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domingo, 17 de maio de 2015

Minuano - Tabajara Ruas

Um livro brasileiro me encontrou aqui no meu canto na Inglaterra. Foi um presente enviado pela mesma pessoa que me colocou em contato com alguns dos meus livros favoritos. O Jogo das Contas de Vidro, do Hermann Hesse, e A Maleta do Meu Pai, do Orhan Pamuk, são dois deles. Dado esse histórico, larguei temporariamente minhas leituras em andamento para priorizar Minuano, de Tabajara Ruas.





Entrei nessa leitura depois de um jejum de pelo menos um ano e oito meses sem ler livros brasileiros. Isso porque entrei numa maratona de ler apenas livros britânicos durante meu intercâmbio em andamento. Engraçado que essa minha primeira refeição brasileira depois de tanto tempo veio ser logo uma recheada de elementos regionais. Foi um excelente contraste: dos livros britânicos de escrita sutil, adornada, que se refere de forma indireta aos sentimentos, que vêm em capas de arte delicada e rebuscada, fui direto para um livro de capa lisa, de um vermelho que representa ao mesmo tempo o sangue e o fogo da história, narrada com franqueza direta, com palavras brutas e frases curtas. Foi pra matar a saudade mesmo desse tipo de literatura do Rio Grande do Sul. 

Minuano é um livro bem curto. É preciso cuidado para falar dele sem estragar a leitura de quem vai encará-lo. Mas vamos lá: a história é contada por um jovem cavalo, o Minuano. Ele ouve e entende o português dos humanos que o rodeiam, embora não seja capaz de falar. De alguma forma mágica porém, que felizmente não se tenta esclarecer, o cavalo escreve esse livro, em que conta a história de seu amadurecimento durante os anos em que viveu entre rebeldes que lutaram na Revolução Farroupilha. Seu vocabulário é o do gaúcho tradicionalista, que faz com que nós, os demais brasileiros, recorramos a um dicionário regional se quisermos aproveitar bem a leitura. Aliás, o próprio computador em que escrevo não reconhece algumas das palavras do Minuano. 

Quem quer que tenha inventado essa ideia de pátria, de orgulho nacional, fez um serviço bem feito, penso eu. Digo porque tenho desprezo por esses conceitos já faz um bom tempo. Ainda assim, é difícil evitar ser contagiado pelos elementos de identidade regional do livro, pelo linguajar que tenta ser único de um local, pelo estilo bravo, simples e bruto que se atribui ao mítico gaúcho. 

Mas esta obra é das boas. Foi um prazer ver o regionalismo e a temeridade serem temperados com a sabedoria dos velhos. Se em certos momentos o cavalo e outros personagens nos incendeiam com gestos de coragem e ousadia, eles também logo nos lembram que essas costumam andar muito perto da estupidez, e nos deixam com aquela vergonha por termos sido tomados tão rapidamente por patriotadas. 

Também gostei muito do estilo. As falas dos personagens não começam com aspas, nem com travessão, nem com qualquer marcação. Mas sabe-se com clareza quando estão falando porque o jeito da escrita muda. Se não é necessariamente um recurso original, é pelo menos pouco usual e muito bem utilizado.

Para minha surpresa, vi em alguns sites que esse livro está classificado como literatura infanto juvenil. Pensando sobre isso, percebo que uma criança pode aproveitar parte do livro e tirar lições. Mas eu arriscaria dizer que aproveita bem mais esse livro quem já tem alguns anos nas costas.

Por fim, não se pode deixar de falar do verso do livro, que também tem uma bela arte.





Trechos:


Foi a dona da estância quem me botou o nome de Minuano, porque no dia que eu nasci, batia um vento de vergar araucária, e esse vento vinha de longe, das terras geladas da Patagônia.


Meu pai era o cavalo mais veloz de toda a região dos Campos de Cima da Serra, onde ficava a estância que a gente morava. Eu conto isso não para me vangloriar dos feitos do meu pai, que era um tordilho negro discreto e digno, mas porque foi no domingo em que ele ganhou cinco carreiras seguidas, um domingo de carreira, churrasco e baile lá na fazenda.


Confesso que hoje me envergonho um pouco dessas soberbas da juventude, mas a verdade é que, quando fomos embora, atravessei o pátio do bolicho em um trote milongueiro, como se fosse um andaluz de narinas infladas, a cola dando laçaços. E trocando as orelhas.

A rainha rezou na língua dela e pediu aos orixás pela alma do guerreiro branco. Há muito eu já sabia que os seres humanos inventam fórmulas e conceitos para se proteger e consolar, mas já percebi também que, de modo geral, a natureza é indiferente a essas especulações.

13 comentários:

  1. Li este livro por indicação sua. Uma das melhores leitura que fiz. Todos deveriam conhecer este nobre cavalinho :-)

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  2. esse é o livro qual irei fazer uma redação no final deste ano, espero muito aproveitar a leitura (\^^/)

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    Respostas
    1. Parece que você está prestes a fazer a prova de seleção do Liberato não é mesmo? kkkkkkkk

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    2. Parece que todo mundo veio aqui pelo mesmo propósito, não é mesmo? kkkkkjj

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    3. Eu tbm hashaushaushu, muita gente indo fazer a mesma prova...

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    4. Mds quanta gente, eu também vou

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  3. Gente, eu sou do Liberato. Foge enquanto dá tempo. Bjs

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