava carinho e alguma proteção no tio Joe. Essa rotina é quebrada no dia em que Pip é surpreendido por um encontro com um fugitivo da prisão, que o aterroriza ameaçando matá-lo se não for ajudado a se alimentar e a se livrar das correntes que prendem seus pés. Furtando comida dos estoques da irmã cruel e uma lima do querido do tio, Pip tem o pior dia de sua vida até então, torturado pelo medo de a irmã descobrir seu crime, pelo remorso de ter furtado de seu único protetor, e pelo pavor de ser preso por ter colaborado com a fuga de um bandido.

Depois de conquistar nossa simpatia por ter sido envolvido tão novo em tamanha injustiça, Pip nos narra o dia em que se tornou consciente de sua pobreza, das suas maneiras brutas, do seu vocabulário de populacho, de suas roupas baratas e ruins. Foi quando o levaram à casa da riquíssima Senhorita Havisham, que se entretinha submetendo-o à convivência com sua filha adotiva Estella, talentosa e treinada na arte de magoar. Desta vez, a tortura nao é curta: a convivência dura meses e meses, e, para piorar as coisas, Pip ama dolorosamente a garota tão competente em lhe fazer mal.

O narrador nos conta, então, o evento que dá nome ao livro. Depois de um longo tempo remoendo a angústia de ser tão pobre e tão baixo aos seus próprios olhos e aos da pessoa que amava, Pip recebe em casa a inesperada visita de um advogado que lhe traz uma misteriosa proposta de um benfeitor oculto:

“‘Estou instruído a comunicá-lo,’disse Mr. Jaggers, apontando seu dedo de lado para mim, ‘que ele virá a uma bela propriedade. E que é o desejo do atual possuidor da propriedade que ele seja imediatamente removido da sua presente esfera de vida e deste lugar, e seja criado como um cavalheiro, - em uma frase, como um jovem de grandes expectativas.’”

Em troca, Pip nunca deveria mudar de nome, nem perguntar quem era seu benfeitor. O leitor terá a partir daqui um longo caminho para formar suas teorias sobre quem ele ou ela é, e sobre como os episódios da ajuda ao fugitivo, a conexão de Pip com a familia de Havisham e a virada de sorte se conectam. Enquanto isso, Pip será transformado dia-a-dia pelo conforto financeiro, pela vida na cidade grande e pela variedade de tipos de companhia que ela oferece.

Quem diz que dois jovens se apaixonaram, enfrentaram alguma resistência de família contra o casamento, tiveram filhos, sofreram e batalharam não está contando a história de “O Continente” de Érico Veríssimo. Da mesma forma, meus três parágrafos acima não chegam perto de oferecer um pedaço da profundidade, sutileza e ironia da escrita de Charles Dickens. Talvez os curtos trechos que colei ao final deste post façam isso muito melhor. Só o que posso fazer é afirmar que este é um daqueles livros que nos permitem nos enxergar nos personagens do passado, viver os nossos próprios sentimentos em outra época, ao mesmo tempo em que podemos degustar uma redação genial. E torcer para que o leitor deste post não aceite a constrangedora situação de ter que acreditar em mim.

Coincidências


* Daqui para frente há uma concentração de spoilers. Ou seja: revelo detalhes importantes da obra. Se você deseja ler o livro e ser surpreendido pela trama, não leia mais nada.
 
Entendo que um leitor deseja dedicar seu tempo apenas às histórias mais extraordinárias, ou aos detalhes mas interessantes das histórias comuns. Mas me parece que este enredo contém um exagero no número e no tamanho de coincidências, ironias e episódios de extrema sorte. Acredito que a história teria ficado melhor ainda se a trama tivesse fluído mais naturalmente, com menos encontros e conexões improváveis, como as que seguem:

                - O inimigo do prisioneiro fugitivo que encontra Pip ser o ex-noivo da Senhorita Havisham;

                - Pip ter visitado a casa da Senhorita Havisham exatamente no mesmo dia em que Estella teve a mesma ideia, aproximadamente 11 anos depois de terem se encontrado pela última vez;

                - Sem interagir com Pip por anos, Orlick ter sido capaz de monitorá-lo, enganá-lo, emboscá-lo, amarrá-lo, depois ter tido a motivação de narrar detalhadamente e claramente as suas maldades cometidas, motivos e intenções, e, por fim, perdido a chance de matá-lo no seu último minuto;

                - Pip ter segurado a mão de seu benfeitor em sua última respiração, imediatamente depois de lhe ter feito a revelação mais importante de sua vida;

                - Pip ter feito uma solene promessa de acompanhar seu benfeitor eternamente, o que não teve qualquer efeito prático, porque o benfeitor morreu pouco tempo depois, liberando Pip para voltar a ter o que a promessa implicava sacrificar: estar com Joe, Biddy, Estella, Herbert...

Final


A última frase do livro pode ter duplo sentido. Depois de encontrar Estella pela última vez, Pip diz:

“Eu tomei sua mão na minha, e saímos do lugar em ruínas (...) eu não vi sombra de outra partida dela.” 

Há quem interprete que Pip quis dizer que já não sofreria ao se separar de Estella naquele dia, como sofrera nas outras vezes. Há quem diga que Pip se comprometeu naquele momento a nunca mais se separar de Estella. E quem se propõe a escrever qualquer coisa sobre esse livro, como eu estou fazendo, deve se posicionar sobre a questão. O que Pip quis dizer afinal?

Na minha opinião, embasada em sustentadíssima ignorância de quem só leu o livro uma vez e pesquisou pouco mais do que nada sobre a obra, é que as duas interpretações são válidas. Essa técnica de encerramento de ficções é clássica. O leitor pode investir, ou perder, o tempo que quiser tentando matar a questão, e não vai conseguir. Com exceção, obviamente, do leitor detentor da notável habilidade de se comunicar com os desencarnados. 

Semelhanças


Notei algumas semelhanças entre “Great Expectations” e a versão de Oliver Twist para o cinema. A principal: o protagonista é uma criança pobre, órfã, obrigada a interagir com adultos insensíveis e cruéis, forçada em alguns momentos a lidar com criminosos, mas que a certa altura tem uma tremenda virada de sorte, se vê beneficiada por alguém rico e, ao final da história, se despede de um condenado a morte com quem tinha forte vínculo.



Understatement
 


Depois que chamaram minha atenção para esse jeito indireto de os britânicos dizerem as coisas, comecei a colecionar frases desse tipo. Abaixo, os dois melhores exemplares deste livro, na minha opinião.


No que segue, o personagem Joe confirma que sabia que um certo personagem havia morrido:

“Eu acho… que eu ouvi dizerem sobre como ele estava de um jeito ou de outro de uma forma geral nessa direção.”

E no próximo, Wemmick se refere a um personagem que foi expulso do país como parte de uma condenação:

“... tinha feito um certo rebuliço em uma certa parte do mundo onde muitas pessoas vão, nem sempre em contentamento das suas próprias propensões, e não muito independentemente dos gastos do governo.”
 
Personagens

Para quem quiser conhecer os personagens um pouco melhor, seguem frases ditas por eles, ou por outros personagens sobre eles:


Pip








“Em uma frase, eu era covarde demais para fazer o que sabia ser certo, assim como fora covarde demais para evitar fazer o que eu sabia ser errado. Eu não interagira com o mundo naquele tempo, e eu não imitava nenhum dos seus muitos habitantes que agem dessa forma. Um gênio nato, eu fiz a descoberta da forma de ação sozinho.”






Jaggers






Sobre ele: “O estranho cavalheiro, com um ar de autoridade que não deveria ser enfrentada, e com uma maneira de quem expressava saber algo secreto sobre cada um de nós que seria o bastante para cada indivíduo se ele resolvesse revelar...”






Dita por ele: “Não aceite nada pela aparência; aceite tudo pela evidência. Não há regra melhor.”






Herbert







“Herbert Pocket tinha um jeito franco e simples com ele que era muito cativante. Eu nunca havia visto então, e nunca vi depois, alguém que mais fortemente expressasse para mim, em cada olhar e tom, uma natural incapacidade de fazer algo secretamente ou ruim. Havia algo maravilhosamente esperançoso no seu ar, e algo que ao mesmo tempo me sussurrava que ele jamais seria bem sucedido ou rico.”



Mrs. Pockets



“... ele direcionara Mrs. Pocket a ser criada do berço como alguém que na natureza das coisas precisa ter um título, e que deveria ser protegida de adquirir conhecimento doméstico plebeu.”



Drummle



“Startop, sendo um vívido, brilhante e jovem rapaz, e Drummle sendo exatamente o oposto, este estava sempre disposto a ressenti-lo como uma afronta pessoal direta.”



Curiosidade

O personagem Joe, meu favorito, foi o único a conseguir intimidar Jaggers em todo o livro. Foi
pouco depois de se conhecerem. Na ocasião, Joe entende que está sendo afrontado, e desafia Jaggers para uma briga de braço. Jaggers se assusta e deixa o ambiente. Interessante notar que isso ocorre ainda na primeira metade da obra, antes de o leitor saber o suficiente sobre Jaggers para entender o osso duro que é. Imagino que essa única derrota de Jaggers em todo o livro deve passar despercebida por quase todo mundo.

Impressão geral

Este é um livro inesquecível. E apenas para enaltecer ainda mais esta obra e adicionar algum valor a esta recomendação, tento mostrar que não adorei a obra cegamente e divido um comentário negativo: em uma história em que tantos sentimentos e fraquezas humanas foram bem explorados e expostos, ficou estranha a falta de desejo nos personagens. Eles demonstram ter simpatia uns pelos outros. Se gostam, se apaixonam, se amam, mas parecem todos imunes à vontade, ao apetite, ao querer.

Ou eu preciso aprender mais sobre as sutilezas da comunicação deste país para encontrar um pouco disso no livro. 

Também me incomodou a forma como uma história que caminhava para o desastre tão rapidamente e artificialmente é direcionada para um final feliz.

E uma menor quantidade de incríveis coincidências também teria caído bem.

Ainda assim, acho que vai longe esse Charles Dickens.

Perguntas


Mrs. Gargery, irmã de Pip, depois de ferida, desenvolve um interesse pela presença de Orlick, que, aprendemos mais tarde, fora o responsável pelo golpe na cabeça que a deixara sequelada. Qual seria o motivo do interesse pela presença de Orlick? Que ele fizesse uma nova e melhor sucedida tentativa de matá-la?


Quantos anos teria Pip ao narrar a história?
 

Trechos


Por fim, divido uma seleção de trechos maravilhosos desta deliciosa e intensa peça de literatura:


“Eu era sempre tratado como se houvesse insistido em nascer em oposição a todos os princípios da razão, religião e moral, e contra os argumentos persuasivos dos meus melhores amigos.”



“No pequeno mundo onde as crianças têm a sua existência, quem quer que as crie, não há nada tão fortemente percebido e tão fortemente sentido, como a injustiça. Pode ser pequena injustiça a que a criança é exposta; mas a criança é pequena, e seu mundo é pequeno.”



Não é possível saber quão longe a influência de um homem amável, de coração, cumpridor do dever voa pelo mundo.”



“Então, por toda a vida, nossas maiores fraquezas e baixezas são usualmente cometidas em favor das pessoas que nós mais desprezamos.”



“Pip, querido velho amigo, a vida é feita de várias partidas fundidas juntas... e um homem é ferreiro, e um é latoeiro, e um é ourives, e um é caldeireiro. Divisões assim devem vir, e precisam ser encaradas quando vêm.”



“Todos os enganadores sobre o chão não são nada para os auto-enganadores.” 

“É claro que ele não é o tipo certo de homem... porque o homem que ocupa o posto de confiança nunca é o tipo certo de homem.”

“Meus hábitos pródigos levaram sua natureza simples a despesas com que ele não podia, corromperam a simplicidade da sua vida, e perturbaram sua paz com ansiedades e arrependimentos.”

“Nós gastávamos tanto dinheiro quanto podíamos, e obtínhamos tão pouco por ele quanto as pessoas poderiam decidir nos dar. Nós estávamos sempre mais ou menos infelizes, e a maioria dos nossos conhecidos estava na mesma situação. Havia uma ilusão alegre entre nós de que nós estávamos constantemente nos divertindo, e uma óssea verdade de que nunca estávamos. Na minha melhor opinião, nosso estado era, em uma última analise, um bem banal.”

“Estamos olhando para a boca do nosso cavalo dado com lente de aumento.”

“‘Investir propriedade portátil em um amigo?’ disse Wemmick. ‘Certamente ele não deveria. A não ser que ele queira se livrar do amigo, - então torna-se uma questão de quanta propriedade portátil deve valer se livrar dele.”

“Eu trabalho bem duro por um padrão suficiente, e portanto sim, vou bem.”

E um trecho em inglês que, amador que sou, não consegui traduzir sem estragar o jogo de palavras:

Finally resolved, and ever afterwards abided by the resolution, that my heart should never be sickened with the hopeless task of attempting to establish one.”








2 comentários:

  1. Li a pouco tempo esse livro e compartilho de alguma impressões expostas em seu texto. Muito boa a sua postagem! Parabéns!

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