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domingo, 14 de junho de 2015

A Vida Que Podemos Salvar - Peter Singer

Em 2013 resolvi participar pela primeira vez do ciclo de palestras Fronteiras do Pensamento, em Porto Alegre.

A primeira palestra, chamada ''O que é religião'', de Karen Armstrong, não foi promissora. Logo na introdução, ela argumentou que não é possível definir religião, e que só se pode saber o que é religião pela experiência. Senti o meu dinheiro indo pelo ralo. Se a religião não pode ser definida, porque raios escolheram logo esse nome para a palestra? E se não pode ser definida, apenas experimentada, como é que alguém pode saber que está experimentando religião, e não croquete, por exemplo?

A segunda palestra foi dada pelo Fernando Gabeira junto com a Marina Silva. Não foi ruim. Mas, de novo, não valia o caminhão de dinheiro que cobram pelo ciclo de palestras. O conteúdo foi ao mesmo tempo de ataque ao governo, e de fuga de assuntos espinhosos que eu gostaria de ver endereçados em um evento que leva ''pensamento'' no nome.

Depois disso não me recordo da ordem em que as demais palestras aconteceram. Mas lembro que a palestra do Peter Singer foi um dia significativo na minha vida. Alguma vez antes eu vira alguém ferindo tanta gente na alma em pouco mais de uma hora? Acho que não.

Peter Singer levou os presentes a pensar no que fariam se soubessem de uma tragédia que acabou de cair sobre a cidade, e que há dezenas de milhares de pessoas esperando socorro em um espaço do tamanho de um estádio de futebol. Enviaríamos alguma forma de ajuda? Água, comida, dinheiro, trabalho voluntário? Provavelmente sim.

Sendo assim, por que então não enviamos socorro para algumas das milhões de pessoas que sofrem e morrem todos os anos em decorrência da pobreza e doenças facilmente tratáveis? O que há de diferente entre um estádio de futebol cheio de pessoas sofrendo na nossa cidade, e o mesmo número de pessoas sofrendo espalhadas pelo planeta?

Talvez não doamos nada porque temos medo de que nosso dinheiro vá parar em mãos erradas se tentarmos transferi-lo a quem precisa, ou de que seja desperdiçado em estruturas administrativas inefetivas de organizações de caridade. Mas na palestra, e no livro ''A Vida Que Podemos Salvar'', Peter Singer elimina esse problema: ele nos mostra organizações que monitoram o trabalho de outras organizações de caridade, de forma que podemos facilmente identificar aquelas que farão um ótimo uso do dinheiro doado. A pessoa com um pouco de tempo e dinheiro de sobra pode ter segurança de que sua doação chegará ao devido destino.

Será que deixamos de doar porque temos medo que nos falte dinheiro em algum momento da vida? Peter Singer nos lembra - porque todos sabemos disso, só precisamos ser lembrados - que há vários gastos que podemos cortar no nosso dia-a-dia. É verdade que podemos gostar de um cafezinho ou um sorvete na rua aqui e ali. Mas e se o dinheiro do cafezinho fosse redirecionado, por exemplo, para salvar uma vida, ou para fazer uma pessoa voltar a enxergar. Não seria mais justo? Não seria a coisa correta a se fazer?

Pode ser que não nos esforcemos para ajudar os necessitados porque achamos que essa é uma obrigação dos ricos. Mas o fato é que há ricos e não ricos doando frações importantes do seu patrimônio para melhorar o bem-estar alheio.

Resumindo: há muita gente sofrendo no mundo. É possível ajudá-las reduzindo gastos supérfluos. Há um grande número de organizações que só precisam de um pouco do nosso dinheiro para fazer uma grande diferença. É fácil certificar-se de que nossas doações vão para onde devem ir. E há ricos e não ricos fazendo sua parte. O que justificaria não fazermos a nossa também?

Em um bate-papo na livraria Blackwell's, em Oxford, em 6 de junho deste ano, Peter Singer disse que doa 25% de sua renda para o bem alheio. Parece engajar-se em causas altruístas, apresenta-se com roupas simples, e monitora seus hábitos - alimentares, por exemplo - de forma a reduzir seu impacto negativo no mundo. Parece viver em coerência com suas ideias.

Mas e se isso for só aparência? Se for um hipócrita? Se fizer tudo diferente do que diz?

Não acho que seja o caso. Mas, ainda que fosse, seus argumentos estariam intactos e esmagadores. É muito difícil encontrar falhas na sua lógica.

Recomendo radicalmente esta leitura, que vai muito bem com outro de seus livros, The Most Good You Can Do. Lendo um logo após o outro, fiquei com a impressão de que formam uma só peça.

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