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sábado, 6 de junho de 2015

Anais Nin - Henry and June

Esbarrando com o livro

Um propósito ainda não declarado deste blog é o de registrar memórias. Gravar minhas leituras, para daqui muitos anos ler estes posts, lembrar-me delas e reviver os sentimentos que provocaram. 

Por isso gosto de contar como descobri certos livros e narrar curtos episódios da minha vivência aqui na Inglaterra. Então, antes de falar do livro, quero falar brevemente desse dia em que tive tempo livre em um sábado e viajei para Londres. 

Eu estava numa rua em que ia parar com frequência. Convidavam-me uma vista para o Big Ben atrás de um parque; o restaurante japonês Shoryu Ramen, que tem uma das poucas comidas de que vou sentir saudades quando voltar para o Brasil; a livraria mais antiga de Londres, e a proximidade da maior livraria do mundo.

Entrei na Waterstones Piccadilly para solicitar o reembolso de uma cobrança duplicada pelo livro Jane Eyre. Entre um procedimento e outro na livraria, fui pego por uma mesa com livros classificados como do tipo "para provocar pensamentos." Uma explicação acompanhava o título: "livros pioneiros, que propuseram uma nova forma de agir" ou algo parecido. O Henry and June estava lá.

A proposta da classificação contrastava com minhas leituras recentes à época. Fazia vários meses que eu vinha lendo quase unicamente clássicos ingleses. Era prazeroso e instrutivo, mas eu já estava ficando entediado com valores velhos, convenções tediosas, condições sociais em extinção, e dramas com que dificilmente o leitor contemporâneo consegue relacionar sua própria experiência.

A classificação, a capa bonita, e uma breve introdução ao livro, explicando tratar-se de uma história de escritores... foi uma combinação forte demais para resistir. Comprei-o.



O livro

Henry and June se apresenta como um diário. Se é mesmo uma narração de fatos, ou se contém elementos de fantasia, talvez não seja possível saber. Partamos da premissa de que o livro é de fato o que parece ser: um registro do cotidiano de Anais Nin, uma coleção de seus pensamentos e sentimentos em cadernos.

Neste caso, é um livro muito bom. Um passeio pelas mentes de pessoas com excesso mental, para usar um termo de "Admirável Mundo Novo."

As primeiras páginas são sobre Anais e seu marido Hugo algo agoniados, depois de um certo tempo de casamento estável. Sentem curiosidade e fome por outros corpos e relacionamentos. Até consideram conceder um ao outro algumas liberdades temporárias. Pensam em viajar separados, em experimentar, mas a ideia não vinga. Um dos motivos pode ser o ciúme. Mas Anais fala também da possibilidade de que a exploração os leve ao vício.

Com os desejos postos de molho, Hugo vive uma rotina de trabalho em banco. Anais, escritora, vive entre seus projetos de livros, o diário que lemos, e visitas a psicanalistas. Sem mistério ou cerimônia, Anais menciona como uma dessas visitas envolveu alguns minutos de sexo, e continua suas narrativas do quotidiano. Lendo isso surpreso, fiquei sem entender se era a primeira vez que aquilo acontecia, ou se era sua rotina. De uma forma ou de outra, qual a implicação daquele ocorrido para o que parecia cumplicidade entre ela e Hugo nas primeiras páginas do diário? Parecia que marido e mulher avaliavam juntos que tipo de vazão dar às vontades, e de repente Anais sugere nunca ter sentido que devia satisfação a quem quer que fosse.

Conforme voam as páginas, vai parecendo que Anais mantinha uma rotina que seu marido desconhecia. E ela sugere que não precisava tomar muito cuidado para manter esse estado de coisas. Ela escreve o diário com frequência ao lado de Hugo, depois deixa o diário jogado pela casa, mas ele não é lido. Dá a entender que Hugo sabe o que se passa, que no diário há registro de adultérios, mas que ele escolhe não saber.

Protegida por esse acordo tácito, Anais inicia um relacionamento com June, companheira do escritor Henry Miller. Mais uma vez, ela escreve sobre a novidade sem cerimônias. Sem considerações ou reflexões sobre o que se pensava à época sobre bissexualismo, ou que julgamentos e dificuldades ela poderia sofrer se fosse descoberto que ela se relacionava com uma mulher. O diário publicado está livre dessas questões. Anais narra seu namoro com June com naturalidade. Fala de sentimentos fortes, mas para o fato de que ambas são mulheres ela oferece a devida indiferença.

Esse delicioso descaso com convenções é mantido quando June deixa o país, e Anais se envolve então com o próprio escritor Henry Miller. Os detalhes do envolvimento ela distribui de forma diluída entre muitas páginas. E diz que seu amor é tal que ela quer presentear Henry com mulheres.

E se o livro na verdade for um diário ficcional? Neste caso, ainda assim, é uma excelente leitura. Um pouco de ar fresco para ajudar as pessoas a respirar enquanto contribuem direta ou indiretamente para a existência, propagação e reforço de julgamentos não necessariamente lógicos.

Se eu tivesse que opinar com base na leitura, diria que pelo menos parte do diário é ficcional, ou que se é de fato um diário, recebeu um belo acabamento. As entradas me parecem grandes, claras e trabalhadas demais para ser legítimas.

Por fim, uma questão que eu levantaria: será que Hugo (pessoa ou personagem) realmente escolhia não tomar conhecimento dos óbvios adultérios de Anais? Ou essa foi uma ilusão criada e alimentada pela própria Anais (pessoa ou personagem) para conviver melhor com a culpa?

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Agora um pouco de intertextualidade. Entrei em um debate sobre alguns aspectos do livro com um outro blogueiro. Segue o link.

http://www.linguist-in-waiting.com/2012/01/book-review-henry-and-june-by-anais-nin.html

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