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sábado, 24 de dezembro de 2016

Regular and orderly in your life

Violets For Perfume
Henry Herbert La Thangue

Be regular and orderly in your life, so that you may be violent and original in your work. 

Gustave Flaubert

sábado, 3 de dezembro de 2016

Damon Hill - Watching The Wheels



As autobiografias

As autobiografias se apresentam como obras de não-ficção. Deveriam? Por que alguém escreveria um livro sobre suas verdades?

Nesta, algumas contradições aparentes me geraram desconfiança. Fui lembrado da bobagem que é advogar em causa própria. Quão inutilmente tentamos disfarçar nossas razões e desejos!

Acho que é isso o que torna a autobiografia um gênero interessante: o autor faz um esforço para esconder, e assim revela tudo. Oferece uma bela versão de sua vida, que nos permite inferir como deve ter sido sua vida real.

Mas esse post não tentará expor Damon Hill ou chamar atenção para os trechos do livro que me parecem improváveis. Pelo pouco que eu sabia sobre Damon até essa biografia cair nas minhas mãos, já gostava dele. E nessa obra transborda um ser humano que anseia por respeito, reconhecimento e aprovação. Como não simpatizar? Queremos que as histórias de nossas vidas justifiquem que ganhemos um pouco disso.

Para os fins deste post, vou fazer aquilo que não se deve fazer: acreditar. Vou partir do princípio de que é tudo verdade, embora eu duvide.


A história de Damon

A história do Damon é como a de um ninguém. Um que, como tantos humanos, complica sua já difícil tarefa de existir dedicando-se a um sonho tolo e perigoso: ganhar corridas de motocicletas.

Damon persegue seu objetivo sem a orientação de um tutor, condições propícias, conhecimento ou dinheiro. Seu pai, Graham Hill, um bi-campeão e depois dono de equipe, lhe daria tudo isso, se não houvesse morrido pilotando o próprio avião quando Damon ainda era um garoto. Para a família, ficaram as dívidas da equipe de F1 recém estabelecida e processos judiciais. Para piorar, os seguros de vida não funcionaram, porque Graham estava com a licença vencida quando seu avião caiu.

Um futuro sofrido parecia se desenhar. Damon nunca se interessara pelos estudos. Tolerava a escola. Quando saiu, desejou nunca mais pisar em uma. Tinha paixão por motocicletas, que satisfazia participando de corridas amadoras e gastando dinheiro que não tinha. Mas só perdia. Caminhou para os trinta anos de idade com uma consciência triste e madura de que nunca seria campeão de nada. Para se sustentar e para estar próximo dos motores, trabalhava de motoboy.

E de tanto praticar aos finais de semana nas competições das redondezas de sua cidade, contra pilotos cada vez mais novos do que ele, começou a ganhar algumas corridas. Sua insistência no esporte arriscado deixava sua mãe cada vez mais preocupada. Talvez por saber que não conseguiria fazer Damon abandonar a velocidade, tentou pelo menos convencê-lo a entrar em algo um pouco menos mortal: ao invés de motos, carros.

Com a ajuda de um velho amigo da família, Damon entrou com cara e jeitão de veterano em uma corrida de monopostos, para enfrentar gente mais jovem e experiente. Enquanto os guris voavam na pista, ele, o mais velho, rodava, lerdeava e batia, convencendo a imprensa local de que o filho do Graham Hill era ruim ao volante.

Mas havia patrocinadores dispostos a pagar para estampar o macacão e o carro do filho do bi-campeão. Pelo dinheiro que entrava para pagar a hipoteca e sustentar a família, aceitou conviver com as frequentes derrotas e humilhações nas pistas. Os erros mais crassos na direção ele não precisava repetir. Rodadas e batidas foram diminuindo. Até ganhar corrida ele ganhou. E até subir de categoria ele subiu. Aprendeu a dirigir carros mais velozes. E por saber pilotar máquinas assustadoras e por precisar de dinheiro, aceitou um emprego de piloto de testes da Williams, para ficar dando voltas o dia inteiro com o carro enquanto os mecânicos capturavam dados para desenvolver o equipamento utilizado pelos pilotos titulares.

A primeira volta numa Williams foi como seus usuais fracassos: ajustou errado os botões na saída da garagem e fez o equipamento de dezenas de milhares de libras queimar. A segunda tentativa foi menos infeliz. Damon se sentiu maravilhado com o carro tão rápido e equilibrado. Os técnicos perguntaram o que ele havia achado, e ele respondeu que era incrível. Mas não era isso o que eles queriam ouvir. Queriam informações sobre de que forma o carro poderia ser melhorado.

O trabalho de passar o final de semana todo dirigindo em círculos e esgotando suas forças era para que a equipe aprimorasse o carro mais superior dos anos noventa. Aqueles testes um tanto secretos resultariam na Williams que Ayrton Senna via sumir na sua frente, e que ele chamava de ''carro do outro mundo.'' Um carro ativo, que, entre outras coisas, controlava sozinho a distância para o chão, regulando a pressão aerodinâmica, equilibrando velocidade e aderência. O piloto aproveitava um passeio tranquilo enquanto disparava feito um foguete na frente dos melhores corredores.

Mas Damon Hill não podia correr com aquele carro. Só podia testá-lo para que fosse melhorado para seus colegas. Em 1992, Damon Hill conseguiu uma vaga de piloto titular na Brabham, equipe próxima de fechar as portas e dona de um dos carros mais lentos da época. Tão lento que, aos sábados, fazia tempos tão ruins que era proibido de correr no dia seguinte. E quando milagrosamente conseguia se classificar para correr no domingo, Damon virava retardatário e tomava várias voltas do Nigel Mansell, que dirigia o carro que ele conhecia tão bem.

Nigel Mansell e Damon Hill


Última opção de segundo piloto - 1993

Mansell foi campeão naquele ano. Depois abandonou a equipe repentinamente, por se sentir ofendido com as negociações que aconteciam pelas suas costas entre sua equipe, Alain Prost e Ayrton Senna. Pega de surpresa, a Williams precisou contratar alguém às pressas para o lugar de Nigel, e que aceitasse ser um piloto número dois, para apenas apoiar o piloto principal, Prost. Damon Hill lembrou o time de que ele sabia pilotar aquele carro. Por falta de alternativas, Damon acabou contratado para ser sempre segundo. E ficou muito feliz. O salário era baixo, mas era o maior dinheiro que poderia ganhar.

Em sua primeira corrida pela Williams, como de costume, deu tudo errado. Dirigindo o carro mais fácil de controlar que já existira, Damon perdeu o controle, rodou e abandonou a corrida. Do lado de fora da pista, ficou assistindo a tudo deprimido, sendo fotografado desmoralizado para o deleite dos jornais.

Na corrida seguinte, ficou com medo de bater de novo e deixou Senna passá-lo facilmente em Donnington Park. Arrepende-se até hoje. Mas pelo menos terminou a corrida. Corrida tão marcante que rendeu até um museu, diga-se de passagem. Foi um passo adiante.




Damon diminuiu a taxa de erros ao longo do ano. Até que ganhou uma, duas, três corridas. Teve a honra de ter Alain Prost pedindo que não lhe ultrapassasse, e de ser reprimido por Ayrton Senna por ousadia nas manobras.

No fim do ano, a história se repetiu. A Williams queria o Senna na equipe, coisa que o Alain Prost não aceitaria. Alain foi convencido a deixar a equipe para fazer lugar, e uma vaga de segundo piloto para mais um ano sobrou para o Damon.

Damon e Ayrton viraram colegas. Admirar Senna não é difícil, mas Damon vai além. Chama-o de ''mestre''. Descreve seus gestos com reverência. Narra suas falas e atitudes como impossíveis de se replicar. Conta que os mecânicos e demais colegas da Williams não falavam com ele, porque eram assombrados pela sua presença. Ficavam retraídos diante da sua celebridade e seriedade.




Mesmo assim, Damon defende que a morte de Senna em Ímola não foi causada por falha de equipamento. Em um capítulo sobre o assunto, Damon sugere que Senna perdeu o controle do carro por ter arriscado demais. Na Curva Tamburello havia elevações no asfalto, e Damon desviava delas, perdendo um pouco de tempo. Se passasse sobre elas, concluiria a curva mais rapidamente, mas correria o risco de o carro pular, cair, encostar o assoalho no chão, perder pressão aerodinâmica e escapar para o lado, terminando naquele muro assassino. Já Senna, de acordo com Damon, havia partido para o tudo ou nada, e passava pelas irregularidades do asfalto para ganhar vantagem. Pelas imagens da corrida, Damon interpreta que aconteceu com Senna exatamente o que ele tentava evitar ao desviar das elevações.


Última opção de primeiro piloto - 1994

Depois daquele fim de semana trágico, a Williams precisou promover a primeiro piloto aquele que não pretendia escolher nem para segundo: Damon Hill.

Damon ganhou corridas naquele ano de 1994, mas expressa que sentia que a equipe nunca levou fé nele, nem deu a ele a atenção que um candidato ao campeonato precisaria para vencer. Além disso, pipocavam sugestões de que a Benetton, equipe de Michael Schumacher, era movida à trapassa. O motor fazia um som estranho que sugeria que poderia ter controle tração. A mangueira que abastecia o carro com gasolina violava o filtro para fazer uma parada de boxes mais rápida. O carro arrancava com velocidade na volta de apresentação, o que levou a suspeitas de que tinha um sistema de largada automático. E o contato com o chão era impedido por uma barra proibida.

Não bastasse, depois de bater no último grande prêmio do campeonato, Schumacher jogou o carro para cima de Damon para eliminá-lo da corrida e ganhar o campeonato por um ponto. Narrada assim, a temporada de 1994 tem um campeão de fato: Damon Hill. Mas no papel ainda consta Schumacher.


Última opção de primeiro piloto - 1995

Damon Hill descreve esse seu ano na Formula 1 como vergonhoso. Bateu e rodou mais do que o aceitável. Em uma das últimas reuniões de equipe do ano, entrou na sala envergonhado, com vontade de chorar, e sentindo necessidade de aprovação paterna dos seus chefes.

Mas seu emprego estava seguro. O contrato para 1996 fora assinado durante o campeonato, quando ele ainda não tinha cometido tantos erros.


Um ano com um carro confortável - 1996

Damon diz que o carro de 1996 fora desenhado para ele, era muito equilibrado e o deixava confortável. Schumacher estava fora da disputa, com uma Ferrari que apresentava muitos problemas. Damon disse que foi fácil ganhar aquele campeonato, apesar da pressão de ter um companheiro de equipe bem mais jovem e quase tão rápido quanto ele, que nas pistas ameaçou humilhá-lo, roubando seu título na estreia.

Numa das últimas corridas no ano, a que lhe rendeu o campeonato, Damon percorreu a volta de encerramento já com nostalgia, despedindo-se com carinho do carro, pois seu contrato não fora renovado. Para a equipe, talvez ele fosse um campeão circunstancial.


Os três últimos anos na Formula 1

Damon correu pela Arrows, um carro não competitivo, em 1997. Liderou uma corrida e quase venceu, até o equipamento quebrar.Em 1998, Damon correu pela Jordan, e deu à equipe sua primeira vitória, na Bélgica. Dois anos que talvez comprovem ao olhar atento que Damon era um grande piloto.

Então veio 1999, quando Damon se sentiu muito mais lento que seu companheiro de equipe, Heinz-Harald Frentzen, ficou mentalmente desestabilizado, passou a sentir muito medo de morrer jovem como seu pai e teve ataques de pânico. Tentou assinar uma saída antecipada da categoria, mas não conseguiu o que queria nas negociações. Participou das últimas corridas temeroso, desejando que terminassem rápido.


Fim de carreira

Fora das pistas, Damon teve depressão. Fez terapia para aprender a lidar com incertezas e inseguranças que, afirma, são resultado da bagunça que seus pais fizeram em sua cabeça quando era criança.

Damon aproveita a aposentadoria para ler livros sobre filosofia e religião e aproveitar a família. Usou o tempo livre também para se formar em literatura pela Open University.

Aqui, abro parênteses para invejar saudável e abertamente: eu também queria ter convivido com o Ayrton Senna, com o Alain Prost, ter estado nas pistas de Formula 1 nos anos em que os carros estiveram mais bonitos, ter enriquecido, ter me aposentado cedo, ter estudado literatura e ter os dias inteiros para ler filosofia.




Essa autobiografia permite ao leitor sentir uma aproximação improvável com um ambiente tão exclusivo. Uma competição para a qual as pessoas começam a treinar com quatro anos de idade, mas para a qual ele só começou a se dedicar perto dos trinta. Uma categoria em que se precisa entrar com muito dinheiro, e ele precisou entrar sem. Um campeonato em que, para se vencer, é importante ser o favorito da equipe, mas onde ele era o preterido. Uma luta em que é preciso estar com a mente boa, e a sua estava perturbada. Uma batalha em que é preciso ser confiante, e onde ele vivia inseguro.

Ainda assim, tornou-se um campeão, emocionando Murray Walker durante uma narração história, enquanto Damon Hill vencia a corrida que empacotava o ano:

Isso é algo que muitas pessoas pensaram que não seria possível de acontecer hoje - eles acharam que Damon correria uma corrida cuidadosa, mas ele lutou. Ele lutou de segundo lugar no grid, ultrapassou Jacques Villeneuve, tomou a liderança, manteve-a, e Damon Hill sai da chicane e vence o Grande Prêmio do Japão. E eu preciso parar, porque estou com um nó na garganta.

Para concluir

Se essa biografia é sincera, completa e precisa, o Damon Hill é um grande gente boa. Do contrário, é um dos meus personagens preferidos da ficção.

O livro é cheio do maravilhoso humor britânico, auto-depreciação, e descrições vívidas de vivências e sentimentos de família.

Leitura prazerosíssima sobre uma vida extraordinária.


Outras revisões

Endossada!

https://www.theguardian.com/sport/blog/2016/sep/02/damon-hill-depression-graham-autobiography-formula-one

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Paisagem pintada

Marine Landscape (The Cape And Dunes Of Saint-Quentin) - Jules Dupre
... lemos romances de aventura, novelas de cavalaria, romances baratos (histórias de detetive, de amor, de espionagem e por aí afora) para ver o que acontece na sequência; mas lemos o romance moderno (o que hoje chamamos de "romance literário¨) por sua atmosfera. De acordo com Ortega y Gasset, o romance de atmosfera é algo mais valioso. É como uma "paisagem pintada" e contém bem pouca narrativa.
Pensamentos de José Ortega y Gasset, tirados de "O romancista ingênuo e o sentimental", de Orhan Pamuk.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Ter Prazer Com Um Romance

Ter prazer com um romance é desfrutar o ato de partir de palavras e transformar essas coisas em imagens mentais.
Chinesischer Maler des 11. Jahrhunderts (I) - Buddhistischer Tempel in den Bergen

Orhan Pamuk

domingo, 16 de outubro de 2016

A Vegetariana - Han Kang


Alerta aos visitantes do blog

Este post está cheio de spoilers, de cabo a rabo. O propósito aqui é explorar os temas do livro, junto de quem ou já leu o livro, ou não pretende lê-lo, ou pretende lê-lo mas não se importa de perder as surpresas.


Sobre o que é o livro

Ao remover a carne de sua dieta, uma mulher causa um terremoto nas vidas do marido, pai, mãe, irmã, cunhado e sobrinho.

Qual é o sentido, ou o tema que permeia a obra? Não sei dizer se há um. Essa é uma característica das boas histórias. São como a vida: podem ter um sentido ou não. Mas há temas perturbadores e importantes de sobra esparramados e explorados com coragem.


Sobre o título

Considerando que a personagem de que fala o título do livro passa a evitar carne, ovos, leite, couro e todo e qualquer produto de origem animal, trata-se tecnicamente de uma vegana. Fiquei pensando sobre a razão de o livro se chamar "A Vegetariana."

Minha suspeita foi se formando na leitura da primeira das três partes do livro, que é narrada pelo Sr. Cheong, um marido insensível, um verdadeiro bruto. Sem nunca fazer esforço para entender as razões que levaram a esposa Yeong-hye a jogar fora praticamente tudo o que tinha na geladeira, ele passa a chamá-la de vegetariana, dedicando à pessoa todo o desprezo que também possui pela palavra. Nisso ele é acompanhado pelos colegas de trabalho e pelos familiares, que não presumem que uma vegetariana/vegana merece qualquer gota de respeito.

Lá para o final da história, Yeong-hye também deixa de comer vegetais. Um hospital a classifica como um caso de anorexia, e presume que a paciente tem uma visão distorcida de si, enxergando-se gorda.

Nem ocorre a Yeong-hye se classificar entre vegetariana, vegana ou anoréxica. Sua repulsa à carne é declarada depois que um pesadelo que envolve carne e sangue começa a se repetir. Mas o que parecia ser uma natural e ética rejeição ao sofrimento animal evolui para uma série de comportamentos difíceis de compreender, e que culminam com Yeong-hye acreditando ser uma árvore. Por esse motivo, já em um hospital psiquiátrico, fica de ponta cabeça e tenta absorver água do chão com as mãos, de onde pensa que estão nascendo raízes. 

Minha interpretação é a de que o título é aquilo que permeia a obra: um equívoco. A família, os conhecidos e a própria Yeong-hye se equivocam sobre o que ela é, e sofrem as sérias consequências desse engano.


Sobre a história

Parte 1 - The Vegetarian

Mr. Cheong é um homem de ambições e desejos moderados. Escolheu um emprego em que consegue ganhar mais ou menos, e em que precisa se dedicar mais ou menos. A mesma lógica ele aplicou quando decidiu se casar com Yeong-hye:

However, if there wasn't any special attraction, nor did any particular drawbacks present themselves, and therefore there was no reason for the two of us not to get married.

A união não trouxe grandes alegrias ou tristezas. Yeong-hye passava a maior parte de seu tempo lendo, e cozinhava refeições que muito satisfaziam Mr. Cheong. Depois de alguns anos, quando Mr. Cheong começava a imaginar se teria um filho, Yeong-hye o surpreende com comportamentos que ele não compreende.

Depois de sonhar com carne e sangue contaminando seu corpo, Yeong-hye acorda de madrugada e joga fora toda a carne que tinha dentro da geladeira e do congelador. Ação que me pareceu natural: Yeong-hye gostava de ler. Imaginei que pela leitura ela esbarrara em um dos inescapáveis argumentos contra o consumo de carne, e conseguira eliminá-la de sua dieta. É difícil fugir da ideia de que consumir carne não é ético. E Yeong-hye sugeria perspicácia ao discutir com o marido, que reclamou de não ter mais carne em casa.

Well, after all, you usually only eat breafast at home. And I suppose you often have meat with your lunch and dinner, so... it's not as if you'll die if you go without meat just for one meal."

Yeong-hye também joga fora os ovos, o leite e o couro que encontra no lar. Depois passa a rejeitar o marido, que ela diz carregar o cheiro de carne no suor. No trecho abaixo, Mr. Cheong dá o tom da relação com a esposa antes e depois da nova dieta.

But what troubled me more was that she now seemed to be actively avoiding sex. In the past, she'd generally been willing to comply with my physical demands and there'd even been the occasional time when she'd been the one to make the first move. But now, although she didn't make a fuss about it, if my hand so much as brushed her shoulder she would calmly move away.

Quando Yeong-hye sai para jantar com o marido e seus colegas de trabalho, é agredida. Os presentes criticam abertamente sua escolha e dizem ser desagradável estar perto de uma vegetariana. Em uma reunião de família, o ataque é ainda pior. O pai a xinga, faz ridículo da sua alimentação, bate nela e enfia-lhe um pedaço de porco goela abaixo.

O que eu imaginava que viria na sequência seria o contra-ataque: Yeong-hye usando sua lógica para fazer sua escolha se impor como a atitude mais correta. Mas a história toma outro rumo.

Os sonhos que atormentavam Yeong-hye quando ela comia carne continuam. Ela não consegue mais dormir. A falta do sono fica aparente no seu rosto e na sua constituição. Ela fala cada vez menos, e perde o interesse em todas as coisas. Corta um pulso. Fica nua em lugares públicos e tenta se alimentar do sol.

Eu, leitor que pensava entender a motivação de Yeong-hye, fiquei perdido. Se ela houvesse tentado articular que o consumo de animais não se justifica, dado o imenso sofrimento que a produção de carne causa e o desperdício inerente de recursos, o livro teria me levado para águas conhecidas.

Fiquei intrigado, e assim fui até o fim do livro, sem encontrar resposta. Continuo perdido: o que aconteceu com Yeong-hye? Por que os sonhos, a insônia e o silêncio? A obra acabou, e permaneço curioso. Será que a resposta está dentro, e deixei passar?


Parte 2 - Mongolian Mark

A história deixa de ser contada em primeira pessoa por Mr. Cheong. Agora a narração é externa, mas a perspectiva é do cunhado de Yeong-hye, que é casado com In-hye, dona de loja de cosméticos e irmã de Yeong-hye.

O nome do cunhado de Yeong-hye nunca aparece. Fico imaginando se isso é uma conquista literária, um desafio vencido: escrever dezenas de páginas de uma trama, sem nunca mencionar o nome do seu pivô, e sem que isso se torne um problema para a clareza da história. Achei estimulante.

Chamemos então a personagem de Cunhado. Foi o Cunhado quem carregou Yeong-hye no colo para levá-la ao hospital e ficou com a roupa cheia do seu sangue, na noite em que ela cortou o pulso.

E o Cunhado era um artista. A história parece nos dizer que sua contribuição para a renda da família era nada ou perto de nada. Mesmo assim, sua dedicação aos seus vídeos artísticos era mais do que profissional. Virava as noites trabalhando. Por isso tinha sempre um semblante exausto. Se lhe ocorria uma ideia para produzir um vídeo, não pensava em mais nada.

Foi uma infelicidade sua esposa In-hye comentar que a irmã Yeong-hye tinha uma marca de nascença nas nádegas. O Cunhado, que já achava Yeong-hye mais atraente do que In-hye, fica obcecado pela mancha que nunca viu, e pela sua dona. Imagina como o corpo de Yeong-hye ficaria bonito se nele pintasse flores que combinassem com a mancha. Deseja filmá-lo. Quer fazer arte com ele.

Yeong-hye perde a fala. Fica internada e é medicada por meses. Depois de uma mínima melhora, começa a dizer uma coisa ou outra, e é liberada para ir para casa. Fora abandonada pelo marido, e agora a irmã lhe visita de vez em quando, para garantir que a inválida e talvez já desprovida de julgamento Yeong-hye coma alguns vegetais e frutas.

O Cunhado, porém, vê nessa condição de Yeong-hye a chance de fazer a sua arte. E quando a esposa lhe pede que visite Yeong-hye para ver se está tudo bem, a ideia lhe desperta desejos.

Como já havia feito nos hospitais, Yeong-hye continua procurando expor seu corpo nu ao sol. É assim que o Cunhado a encontra quando vai visitá-la: nua e desligada do mundo. Ele a convence sem dificuldades a permitir ter seu corpo nu pintado, a posar com um homem, e a ter relações com ele, sempre sob uma câmera filmadora ligada. Entre planejamento e execução da ''obra'', o Cunhado evita de passar tempo com a esposa e com o filho pequeno, que precisa dele. Chega tarde em casa. Mente.

A vegetariana não só não recebe o respeito e a atenção que deveriam ser seu direito. Tiram vantagem de sua insanidade.

A parte 2 do livro termina quando In-hye descobre as relações entre seu marido e sua pobre irmã, a quem resta apenas um livre-arbítrio confuso, que já não parece humano. Ao ser pego, o Cunhado conclui que já viveu bastante de qualquer forma, e que acabou de realizar um sonho. Pode morrer em paz, e tenta se matar. Filho e família nem lhe passam pela cabeça.


Parte 3 - Flaming Trees

Yeong-hye está internada em um hospital psiquiátrico. In-hye é a única a visitá-la, mas não fico convencido de que é por saudades ou carinho, mas por decência e por culpa.

In-hye se pergunta se poderia ter prevenido o enlouquecimento da irmã. Talvez se tivesse agido para que a irmã não apanhasse do pai quando era criança? Ou tivesse arrancado a faca de sua mão quando tentou se matar? Se houvesse tentando impedir o divórcio?

Yeong-hye está no seu pior momento. Não fala, e quase nunca interage. Agora pensa que é uma árvore. Fica de ponta cabeça no chão, na esperança de que nasçam raízes de suas mãos e folhas de seu corpo.

Qual é a natureza da loucura de Yeong-hye? Por que era atormentada por sonhos com carne e sangue? A ideia de que uma flor poderia nascer de dentro dela teve início quando o cunhado lhe pintou flores. Seu silêncio se intensificou depois que tentou convencer In-hye de que era uma árvore, e In-hye respondeu que plantas não falam. Parece que seleciona e absorve do ambiente ideias para se tornar cada vez mais um vegetal.

"Você realmente acha que virou uma árvore? Como uma planta poderia falar?"
 ''Você tem razão. Logo palavras e pensamentos vão todos desaparecer."

Neste capítulo, enquanto visita a irmã e reflete sobre seu estado, In-hye tem seus pensamentos expostos ao leitor. Talvez seja a personagem mais atormentada por eles. Justo In-hye, a mais prática, independente, trabalhadora e objetiva. Ela, que não hesita, que conduz um negócio desde nova, que faz as coisas acontecerem, está tomada por incertezas, e esteve mais perto do suicídio do que Yeong-hye.

In-hye percebe que se equivocou sobre seu ex-marido. Diz que sentira vontade de ajudá-lo quando o vira pela primeira vez, com uma aparência tão exausta, e agora, anos depois, percebe que não havia necessariamente carinho nessa atração. Ela se sentia cansada, por ter dependido sempre da própria energia desde pequena, e projetara seu cansaço no então namorado, com quem não tinha muitas semelhanças. Enquanto In-hye era pura praticidade, ele era todo devaneios.

Mas pelo menos uma coisa In-hye tinha em comum com o marido: no dia em que tentara se matar, não pensara muito no que seria do seu filho, que ficaria sem pai nem mãe.

Ela não consegue explicar, nem para si mesma, quão fácil foi tomar a decisão de abandonar sua criança. Era um crime, cruel e irresponsável; ela nunca conseguiria se convencer do contrário, então era também algo que ela nunca seria capaz de confessar, ou ser perdoada. A verdade era algo que ela simplesmente sentia, de uma forma horrivelmente clara.

Nas últimas páginas do livro, Yeong-hye é quase um esqueleto. Está muito próxima da morte quando médicos tentam um procedimento para nutri-la, e seu corpo reage cuspindo sangue.

Então, pela primeira vez em todo o drama, depois de Yeong-hye ter sido desprezada, debochada, brutalizada e abusada, alguém lhe dirige uma palavra mais delicada, ou tenta se aproximar de seus problemas de uma forma um pouco mais humana.

In-hye sussurra no ouvido de Yeong-hye, que está numa ambulância, sendo transportada para um segundo hospital para receber tratamento intensivo:

Eu também tenho sonhos, sabe. Sonhos... e eu poderia me deixar dissolver neles, deixar que me tomassem... mas sonhos não são tudo, são? Nós temos que acordar em algum momento, não é?

Eu gostaria de saber qual seria a reação de Yeong-hye, depois de ouvir a primeira aproximação minimamente gentil. Será que ela ignoraria o comentário como vinha ignorando tudo e todos há meses? Acho que não. Penso que finalmente reagiria. Mas o livro acaba nesse momento. Um grande final.

Se o livro permite ao leitor entender o que se passava de fato com Yeong-hye, não sei dizer. Para a minha alegria, fui a um grupo de leitura que debateu essa obra na livraria Foyles da Charing Cross, em Londres. Acho que éramos quinze ou vinte leitores. A pergunta foi feita por uma presente: qual é o significado do que se passa com Yeong-hye? O que os sonhos, depois o vegetarianismo querem dizer? É possível mesmo concluir que Yeong-hye estava louca?

Uma leitora tinha certeza que sim, estava louca. Outros - eu entre eles - nem tanto. Houve quem achasse que o comportamento todo era uma reação ao marido nojento e ao pai bruto. Embora eu concorde que esses dois homens eram monstros, entendo que ninguém na família tratava Yeong-hye com carinho. Apesar de todas as dificuldades que ela passa, ninguém lhe dirige uma palavra doce. Ninguém lhe diz: ''tenho medo de perder você. Me dói saber que você está sofrendo."

As personagens do livro só conseguem especular.

Parece que para ela bastava lidar com o que quer que fosse calmamente e sem incômodos. Ou talvez fosse que houvesse coisas acontecendo dentro dela, coisas terríveis, que ninguém conseguia nem sequer imaginar, e era portanto impossível para ela se envolver com o cotidiano.

Um leitor achou inverossímil a forma como os conhecidos e a família reagiram ao vegetarianismo de Yeong-hye. Na opinião dele, ela não seria tratada com tanto desrespeito e agressividade só por causa da dieta. "Não aqui, pelo menos", disse ele. Essa ressalva foi importante. "Aqui" é Londres, onde o número de vegetarianos é enorme, e onde a sociedade já aprendeu a respeitar em grande medida as dietas alheias. No Brasil, tenho certeza absoluta de que o vegetarianismo de Yeong-hye seria recebido com a mesma falta de tato. Vi acontecer recentemente. E eu mesmo já fui daqueles que não percebem nenhum motivo para não dar risada daquilo que me parecia uma palhaçada.

Esse é um lembrete de que há elementos dessa obra que só serão compreendidos por aqueles que moram onde foi escrita, na Coréia do Sul.


Sobre o significado da obra

A Vegetariana é uma história com pouca narrativa. O que nós lemos no livro na maior parte do tempo são pensamentos e comportamentos extraordinários. Para mim, a pergunta brotava em todas as páginas: o que está acontecendo? E por quê?

Depois da leitura, das reflexões, do debate em um grupo de leitura, e pesquisas na internet, continuo sem saber. E, repito, acho que a obra não diminui por causa disso. Trata-se de uma história que foi escrita para ser como a vida: pode ter um sentido ou não.

Ou então a autora escondeu o sentido bem e sutilmente.


Sobre o estilo


Acho que todos nós que já lemos vários livros sabemos quando o autor está tentando apresentar suas personagens. Quando pessoas aparecem pela primeira vez, tendem a surgir em páginas que já dizem a cor dos cabelos, a altura, os cacoetes e a idade.

Achei esse livro extraordinário na forma como contornou esse padrão. As descrições das personagens não acontecem na ordem em que estamos acostumados. A aparência e a psique de cada uma vão sendo reveladas de uma forma mais diluída do que a usual. É o caso, por exemplo, do Cunhado, cujos esforços de fazer um vídeo de Yeong-hye são claramente absurdos na parte dois, mas se tornam mais compreensíveis na parte três, quando In-hye reflete sobre seu ex-marido, sua obsessão por sua arte e seu hábito de trabalhar até o esgotamento para colocar em vídeo seus devaneios.

E o que dizer de o livro ter uma personagem chave e nunca nos informar seu nome?

Fica o gosto de ter lido um estilo bom, incomum, talvez novo.

Também foi com alegria que notei refletida e permeada nesse romance uma sutil ausência de superstições. Quando Yeong-hye se expõe ao sol, ela é descrita como uma humana que evoluiu para fazer fotossíntese. A expressão natural em outras épocas da história da nossa humanidade seria "como uma humana que Deus houvesse criado para absorver luz como se fosse uma planta."


Sobre o prêmio

A autora Han Kang ganhou o prêmio Man Booker International com esse livro. Foi por isso que cheguei nele. Não... na verdade, foi porque eu sabia que o livro Uma Estranheza Em Mim, do Orhan Pamuk, estava concorrendo e eu torcia para que ganhasse. Mais tarde eu soube que A Vegetariana fora a premiada, e fiquei curioso sobre quem poderia ter batido aquela obra prima.

Agora que li as duas obras, naturalmente quero tentar responder: qual dos dois livros merecia o prêmio? Vou dar uma evasiva: não sei qual é o critério nem o propósito do prêmio Man Booker International. Sem fazer o esforço para aprender, vou evitar de opinar por hora! Mas vou divagar.

Digamos que o objetivo do prêmio é facilitar o desenvolvimento e sucesso de autores. Neste caso, faz todo o sentido que o prêmio tenha ido para este livro maravilhoso que é A Vegetariana, escrito por uma autora que, ao contrário do Orhan Pamuk, ainda não tem Prêmio Nobel, nem um museu dedicado a um livro seu.

Han Kang


Se o objetivo do prêmio é coroar uma obra pela sua qualidade, eu acredito que Uma Estranheza Em Mim deveria ganhar a disputa. Acho que é uma conquista literária maior.

Mas os dois livros são maravilhosos.


Revisões do livro

Essa revisão de Laura Miller foi minha favorita. Talvez porque nossas visões sobre a obra sejam tão parecidas.

http://www.slate.com/articles/arts/books/2016/02/han_kang_s_the_vegetarian_reviewed.html

A
rule of thumb: The more avidly you want an explanation of the meaning behind a powerful and cryptic work of art—from David Lynch’sMullholland Drive to Franz Kafka’s Metamorphosis—the less satisfying and comprehensive the answer can ever be. Sometimes how a book or a film puzzles you—how it may mystify even its own creator—is the main point. The way it keeps slithering out of your grasp.

Some reviews of The Vegetarian have insisted on viewing the novel as a piece of social protest, but this seems beside the point... The Vegetarian has an eerie universality that gets under your skin and stays put irrespective of nation or gender. But exactly what its business is there, I would not presume to say.



Revisão muito boa do The Guardian.

https://www.theguardian.com/books/2015/jan/24/the-vegetarian-by-han-kang-review-family-fallout

This is Han Kang’s first novel to appear in English, and it’s a bracing, visceral, system-shocking addition to the Anglophone reader’s diet. It is sensual, provocative and violent, ripe with potent images, startling colours and disturbing questions... The Vegetarian is an extraordinary experience.

Esta revisão traz especulações interessantes que não apareceram neste post.

http://www.counterpunch.org/2016/07/22/review-han-kangs-the-vegetarian/

Whatever, Han Kang’s The Vegetarian will make you think. You cannot turn the final page of this provocative novel without asking yourself a number of questions 

Já essa revisão do Independent começa mal, erra detalhes ao descrever a história, e até troca um nome de personagem (chama de "J" um personagem que não tem nome, o Cunhado, e que na verdade era conhecido de J. )

http://www.independent.co.uk/arts-entertainment/books/reviews/the-vegetarian-by-han-kang-book-review-society-stripped-to-the-bone-9969189.html

Han Kang’s achievement is to suggest that this defiant act of vegetarianism can smash several lives and threaten the order of a society. 
A protagonista não tem um "ato de vegetarianismo." Ela é impelida por sonhos, talvez por uma condição ou patologia, a deixar de comer carne, e depois a deixar de comer qualquer coisa que fosse. E a "ordem da sociedade" não chega nem perto de ser abalada nesse livro.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

The Insane And The Melancholy - Ece Temelkuran

Ler Orhan Pamuk me fez desejar visitar Istanbul, o que fiz em 2015. A viagem e os romances têm me causado apego. Fico preocupado ao ler e ouvir sobre um conservadorismo e um governo que vêm limitando as liberdades dos turcos.

Se o que tenho lido e ouvido procede, ainda não sei dizer. Quando esbarrei nesse livro, vislumbrei uma chance de encontrar algumas respostas.


O tom do livro é de denúncia. Fala de um governo que manda demitir jornalistas, persegue opositores, ignora as leis, atropela o poder judiciário, e fomenta uma perseguição silenciosa de mulheres que não usam véu ou que vestem calças justas. Fala de um povo que está apavorado com a possibilidade de um regime totalitário.

Crianças impotentes diante de um sistema educacional tornado cada vez mais reacionário e totalitário por meio de aulas de religião...
E uma noção arrepiante de estar perto de perder a cabeça depois de ouvir as centenas de apoiadores que aparecem em nossas telas com a confiança de que tudo isso forma um quadro da ''grande Turquia'' e ''democracia avançada...''

As quase trezentas páginas do livro tentam contextualizar a história da Turquia, como a população se comportou e se sentiu em cada fase do último século, e como se chegou ao atual estado de coisas. Mas eu não aprendi muito. Fiquei bastante confuso com a escrita.

Fala-se dos anos vinte, depois avança-se para os anos 80, depois volta-se para os 40, depois vamos para 2010, depois voltamos para os 80... a autora fala de vários assuntos ao mesmo tempo, e se desculpa pelas digressões. Coloca várias palavras e frases entre aspas, e eu fiquei na dúvida se o objetivo foi ironizar, ou utilizar a expressão de outra pessoa, ou indicar que falta palavra melhor para explicar o raciocínio.

Há bastantes interpretações e pontos de vista, que relacionam várias décadas, e descrições de pensamentos que estariam na cabeça de vários grupos de pessoas, que não são claramente definidos. Fala-se muito de mudanças, marcos e significados, que são tão abstratos quanto essas próprias palavras. Fazem-se analogias difíceis de se seguir, e que não parecem ter correspondência na realidade.

With his formidably muddled mind, home and story, Mr. Turkey (I think we can all agree that he is a he) would like to show us his photo album. These are photographs of the memories and associations that have most deeply impressed and shaped him or have otherwise obsessed him, even though he cannot define them exactly. But the album is totally disorganised. Not only that, but a pile of photographs don't even fit inside it. Just as each attempt at organising a library is interrupted by a reverie as we come across a letter, a book, a journal or a note, Turkey too was interrupted each time he tried to organise his album and photographs of the past. The organised part of the album isn't even in chronological order. Why? Because ''yesterday'' doesn't stay put here. It oscillates between near and far in today's political, social and moral fights, conflicts and controversies. While a faraway memory appears fresh as a daisy, a very recent memory is treated as though it happened a million years ago. ''But that's no way to perceive time,'' you say. ''Doesn't that complicate things?'' He replies, ''It does complicate things. As it should!'' You say, ''With a yesterday at a constantly shifting distance, it must be easy to play games with people's memories.'' ''Yes,''he laughs. ''Speaking of which, let me tell you a 'symbolic' and 'ironic' story about this whole mess.''He tells the story of something that happened in April 2012... 

Apresentam-se muitos números: quantidades de feridos em ataques, de jornalistas demitidos, de cidadãos assassinados, de militantes torturados, na maior parte das vezes sem que se indique de onde veio a informação. Acusa-se o governo de manipular indiretamente números, e eu fico pensando se isso inclui os números que estão apresentados no livro.

Por esta obra, recebi bastante informação cuja confiabilidade não ficou aparente, e que não consegui ordenar em meus pensamentos. Depois da leitura, continuo entendo pouquíssimo do que pode estar se passando na linda Turquia.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

A Casa das Sete Mulheres - Letícia Wierzchowski



A vontade que tenho é de ler cada vez mais devagar.

Lê-se para sentir, e para encontrar definições para os sentimentos.

Todo mundo sabe o que é saudades, medo, ansiedade, fome, sede, sono. Mas há sentimentos para os quais não há nomes. Se há nomes, não são universalmente reconhecidos.

Qual é o nome do sentimento que permeia esse trecho?

... a vida era bela, éramos todos jovens, e o Rio Grande era uma terra rica, terra da qual nossas famílias eram senhoras. Distante de mim, tio Bento e meu pai riam e bebiam à solta, homenzarrões de vozes trovejantes, de alma larga. As mulheres ocupavam-se com seus assuntos menores, seus anseios, não reles em tamanho, pois dessa delicada fímbria feminina é que são feitas as famílias e, por conseguinte, a vida; falavam dos filhos, do calor do verão, dos partos recentes; tinham um olho posto nas conversas, os risos doces, a alegria; porém, com o outro fitavam seus homens: tudo o que lhes faltasse, de comer ou de beber, do corpo ou da alma, eram elas que proviam.

Estar em uma família grande, quando tudo está indo bem. As perspectivas são boas, as pessoas estão ocupadas e à vontade. Todos estão acompanhados, e o lugar em que estamos nos pertence.

* * *

É preciso encontrar o valor das palavras de alguma forma, agora que foram destruídas pelos noticiários que exageram tudo, todos os dias. As primeiras páginas do livro são marcantes, se conseguirmos desfazer nas nossas mentes a banalização das letras.

No dia 19 de setembro de 1835 eclode a Revolução Farroupilha no Continente de São Pedro do Rio Grande. Os revolucionários exigem a deposição imediata do presidente da província, Fernandes Braga, e uma nova política para o charque nacional.
O exército farroupilha, liderado por Bento Gonçalves da Silva, expulsa as tropas legalistas e entra na cidade de Porto Alegre no dia 21 de setembro.

Exigir. Expulsar. Se você agride, deve esperar uma resposta. E não será necessariamente você quem estará exposto.

Antes de partir à frente de seus exércitos, Bento Gonçalves manda reunir as mulheres da família numa estância à beira do Rio Camaquã, a Estância da Barra. Um lugar protegido, de difícil acesso. É lá que as sete parentas e os quatro filhos pequenos de Bento Gonçalves devem esperar o desfecho da Grande Revolução.

O que o líder do exército tem de mais precioso, escondeu e protegeu como pôde. Precisará se concentrar na guerra, enquanto a alma e o sentido de tudo ficaram numa casa.



                               A Farmhouse In a Polder - Johan Hendrik Weissenbruch

* * *

Vivemos problemas pelos quais não podemos encontrar responsáveis diretos, nem soluções claras. Um bairro que é feio, porque o orçamento foi racionado e distribuído entre várias prioridades. Um governo corrupto, que se derrubado dará lugar a uma ditadura fundamentalista. O livro nos alivia a angústia de estar diante de tantos entraves, nos transportando para momentos em que é tudo ou nada:

... devia estar pensando em Bento, no peito de Bento, desafiando as espadas, as carabinas e as adagas, conduzindo seus homens e seus sonhos.

* * *

A autora arrisca entregar parte do fim já nos primeiros capítulos. Talvez porque confie no magnetismo de sua obra.

... nenhum de nós naquela casa voltaria a ser o mesmo de antes, nem os risos nunca mais soariam tão leves e límpidos, nunca mais aquelas vozes todas reunidas na mesma sala, nunca mais.

* * *

Amyr Klink falou uma vez sobre as viagens:

Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos e simplesmente ir ver.

Acho que o mesmo é verdade sobre a literatura. Deveríamos conhecer a literatura estrangeira, e depois visitar a literatura do nosso chão, de preferência da nossa cidade ou das proximidades. Escrita pelas pessoas que viveram uma vida parecida, e que acabam entregando suas manias e preferências, que reconhecemos nos personagens, mesmo que sejam de uma ficção sobre duzentos anos atrás.

* * *

As habitantes da casa têm a oportunidade do prazer da melancolia. A guerra não lhes permite viajar para Porto Alegre, nem encontrar conhecidos. Mas também não lhes traz riscos, nem distrações. Podem ler, imaginar, viver humanidades por muito tempo. Viver mais anos do que aqueles que ali passavam. Marcados pelas estações.


                               Autumn Landscape - Johan Hendrik Weissenbruch

* * *

O que gostei de verdade nesse livro foram suas imagens e sensações, principalmente no início.

Senti falta de doses suficientes de realidade. E a realidade é importante para um adulto que lê um romance, porque o romance precisa nos iludir para funcionar. Precisa parecer real.

Os personagens que foram para a guerra se mostraram todos corajosos e valorosos. Nenhum entrava em pânico, ou hesitava, ou chorava de medo. Os guerreiros ou lutaram bravamente e passaram incólumes até seu desfecho, ou morreram como heróis gregos, ou retornaram com cicatrizes que os deixaram ainda mais belos. Ninguém voltou com danos psicológicos, ou algo além de uma seriedade que deixou seu olhar mais severo e charmoso. Ninguém voltou com o hábito de racionar comida por temer não ter o que comer mais tarde. Ninguém se viu com dificuldades de sentir alegria, porque repetidamente é perturbado por lembranças horríveis.

Os escravos e escravas das famílias das sete mulheres não parecem ter problemas com o fato de que são escravos. Não se sentem humilhados pela rudeza de seus donos. Não sentem vontade de liberdade. Não pensam sobre suas vidas e seus futuros. Não sentem saudades de ninguém. Não pensam nem sentem nada, enquanto as sete mulheres são atormentadas por pensamentos e sentimentos das primeiras às últimas páginas. Uma protagonista é atormentada por décadas pelas lembranças de um namorico de verão.

Dos estragos que a guerra necessariamente faz nas rendas, nos patrimônios e na quantidade de comida que é possível colocar nos pratos, não se fala quase nada.

Sobre a falta de realismo, é jogada uma dose de pressentimentos e ocorrências sobrenaturais, que vai despertar interesse em parte dos leitores. Não é o caso do cético que aqui comenta.


                                                  A Cow Standing By The Waterside In A Polder - Johan Hendrik Weissenbruch

Da leitura, ficarei com uma boa lembrança sensorial, que ilustrei aqui com paisagens europeias que transmitem tão bem os ares de outono dos campos do Rio Grande do Sul.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Nossa trajetória

... nossa trajetória por este mundo, a vida que levamos em cidades, ruas, casas, salas e na natureza consiste em nada mais que uma busca de um sentido secreto que pode ou não existir.
Orhan Pamuk

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Com Sabor De Terra - Alcy Cheuiche

Esse livro permite viver por algumas horas o prazer de tradições, sabores, histórias, cheiros e imagens dos campos do Rio Grande do Sul. Por isso, vale a pena.




Também se aprecia o jeito de falar que se desenvolve na região como arte viva. Aqui, é o próprio autor contando sobre como João Vargas se preparava para declamar:

Logo, várias mãos se espicharam e ele escolheu a que lhe oferecia uma guampa de cachaça. Deu uma golada, limpou a boca com as costas do braço e foi chamando para si a atenção da rapaziada barulhenta. Quando o guitarreiro tirou os primeiros acordes da milonga, o velhito segurou o pala com a mão direita e começou a declamar.

E agora, o próprio João Vargas:

Ninguém me toca por diante,
tampouco não cabresteio,
eu me empaco, me boleio,
e não saio nem com sinuelo,
tourito de outro pelo
não berra no meu rodeio.  

O livro é ainda uma coleção de histórias e citações de intelectuais do Brasil e do mundo.

Às vezes, boas leituras são um debate com o leitor. São provocações à nossa crítica. Esse livro me deu pelo menos duas.

Uma foi esse elogio a Sartre:

Para mim, Sartre brilhou em toda sua plenitude no dia em que se recusou a aceitar o Prêmio Nobel de Literatura... Sartre recusou o prêmio, com seu volumoso cheque anexo, porque não queria ser um escritor rotulado...

A pergunta que, para mim, decorre naturalmente desse elogio a Sartre é: não teria ele brilhado ainda mais se houvesse aceitado o prêmio, gentilmente pedido para não ser rotulado, talvez no tradicional e famosíssimo discurso de recebimento da honraria, e doado o cheque volumoso para a caridade ou para a pesquisa, já que podia abrir mão de tanto dinheiro? Não se trata de uma oportunidade perdida de transferir riqueza de onde sobra para onde falta?

A segunda foi a estória, que eu já ouvira algumas vezes, do executivo estereotipado que tenta convencer um descansado e tranquilo pescador a trabalhar pesado para ficar rico e poder viver descansado e tranquilo. Um conto que me parece uma versão daquela generalização aconchegante: "o rico é um imbecil triste, o pobre é um sábio feliz."

Para quem não conhece a estória ou nenhuma variação dela, aqui vai um resumo: o executivo resolve pescar para descansar. Compra equipamento caro e sofisticado, senta na frente da água, usa sua tecnologia de ponta de varas e iscas artificiais, mas não consegue fisgar nada. Então aparece um pescador humilde com uma varinha barata, iscas naturais, rapidinho pesca uns poucos peixes e começa a caminhar para casa. O executivo critica a falta de ambição do pescador, que se contenta com pouco, e não aproveita seu talento de pescador para conseguir mais peixes, vendê-los, enriquecer e então nunca precisar se estressar. O pescador não vê sentido na ideia, já que, contentando-se com os poucos peixes diários que pesca, ele já não se estressa mesmo.

Essa estória tem alguns elementos para se questionar.

1 - será que os equipamentos sofisticados de pesca realmente não pegam peixes? Se o episódio viesse a acontecer de fato, acho que o executivo se sairia bem.

2 - executivos costumam saber que conflitos geram desperdício de energia e de tempo. E executivos não gostam de desperdiçar energia e tempo. Um executivo se prestar a julgar e a criticar, a troco de nada, um companheiro de pesca recém apresentado não me parece provável.

3 - o autor da estória criou um pescador que se contenta com poucos peixes para se sustentar. Nunca convivi com eles, mas a imagem que eu tenho dos pescadores é a mesma que tenho de qualquer pessoa que dependa do seu trabalho para se alimentar, alimentar seus dependentes, morar, se deslocar, cuidar da saúde e poupar para uma aposentadoria: são gente que trabalha duro. Toda essa turma não tem escolha: é preciso trabalhar muito, o dia todo. Não para enriquecer, mas para sobreviver.

4 - os peixes que o pescador humilde pesca aos poucos todos os dias e toma por garantidos não são garantidos. Podem sumir, por exemplo, por causa da pesca predatória, ou por dano ambiental, que deixam o hipotético pescador humilde quebrado e possivelmente arrependido por não ter pescado um pouco mais e feito umas economias.

5 - no improvável cenário em que o pescador humilde consegue se manter por toda a vida com um peixe aqui e outro ali, pergunto: como ele faz para lidar com uma eventual dificuldade braba, como uma doença que só pode ser tratada gastando uma dinheirama?

6 - se o pescador humilde for acometido por um desejo de viajar o mundo, ou de viver experiências que, infelizmente, custam algum dinheiro, estará complicado se for depender de uns poucos peixes.

7 - se o pescador humilde for um ser humano como qualquer outro, pode sentir curiosidade diante das iscas artificiais e equipamento sofisticado de pesca do executivo, e pode sofrer por não possuí-los, ou por não poder matar a curiosidade de experimentá-las. Mas o pescador humilde da história parece não sentir nada diante dos curiosos objetos do executivo. É apenas o executivo quem sente um impulso incontrolável de agredir gratuitamente o pescador.

8 - se o pescador humilde resolver fazer uma doação de dinheiro para a caridade, não vai ter de onde tirar dinheiro. O executivo vai. E isso acontece com cada vez mais frequência.

Acho que a estória do executivo e do pescador não ensina muito sobre a realidade. Já o fato de essa estória ser popular nos oferece a possibilidade de refletir: como precisamos dessas estórias que nos permitem nos vingar, pelo menos nos sonhos, dos poderosos.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Um livro feito de muitos

De Alcy Cheuiche, em Com Sabor de Terra:

Um pequeno caminhão estaciona diante da casa de Erico Veríssimo na Rua Felipe de Oliveira, bairro Petrópolis, em Porto Alegre. Dentro dele estão algumas caixas com centenas de livros em português e espanhol. São as obras que o escritor escolhera para a grande aventura. Antes de iniciar aquele romance imenso, tinha que mergulhar a fundo na história do sul do Brasil.

E pensar que isso aconteceu. Ainda bem que o momento foi narrado para nós. Quem passasse na Felipe de Oliveira naquele dia e horário veria um caminhão carregado de matéria-prima para a construção de O Tempo e o Vento.

Cada livro entre as centenas, um mundo inteiro.

O Continente, um mundo. Um mundo feito de mundos.

                                           Excerpt (Riot) - Julie Mehretu

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Notícias - Manual do Usuário

Mais um ótimo livro do Alain de Botton.




O que o livro não é

Não é uma avaliação da confiabilidade dos noticiários, uma denúncia de fragilidades na verificação de fatos, ou uma exposição de parcialidades para com grupos políticos e econômicos. O livro do Alain de Botton parece ter sido escrito para povos de regiões do mundo onde os jornais já conseguem chegar mais próximo da isenção e da objetividade.


O que o livro é

A reflexão proposta é: presumindo que os jornais não mentem, o que há de errado com eles? Partindo da premissa de que não estão mentindo ou distorcendo, como podem ser melhorados?

E o que nos faz querer notícias com tanta frequência? Quais necessidades estamos tentando satisfazer quando procuramos nos jornais pelas seções de tragédias, celebridades, economia, cultura e fofoca? Não damos atenção demais aos jornais?


A influência dos noticiários sobre nós

Sociedades se tornam modernas, sugeriu o filósofo Hegel, quando o noticiário substitui a religião na sua função de fonte central de orientação e nossa noção de autoridade. Nas economias desenvolvidas, o noticiário agora ocupa uma posição de poder no mínimo tão importante quanto àquela antigamente ocupada pelas fés.
O noticiário requer que nós o aproximemos com a mesma expectativa deferente que já nutrimos pelas fés. Aqui, também, nós esperamos receber revelações, aprender o que é bom e o que é mau, compreender o sofrimento e entender a lógica da existência. E aqui também, se nos recusarmos a participar dos rituais, poderá haver acusações de heresia. 

Ao invés de irmos à missa dominical, lemos o jornal dominical. Ao invés de acreditarmos no que o padre disse que Deus disse, acreditamos no que o jornalista disse que a fonte disse.


De alguma forma, o noticiário consegue cantar uma música que soa como verdade.
 
O noticiário sabe como deixar seu funcionamento quase invisível e, portanto, difícil de questionar. Fala para nós com uma voz natural e calma, sem se referir às suposições que faz (...). O noticiário não nos informa de que não está meramente reportando sobre o mundo, mas constantemente produzindo um novo planeta em nossas mentes em linha com suas próprias e frequentemente distintas prioridades.
Nós nunca somos sistematicamente apresentados à extraordinária capacidade dos veículos de notícias de influenciar nosso senso de realidade e de moldar o estado do que podemos chamar - sem associações supernaturais - "nossas almas." 
Com toda a sua conversa sobre educação, as sociedades deixam de examinar aquele que é de longe o meio mais influente pelos quais suas populações são educadas.
Encasulados em salas de aula por apenas dezoito anos mais ou menos de nossas vidas, passamos o resto sob a tutelagem de veículos de notícias que exercem influência infinitamente maior sobre nós do que qualquer instituição acadêmica é capaz.
Como os revolucionários bem sabem, se você quer mudar a mentalidade de um país, você não vai para a galeria de arte, ao departamento de educação ou às casas dos romancistas; você leva os tanques diretamente para o centro nervoso do corpo político, o quartel general das notícias. 

Sobre o estilo e as escolhas de tema de Alain de Botton

Tenho lido livros e assistido vídeos do autor com frequência. Padrões estão ficando claros.

Um é que ele propõe tolerância esclarecida, que não se julgue com rapidez, que se tente olhar o que há de importante e bom naquilo que se costuma ver com maus olhos.

Sobre a tendenciosidade, por exemplo, diz o seguinte:
 
... deveríamos talvez ser mais generosos com o viés. Em sua forma pura, o viés simplesmente sugere um método de se avaliar eventos que é guiado por uma tese subjacente coerente sobre o funcionamento humano e florescimento. É um par de lentes que desliza sobre a realidade e procura focalizá-la melhor.

Sobre o assassino, propõe que quando olharmos para alguns detalhes de sua vida, ficaremos assustados com as semelhanças com as nossas vidas, e sobre o quão perto nós mesmos já podemos ter passado de provocar uma tragédia.

Sobre a frustração causada pelos fracassos, que pensemos sobre quantas coisas fora do nosso controle prejudicaram o atingimento do nosso objetivo. Sim, ele sugere que encontremos agentes externos que possamos culpar. Não é uma leitura para descer fácil pelas gargantas dos gurus da administração ou dos escritores de manuais de sucesso.

Também faz parte do Alain escrever parágrafos perspicazes. Este é para guardar.
 
Nas artes visuais, ter perspectiva significa uma capacidade de ver coisas diferentes em suas relações espaciais reais: o que está longe parece distante e menor, o que está perto parece próximo e maior. Foi surpreendentemente difícil para artistas aprenderem como obter perspectiva numa tela - o que sugere que a manobra pode ser igualmente desafiadora em outras áreas de nossas vidas.

E ilustra suas ideias com boa arte.


Philippe de Champaigne, Vanitas, c. 1663


Sobre o que sobra, e sobre o que falta nos jornais

O parágrafo acima certamente pode ser apreciado sozinho, mas é gancho para outros dois marcantes, conectados com o tema do livro.
 
Aplicado ao noticiário, ter perspectiva envolve uma habilidade de comparar um evento aparentemente traumático do presente com experiências da humanidade ao longo de toda a sua história - para se chegar ao nível de atenção e medo que deveria razoavelmente despertar.
Com perspectiva em mente, nós logo notamos que - contrariamente ao que os noticiários sugerem - praticamente nada é totalmente novo, poucas coisas são verdadeiramente assombrosas e bem pouco é absolutamente terrível.

E nesse ponto, vejam só, sinto vontade de adicionar um parágrafo ao livro! Seria mais ou menos assim:
 

Com perspectiva em mente, rapidamente notamos também que faltam coisas nos noticiários. Tratam de acontecimentos corriqueiros como se fossem pontos de virada da nossa história, mas talvez o que torna o jornal um problema seja o que não está lá. Sua pretensão de reunir o que é relevante, de mãos dadas com sua seletividade. Não seria importante que esse veículo onipresente nos lembrasse de tempos em tempos que o mal que infligimos aos animais pode ser o mais intenso, duradouro e volumoso sofrimento infligido na história da vida? E que o dinheiro que se gasta com água mineral para evitar um suposto mal gosto da água da torneira seria suficiente para bancar cirurgias restauradoras de visão para milhares de cegos que não podem pagar?


Sobre a pimenta nos olhos dos outros

Sob a fúria, você pode perceber uma crença de que os problemas do mundo são basicamente solúveis, que apenas não estão sendo tratados ágil e decisivamente o bastante pelo simples motivo, que cada novo dia comprova, de que nós somos governados por safados e idiotas. 
Nós perguntamos impacientes e eventualmente furiosos: por que eles simplesmente não...? 

Um reality show que eu adoraria assistir seria ver âncoras ou colunistas tendo que exercer funções governamentais. O Boris Casoy tendo que elaborar e conseguir aprovação para um orçamento nacional anual, por exemplo.

Os jornais estão dando alguma contribuição ao nos convidar a nos sentir gênios governados por estúpidos? Não há reflexões mais valiosas a serem feitas? Por exemplo: o que impede que grandes poderes e recursos resolvam nossas dificuldades do dia para a noite? Caso um grande problema fosse resolvido com a primeira solução que nos veio à cabeça, que problemas novos surgiriam?


Noticiário sobre corrupção
 
 
Mesmo se todos os plutocratas ministros poderosos fossem trancafiados, nações continuariam com um número perturbador de problemas para administrar. Nós provavelmente esqueceremos muitos assuntos de importância se continuarmos procurando por malvados do tipo que um jornalismo estilo Watergate sabe identificar.

Não há ninguém que possa ser preso pela dificuldade de se encontrar uma vizinhança minimamente atraente para se morar e que caiba no bolso. Ou pela quantidade de empregos que pagam pouco. Ou pela indiferença de chefes desagradáveis.

A prisão de um bandidão pode nos dar um período de satisfação profunda, mas a esperança que ela inspira pode ser enganosa, argumenta Botton. 
 
 
Ao mesmo tempo, isso é uma coisa desanimadora e boa de se ouvir, porque leva a um sentimento de que toda a corrupção de grande escalão que vemos não é nem a fonte dos nossos maiores problemas.

A raíz de todos os males do noticiário

Os jornais alimentam a ilusão de que dão atenção para os temas mais importantes. Que identificam os piores elementos do país e pressionam para que sejam presos. Que nos informam das ameaças mais importantes ao nosso bem estar e existência. É tudo mentira.

Por que os jornais se comportam assim?
 
 
As necessidades financeiras das companhias jornalísticas implicam que elas não têm condições de promover ideias que não agradem muito rapidamente um número enorme de pessoas. Um artista pode viver decentemente vendendo trabalhos para cinquenta clientes; um autor pode tocar a vida com 50.000 leitores, mas uma organização de notícias não consegue pagar suas contas sem ser acompanhada por uma população de uma metrópole razoavelmente grande. Que níveis de concordância, quanta supressão de idiossincrasias e estranheza conveniente serão necessários para produzir material suficientemente palatável para tanta gente... sabedoria, inteligência e sutileza tendem a não se propagar por populações em blocos de 20 milhões de pessoas.

Sobre a idolatria de celebridades

Por que idolatramos celebridades? O autor menciona duas possibilidades.

A primeira é a mais comumente aceita: o cidadão que idolatra uma celebridade não está suficientemente engajado nos próprios projetos, ou comprometido com sua vida real. Ele escolheu escapar da sua própria vida porque não sabe como levá-la. Preferiu escolher e acompanhar a vida de ídolos. Uma atitude auto-degradante e infantil, que parece passiva e inferior, uma confissão de inadequação.

A segunda é que o impulso de admirar é um elemento inerente e importante das nossas psiques. Se tentarmos combatê-lo ou ignorá-lo, não vai adiantar. Na melhor das hipóteses, podemos esconder o impulso embaixo do tapete, onde ficará livre e subdesenvolvido, esperando para se agarrar a alvos inesperados.

Essa segunda possibilidade nunca havia me ocorrido. Adoraria ouvir um expert discorrendo sobre a validade dessa afirmação. Consigo imaginar como as vontades de se vingar, de se exibir, de fugir e de descansar foram parar nos instintos e psiques dos nossos ancestrais. Mas como é que uma vontade de adorar uma celebridade foi se tornar inerente à nossa mente antes da existência das celebridades, ou dos jornais, ou da escrita?

Eis a especulação de quem nunca pisou em uma formação em biologia ou psicologia: diante de um competidor da mesma espécie que é mais rápido, mais forte ou mais inteligente, pode ter sido uma vantagem evolutiva se submeter e demonstrar reverência para:

  - evitar um combate desfavorável;

  - ser visto pelo competidor como inofensivo e então ser aceito no grupo que lidera;

  - observá-lo para tentar aprender seus truques, adquirir suas vantagens e ter mais chances de sucesso em um novo enfrentamento, seja contra o mesmo oponente ou outro.

Deixando minhas especulações de lado, e partindo do princípio de que o autor está certo, temos todos um impulso incontrolável, às vezes disfarçado, de reverenciar uma celebridade. E o que o autor sugere é não tentar suprimir o impulso, mas canalizá-lo em uma direção inteligente e fértil.

A celebridade é um humano normal - isso eu acho que nem sempre - que realizou façanhas extraordinárias através do trabalho duro e pensamento estratégico. A pergunta fundamental quando estamos diante delas deveria ser: o que posso absorver dessa pessoa?

Os jornais não nos ajudam a encontrar a resposta para essa pergunta. Nem quando tentam. Não é publicando uma entrevista de um minuto com o Usain Bolt que um jornal vai ajudar um leitor a entender como é que alguém se transforma no mais rápido de todos os tempos.


Ode à literatura e à arte

Jeito certo de ganhar simpatia do leitor é falar do quanto a literatura é maravilhosa. O leitor gosta de ouvir que a atividade de que mais gosta - a leitura - é a coisa mais importante que existe, e estará propenso a comprar mais material de quem alimenta essa sensação. O Alain de Botton é do clube que toma parte nessa excitação mútua. Com ele, a palavra:
 
 
O noticiário, como a literatura e a história, podem servir como os instrumentos mais vitais, um "simulador de vida" - como uma máquina que nos insere em uma variedade de cenários que vão muito além do que qualquer coisa com que normalmente temos que lidar, e que nos concede uma chance de, sem risco e conforme nossa vontade, aperfeiçoar nossas melhores reações.
A arte... é um meio terapêutico que ajuda a guiar, encorajar e consolar seu público, ajudando-o a evoluir para melhores versões de si mesmo.

O jornal como fuga

Depois de expor tantos defeitos dos jornais, o autor encaminha o livro para nos lembrar da importância de ignorá-los pelo tempo adequado.

Quando estamos ansiosos e inclinados a escapar de nós mesmos, o que seria melhor, mais imersível e mais respeitável do que ler o noticiário? É a desculpa ideal e séria para não prestar atenção a muitas coisas que podem importar mais.

O jornal pode atrapalhar nossas calmas manhãs de sons de passarinhos e luz atravessando a cortina, nos trazendo histórias de sucesso de empreendedores adolescentes que nos provocam inveja. Ou então fofocas que nos levam a sentir satisfação com o fracasso alheio, quando estivermos frustrados por não receber a atenção ou o dinheiro que gostaríamos.

A inveja é benéfica em doses moderadas. Nos lembra do que podemos atingir se fizermos esforço.

Mas não conseguiremos progredir se formos lembrados a todo instante, pelos jornais, de que aquilo que queremos, e muito mais, já foi conquistado por super-humanos.


Para encerrar

Esse livro é excelente. São horas garantidas de aproveitamento dos prazeres da lógica. É daqueles que a gente lê e dá vontade de sair comentando com a primeira pessoa que passar na rua. Nota dez.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Truth

Truth is available to all who are willing to work to achieve it, but truth is certainly not commonly possessed by all and is no one´s birthright.
Nightfall (The Gleaners) (1895)
Thomas e Turner. 

terça-feira, 31 de maio de 2016

Natureza, Indústria e Capelas

I felt able to share with the group some of my own tentative notions for businesses as yet missing from the world economy, including a new kind of holiday company which would take tourists around industrial locations rather than museums...


... a chain of secular chapels which atheists could visit to appease their confused religious yearnings


De Alain de Botton

terça-feira, 24 de maio de 2016

domingo, 1 de maio de 2016

Submissão - Michel Houellebecq

Sobre o livro

A bela capa é manchada por uma apelação: "O Livro Mais Polêmico do Ano."




Aviso de spoilers

Esse post releva conteúdo relevante do livro e de sua trama, incluive o final, e pode estragar a sua leitura. Não continue lendo se pretende ser surpreendido quando ler a obra.

O livro chamou muita atenção em mais de um país por pelo menos dois motivos:

1 - Sua trama se passa em um futuro próximo, em que um partido muçulmano passa a governar a França.

O Islã é a religião que se expande mais rapidamente na Europa. É natural que os cidadãos de lá e daqui reflitam sobre até onde vai essa expansão e seus impactos.

Neste livro, que descreve a França até os idos de 2022, ocorre uma mudança relâmpago na vida da sociedade. Poligamia passa a ser comum, as mulheres perdem a liberdade de estudar e trabalhar, as universidades viram instituições religiosas. Uma transformação violenta e impossível de ser executada na França em tão pouco tempo, seja pela religião ou pelo que for.

Mas está claro que o objetivo primário do livro não foi ser realista. Pode ser que o propósito dessa trama mais que improvável seja levar a uma reflexão sobre a transformação de valores e costumes que uma religião pode causar em um prazo maior, como já aconteceu algumas vezes na história do mundo. Ou pode ser também que o autor irreverente tenha resolvido bater em um tema espinhudo pra vender bastante.

2 - Começou a circular nas livrarias da França no dia do ataque terrorista ao Charlie Hebdo, no início de 2015. A publicação do livro era, inclusive, assunto de capa da edição da revista naquela semana.

Tentemos olhar a obra sem ignorar seu tema mais chamativo.

Mas não tratemos só dele.


Sobre o começo do livro

Sou daqueles que têm adoração pelos romances. Que encontram nesses livros algumas das maiores satisfações.

O protagonista François ganhou minha simpatia nas primeiras páginas, fazendo declarações de amor à literatura, e proclamando seus atributos únicos.

Tanto quanto a literatura, a música pode determinar uma reviravolta, um transtorno emotivo, uma tristeza ou um êxtase absolutos; tanto quanto a literatura, a pintura pode gerar um deslumbramento, um olhar novo depositado sobre o mundo. Mas só a literatura pode dar essa sensação de contato com outro espírito humano, com a integralidade desse espírito, suas fraquezas e grandezas, suas limitações, suas mesquinharias, suas ideias fixas, suas crenças; com tudo o que o comove, o interessa, o excita ou o repugna. Só a literatura permite entrar em contato com o espírito de um morto, da maneira mais direta, mais completa e até mais profunda do que a conversa com um amigo - por mais profunda e duradoura que seja uma amizade, numa conversa nunca nos entregamos tão completamente como o fazemos diante de uma página em branco, dirigindo-nos a um destinatário desconhecido.
Então, é claro, quando se trata de literatura, a beleza do estilo, a musicalidade das frases têm sua importância; a profundidade da reflexão do autor, a originalidade de seus pensamentos não são de desprezar; mas um autor é antes de tudo um ser humano, presente em seus livros; que escreva muito bem ou muito mal, em última análise, importa pouco, o essencial é que escreva e esteja, de fato, presente em seus livros.

Senti satisfação com esse trecho, e também ansiedade: o que viria nas próximas páginas? Mais qualidade? Ou o autor teria entregado de largada o que tinha de melhor?


Sobre o estilo, o machismo, o racismo e o politicamente correto

Logo que virou moda falar mal do politicamente correto, eu pensei que, de fato, estávamos diante de uma praga. Que para cada coisa que alguém dissesse ou escrevesse, sempre haveria um outro alguém de prontidão para acusá-lo de machismo, racismo, especismo, direitismo/esquerdismo e de várias outras coisas da cada vez mais longa lista de ismos. E que essa vigia cresceria e acabaria forte demais. Passaríamos a ter um cuidado tão sufocante para falar de certos assuntos, sentiríamos tanto desconforto que, no fim, concluiríamos ser mais seguro nunca falar deles. O que, por sua vez, poderia levar a preferirmos nem sequer pensar neles.

Passaram-se anos. Durante dois deles, vivi na Inglaterra, onde o politicamente correto está instalado há mais tempo e está mais desenvolvido e generalizado. Foi lá que comecei a notar seus benefícios. Na rotina com os ingleses, me saltava aos olhos: o respeito entre os indivíduos é impactante. Machismo, racismo, xenofobia são abominados. Uns policiam as falas dos outros, para ver se não escapou um elemento quase imperceptível de qualquer que seja o ismo. O acusado reconhece a falha e diz "desculpe, não foi minha intenção". Alguém narra entre colegas de trabalho um episódio de ismo que viu no final de semana, e os presentes expressam enfaticamente seu nojo.

Uma vantagem desse clima na Inglaterra é que se as pessoas não perdoam o menor deslize machista na fala, todos ficam mais alertas para evitar o machismo nas ações. Pais e mães que viveram policiados na fala e na ação vêm criando filhos que talvez quase não tenham visto esses ismos praticados dentro de casa. Talvez venham gerações que foram expostas a e praticaram tão pouco os ismos que os ismos cheguem próximo à extinção.

Mas há riscos na busca desse objetivo. Com medo de ser acusado de algum ismo terrível, perguntas importantes deixam de ser feitas. Assuntos muito relevantes são evitados. Penso: não é importante refletir e debater os aspectos perigosos da religião? A reflexão aberta sobre seus possíveis males não é tão importante quanto o respeito que devemos dedicar às crenças de cada um?

Nesse trecho e em vários outros, o protagonista François fala consigo mesmo sobre mulheres, parecendo um Jorge Amado descuidado.

Não tinha sequer vontade de vê-la nua, teria preferido evitar, mas a coisa se produziu, e apenas confirmou o que eu já pressentia: não era apenas no plano emocional que ela levara umas traulitadas, seu corpo sofrera estragos irreparáveis, sua bunda e seus seios não eram mais que superfícies de carnes magras, reduzidas, moles e caídas, ela já não podia, nunca mais poderia ser considerada um objeto de desejo.

O parágrafo faz o favor de falar especificamente em "objeto de desejo". Se temos mais a perder nos permitindo achar graça de uma manifestação animalesca dessas, ou policiando manifestações que expõem a natureza animalesca das pessoas, acho difícil saber.

Também fico sem saber se, quando o autor debocha dos homens, está de fato expressando sua percepção, ou se está vestindo um colete de proteção: "vejam, eu não falo com desprezo apenas de mulheres. Sou assim com os homens também."

Ao contrário delas, eu não podia me abrir com ninguém, pois as conversas sobre a vida íntima não fazem parte dos temas considerados admissíveis na sociedade dos homens: eles falarão de política, de literatura, de mercados financeiros ou de esportes, dependendo do temperamento. Sobre sua vida amorosa manterão silêncio, e isso até seu último suspiro.

Haverá quem diga: "o autor não está dizendo que é a favor de falar das mulheres ou dos homens desse jeito. Trata-se de um personagem. Há personagens grotescos e ruins. O fato de haver personagens 'do mal' não significa que o autor esteja incentivando a existência de pessoas 'do mal'".

Mas também certamente poderia se rebater que há atrocidades que não podem ser feitas nem por personagens da ficção. Certamente somos capazes de pensar em ações indizíveis, que não teríamos coragem ou estômago para narrar, mesmo no caso de se tratar de uma ficção e de um criminoso imaginário. Talvez tenhamos que classificar o machismo nesse tipo de atrocidade e não deixá-lo existir nem de brincadeira.

Policiar ou não policiar... eis a questão. Que se idolatre essa dúvida.


Viagem no tempo

François narra de 2022 a sua história, que começa na sua época de universitário, talvez no início dos anos 2000.

Ao fazer isso, o protagonista faz uma daquelas mágicas da literatura: ela não só nos permite conversar com os mortos, mas também nos dá a sensação nítida de poder conversar com alguém que já viveu o futuro.

François fala de hoje (2015, 2016, 2017...) como se falasse do passado. Sobre a política da França em 2017 - e talvez involuntariamente da política do Brasil e dos Estados Unidos - diz o seguinte:
... em minha juventude, as eleições não tinham o menor interesse; a mediocridade da "oferta política" era até surpreendente. Um candidato de centro-esquerda era eleito, por um ou dois mandatos, dependendo de seu carisma individual, e razões obscuras o impediam de cumprir um terceiro; depois, a população se cansava desse candidato, e de modo geral do partido de centro-esquerda. Observava-se então um fenômeno de alternância democrática, e os eleitores levavam ao poder um candidato de centro-direita, também por um ou dois mandatos, dependendo de sua própria natureza. Curiosamente, os países ocidentais tinham imenso orgulho desse sistema eleitoral que, no entanto, não passava da divisão do poder entre duas gangues rivais, e às vezes chegavam até a desencadear guerras a fim de impô-lo aos países que não compartilhavam de seu entusiasmo.
Ao ver alguém de 2022 narrando esses dias tão familiares, fiquei com a ilusão de que, se continuasse lendo o livro, saberia antecipadamente o que vai acontecer nas próximas décadas.

Mas a ilusão começou a perder um pouco de firmeza quando foi narrada...


... a ascensão do primeiro presidente muçulmano da França


Mohammed Ben Abbes anunciou a criação da Fraternidade Muçulmana.
         A Fraternidade Muçulmana ficara atenta em conservar uma postura moderada...
A partir do modelo dos partidos muçulmanos operando nos países árabes, modelo aliás usado antes na França pelo Partido Comunista, a ação política propriamente dita era propagada por uma densa rede de movimentos de juventude, estabelecimentos culturais e associações de caridade. Num país em que a miséria de massa continuava indiscutivelmente, ano após ano, a se espalhar, essa política de rede dera frutos, e permitiu à Fraternidade Muçulmana ampliar sua audiência bem além da moldura estritamente confessional... nas últimas pesquisas, esse partido, que tinha apenas cinco anos de vida, atingira vinte e um por cento das intenções de voto, empatando assim com o Partido Socialista...

A eleição do candidato da Fraternidade Muçulmana, Mohammed Ben Abbes, soa quase verossímil. Ela se arma quando a Fraternidade surpreende dois partidos políticos dominantes da França, e acaba indo para o segundo turno.

Eu poderia resumir aqui exatamente o que acontece no livro, mas vai ficar mais interessante se eu tentar traduzir os acontecimentos para a realidade brasileira. Claro que a tradução perfeita não seria possível, entre outros motivos porque não há correspondência exata entre os partidos do Brasil e da França. Mas o importante é que a ideia fique clara.

Eleição presidencial após eleição presidencial, vão para o segundo turno o PT e o PSDB. Mas perto de 2010, funda-se no Brasil um partido chamado Fraternidade Muçulmana. O novo partido foca seus esforços em conquistar a simpatia dos pobres e dos extremamente pobres, e faz isso melhor do que o PT. Então quando nas eleições presidenciais dos idos de 2020 o PT e o PSDB acham que a briga está entre eles, o PT acaba surpreendido e ultrapassado pela Fraternidade Muçulmana no primeiro turno.

Começa então a temporada de caça de apoio: quais partidos vão apoiar a Fraternidade Muçulmana e quais vão apoiar o PSDB no segundo turno?

Obviamente o PT não apoia o PSDB. Por isso, tenta uma aproximação com a Fraternidade Muçulmana. Descobrem-se poucos pontos de conflito entre o PT e a Fraternidade. Além disso, o candidato da Fraternidade é um homem de carisma inigualável. A Fraternidade acaba levando todos os votos que já tinha, mais os votos de quase todos os eleitores do PT e de seus partidos aliados. O PSDB sai derrotado.

É aqui que acho que o realismo da história começa a se perder. Uma transferência de votos para um partido muçulmano ocorreria tão facilmente assim na França, em um país tão laico há algum tempo? Ou tão cristão, no caso do Brasil?


Falta de realismo? Paranoia? Simbologia?

Na proximidade das eleições que poderiam levar a Fraternidade Muçulmana à presidência, grupos entram em conflitos sangrentos nas ruas. Extremistas autóctones e migrantes se matam. Quarteirões inteiro pegam fogo. Mas não se noticia nenhum evento, em nenhum canal de TV ou veículo. Só se sabe dessas ocorrências pelo boca-a-boca.

Posso especular que o autor está fazendo uma crítica, ou um alerta: o de que a mídia está evitando dar a devida cobertura a questões migratórias, religiosas ou raciais. De que o noticiário está fazendo vista grossa para violência em subúrbios. De que os franceses estão propensos a aceitar rapidamente uma realidade de tensões étnicas, ignorando-as.

No episódio mais extremo do livro, acadêmicos reunidos em uma festa tomam drinks, discutem e fofocam, até que começam a ouvir estrondos longínquos. Todos fingem não ter ouvido nada. Minutos passam, e então se escuta uma explosão próxima, que não pode ser ignorada. Os convidados começam a deixar o local devagar, tentando não aparentar pânico:
"Bem, acho que nossa festinha vai ter um fim prematuro...", disse Alice com graça. Na verdade, muitos convidados tentavam telefonar; e alguns começavam a se deslocar para a saída, mas lentamente, por intervalos, como para mostrar que continuavam donos de si..."
As explosões haviam ocorrido na place de Clichy.

"Parei, estupefato. Uns cem metros ao norte, a place de Clichy estava completamente tomada pelas chamas; distinguiam-se carcaças de carros e a de um ônibus, carbonizadas; a estátua do marechal Moncey, imponente e negra, se destacava no meio do incêndio. Não havia ninguém à vista. O silêncio invadira a cena, unicamente perturbado pelo uivo repetitivo de uma sirene."

Nada se noticia sobre a destruição.

"Podemos tentar saber o que está acontecendo, se quiser."
"Não, sei perfeitamente que não haverá nada nos canais de notícias. Na CNN talvez, se você tiver uma parabólica." 

Essa ocorrência e diálogo são só uma ambientação da história, ou o autor está oferecendo uma interpretação do clima da França em 2015 quando o livro foi publicado? Estaria o autor apontando que não se fala o suficiente sobre um possível choque de culturas que está para acontecer na Europa, simbolizado pela explosão de um quarteirão que nenhum veículo noticia?

Por que será que François acha que, se algum canal for noticiar as explosões, será a americana CNN? Trivialidade da história, ou uma provocação aos noticiários da Europa, na forma de uma afirmação de que os americanos levarão mais tempo para fugir da realidade conflituosa que poderia estar se aproximando?


Tradução dos medos de uma sociedade

Dois intelectuais conversam. Um conta para o outro sobre um movimento identitário de que fez parte, e da criação do grupo Indígenas Europeus.

Somos os indígenas da Europa, os primeiros ocupantes desta terra, e recusamos a colonização muçulmana. 
A transcendência é uma vantagem seletiva: os casais que se reconhecem numa das três religiões do Livro Sagrado, entre os quais os valores patriarcais se mantiveram, têm mais filhos que os casais ateus ou agnósticos; as mulheres são menos educadas, o hedonismo e o individualismo são menos enraizados. Por outro lado, a transcendência é, em grande parte, uma característica geneticamente transmissível: as conversões, ou a rejeição dos valores familiares, têm apenas importância marginal; na imensa maioria dos casos, as pessoas permanecem fiéis ao sistema metafísico em que foram criadas. O humanismo ateu, sobre o qual repousa o 'viver juntos' laico, está, portanto, condenado a curto prazo, e a percentagem da população monoteísta está fadada a aumentar rapidamente. É este, em especial, o caso da população muçulmana - sem nem sequer levar em conta a imigração, que acentuará ainda mais o fenômeno. Para os identitários europeus, está fora de questão que entre os muçulmanos e o resto da população deverá necessariamente, mais cedo ou mais tarde, estourar uma guerra civil. Daí concluem que, se querem ter uma chance de ganhar essa guerra, é melhor que ela estoure o quanto antes."

Mudanças com a chegada da Fraternidade Muçulmana ao poder - sistema educacional

Depois de conseguir a presidência da república, a Fraternidade Muçulmana não tem dificuldades em dividir ministérios entre seus aliados políticos. Não se importa de abrir mão da pasta da economia, nem da política externa. O único terreno de que eles realmente não abrem mão é o da educação.

Um dos personagens trabalha no serviço secreto, e faz essa aposta sobre o que deve acontecer com a chegada do primeiro presidente muçulmano ao poder:

A Fraternidade Muçulmana é um partido especial... Para eles o essencial é a demografia e a educação; a subpopulação que dispõe da melhor taxa de reprodução, e consegue transmitir seus valores, triunfa; sob o ponto de vista deles, é tão simples assim... quem controla as crianças controla o futuro, ponto final.
... o ensino islâmico é, de todos os pontos de vista, muito diferente do ensino laico. Primeiro, não pode em nenhuma hipótese ser misto; e só certas carreiras serão abertas às mulheres... todos os professores, sem exceção, deverão ser muçulmanos. 

A expectativa se confirma: as professoras mulheres são demitidas de imediato. Os professores homens não muçulmanos também. Mas a esses são dadas opções:

Opção 1 - podem se aposentar imediatamente, recebendo uma pensão integral e aproximadamente três vezes maior do que seu salário atual.

Opção 2 - converter-se ao Islã, manter seu emprego de professor, adaptar o conteúdo a ser ensinado para que enfatize o bem que o Islã faz, passar a receber um salário muitas vezes maior - em torno de dez mil Euros mensais - e ainda ganhar algumas esposas.

Os professores homens recebem bem essas duas alternativas, que cabem bem à sua situação. O protagonista descreve o corpo docente da Paris-Sorbonne como sem ambições intelectuais, que mamam seus salários para dar aulas com má vontade, produzir conteúdo fraco e sem propósito, e ficar de olho nas estudantes.
Os estudos universitários no campo das letras não levam, como se sabe, praticamente a nada, a não ser, para os estudantes mais dotados, a uma carreira de ensino universitário no campo das letras - em suma, temos a situação um tanto cômica de um sistema sem outro objetivo além de sua própria reprodução, acompanhado por uma taxa de não aproveitamento superior a noventa e cinco por cento.
Saindo da educação universitária e entrando na fundamental: o estudo passa a ser obrigatório só até os doze anos de idade.

É possível imaginar a França admitindo demissão em massa de mulheres porque são mulheres, e uma pressão governamental para que homens se convertam ao Islã? A sociedade francesa aceitaria isso sem protestos? Um partido muçulmano vencedor na Europa teria interesse em implementar essas mudanças? Ou ainda: o sistema político da França permite que entre um governo e outro se façam mudanças tão grandes quanto mulheres poderem ou não ensinar em uma universidade pública? Absurdo.

Mas pode ser que a intenção do autor não fosse criar um cenário provável ou razoável. Talvez seu propósito seja tirar um sarro e se queixar de males que vê em seu país. Talvez a acusação por trás da historinha criada seja: "os acadêmicos da Paris-Sorbonne só estão lá para ganhar seus salários e viver sua vida sossegadamente. São tão pouco interessados nos seus estudos que prontamente se aposentariam na primeira chance, ou se converteriam e ajudariam a propagar o Islã, em troca de um bom dinheiro e de direitos de propriedade sobre esposas."


Mudanças com a chegada da Fraternidade Muçulmana ao poder - comportamentos

François descreve um passeio pelo shopping Italie 2:

Mas era sobretudo o próprio público que tinha sutilmente mudado. Como todos os shoppings - embora, é claro, de maneira muito menos espetacular que os de La Défense ou dos Halles - , o Italie 2 atraíra desde sempre uma quantidade notável de gentinha; esta tinha desaparecido por completo. E as roupas femininas tinham se transformado, senti de imediato, sem conseguir analisar a transformação; o número de véus islâmicos havia aumentado um pouco, mas não era isso, e levei quase uma hora perambulando até captar, de um só golpe, o que mudara: todas as mulheres estavam de calças compridas. 
... os vestidos e as saias tinham desaparecido. Uma nova roupa também tinha se disseminado, uma espécie de blusa comprida de algodão, parando no meio da coxa, que tirava todo o interesse objetivo das calças justas que certas mulheres poderiam eventualmente usar; quanto aos shorts, é claro que estavam fora de discussão. A contemplação da bunda das mulheres, mínimo consolo sonhador, também se tornara impossível. Uma transformação, portanto, estava indubitavelmente a caminho; começara a se produzir um deslocamento objetivo.

Shopping Italie 2 à esquerda

O livro não explica como uma mudança de presidente poderia resultar quase que imediatamente na mudança da vestimenta das mulheres. Para mim não ficou claro. Pesquisando na internet, acho que encontrei uma possível explicação: o presidente muçulmano eleito, Ben Abbes, é muito carismático. Seu jeitão, somado à sua vitória, teria influenciado os cidadãos franceses não muçulmanos a simpatizar com os praticantes da religião e a imitar alguns de seus hábitos e comportamentos, entre eles a vestimenta.

O livro também fala em uma redução da delinquência. A criminalidade nos subúrbios despenca com a chegada da Fraternidade Muçulmana ao poder.

A mudança mais drástica me pareceu ser aquela em que um homem se casa com uma pré-adolescente. A legislação na França é tão prontamente mexível que poligamia e casamento com menores podem ser permitidos da noite para o dia?

Senti falta de uma explicação de causações. No livro, o crescimento do Islã na França simplesmente "vai levando" a mudanças, como mulheres se vestindo diferente, canais de notícias se contraindo, criminalidade diminuindo, o machismo se expandindo... como exatamente a coisa se procede o livro parece nem tentar explicar.

Talvez a resposta do autor seria: "se o Islã crescer por aqui na França, veremos esses comportamentos exóticos crescerem, pois foi assim que aconteceu em alguns países em que o Islã se estabeleceu. Como exatamente a coisa ocorre, eu não sei."


Digressões e conexões

Para encontrar a foto acima do Italie 2, precisei fazer uma pesquisa na internet. Levei um tempo para encontrar o que precisava, porque a pesquisa insistia em retornar fotos deste tipo:

Italie 2

Nessa foto, soldados do exército Francês patrulham as imediações do shopping Italie 2 em conexão com a Opération Sentinelle, que teve início nos dias que se seguiram ao ataque à Charlie Hebdo, que ocorrera na semana em que a revista cobria, entre outros temas, o livro aqui explorado, Submissão, de Michel Houellebecq.


Tentando aprender sobre a França

Dispara François:

Fazia bastante tempo que apenas um título de professor universitário já não bastava para abrir a porta das seções "tribuna livre" e "pontos de vista" dos meios de comunicação importantes, e que estes tinham se tornado um espaço estritamente fechado, endógamo. Um protesto, embora unânime, dos professores universitários passaria completamente despercebido...

É tal a dificuldade dos professores universitários como grupo na França?

Gostaria de ouvir um entendido sobre a validade desse tiro.


Final

Aviso de spoiler: mais uma vez, destaco que esse é um post que revela detalhes importantes da história, inclusive o final. 

O protagonista François é um ateu de quarenta e poucos anos, solteiro, temedor da velhice, dado a bebedeiras, orgias com prostitutas, cigarro, irreverência e cinismo. Ao longo de toda a sua narrativa, não mostra nem interesse, nem raiva, nem desprezo, nem nada por religião. É um indiferente.

Talvez por isso não me ocorreu o final que seria óbvio se a intenção do autor fosse chocar seu leitor: a conversão de François ao Islã.

E é para isso que o final da história se encaminha. Se foi isso mesmo o que aconteceu, talvez não se possa saber, porque o autor fez um daqueles finais abertos. Neste caso, a conversão foi oferecida a François pelo reitor da universidade islâmica Paris-Sorbonne, influente, muçulmano, que intencionava recontratá-lo e arranjar-lhe esposas. Diz François a cinco páginas do fim:

... começava a ter consciência - e isso era uma verdadeira novidade - de que haveria, muito provavelmente, outra coisa.

Depois François vai até o fim contando os detalhes de como seriam as próximas semanas, o ritual de conversão, e alguns detalhes de sua vida dali em diante:

... eu telefonaria para Rediger
... ficaria de fato feliz com a minha aceitação, eu sabia, mas no fundo já a considerava favas contadas, com certeza desde muito tempo
... as mulheres muçulmanas eram dedicadas e submissas, eu podia contar com isso
A cerimônia de conversão, em si mesma, seria muito simples... 
Alguns meses depois haveria o reinício das aulas, e, evidentemente, também as estudantes - bonitas, com véus, tímidas.
Cada uma daquelas moças, por mais bonita que fosse, se sentiria feliz e orgulhosa de ser escolhida por mim, e honrada de dividir meu leito. 
Eu nada teria do que reclamar.

Embora não se saiba se François se converteu ou não, fica evidente sua tentação de se converter, e suas motivações. Seus relacionamentos sempre terminaram mal. Ele sempre acabava abandonado pelas mulheres, e começava a se preocupar com a idade e com as doenças que vinham lhe pegando. Estava convencido de que se encaminhava para um final triste e solitário.

A conversão lhe daria o emprego de volta, uma renda excelente, e uma variedade de esposas submissas, que não teriam a opção de lhe abandonar. Elas estariam obrigadas a amá-lo.

A religião forneceria a François uma pacote de facilidades irresistíveis, principalmente em seu momento. Uma proposta irrecusável.


Opinião sobre o livro

O livro tem um estilo irreverente e acaba sendo divertido.

Se tivesse que apostar, diria que o autor não acredita que eventos parecidos com os que descreveu no livro acontecerão, ou que acontecerão tão cedo. Acredito é que o autor explora curiosidades e medos dos Europeus que temem a tomada da Europa pelo Islã. E nesse exercício de imaginação, de irreverência, e de muita fantasia, o autor aproveita para refazer uma provocação: quem crê, ou finge que crê, o faz antes de mais nada porque lhe convém. Porque deixa a vida mais confortável. Porque permite justificar a submissão das mulheres, dos povos, dos animais, das leis, das convenções, dos deveres morais.

Fiquei muito longe de ter a sensação de ter lido uma grande obra. Há diálogos sem pausa, absurdamente longos e coreografados. Quando ocorrem, parece piada. De repente o romance virava um ensaio. Quem ler o livro vai saber exatamente do que estou falando quando chegar nas falas do agente secreto, e do reitor da nova universidade islâmica.

Para piorar, a impressão que dá é que o autor só esteve inspirado para escrever metade do livro. Quando chegou no meio, resolveu enrolar mais meia metade, até chegar no final bem planejado e surpreendente.

Talvez tenha faltado um bom trabalho de edição? O fato de que a página de agradecimentos só menciona uma pessoa talvez corrobore que esta obra não tem qualidades comuns em empreitadas mais colaborativas.

Acho que no fim das contas a leitura vale a pena. Propõe reflexões importantes. E para tomar o raciocínio do François sobre as possibilidades da literatura: o livro permitiu uma boa interação com um Francês contemporâneo.


Críticas e outras revisões

Nesta revisão de Luis Augusto Fischer, professor de literatura da UFRGS, o suco da obra é extraído com maestria. Que poder de identificação e resumo das ideias principais, com clareza e precisão!

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2015/01/1572894-critica-tragedia-ofusca-brilho-cinico-de-submissao-de-houellebecq.shtml

Nessa, da Carta Capital, argumenta-se que o livro não se propõe a tentar adivinhar o que vai acontecer no futuro, e sim a ajudar a refletir sobre o que está acontecendo hoje. Para relacionar com meus pontos de vista neste post, a Carta está dizendo que, de fato, o livro não soa realista, mas não por erro, e sim porque o autor está usando a ficção para debater os medos que estão na cabeça dos Franceses agora.


Quando um autor ficcionaliza o futuro de uma determinada sociedade, não está querendo prever o que vai acontecer. Quando um autor da altura de Houellebecq figura ficcionalmente certo futuro historicamente contextualizado, na verdade, está intensificando forças do processo social presente, que, sem a energia da ficção, permaneceriam difusas para nós que as vivenciamos por dentro cotidianamente. Portanto, em Submissão, não importa o que Houellebecq pretensamente preveria em relação ao futuro da Europa e sim o que ele nos faz ver em relação ao presente da civilização ocidental.


Essa crítica também fala dos diálogos que achei absurdos e enormes.

Submissão, em linhas gerais, é um livro ruim. A narrativa se articula mal em termos de ritmo. A primeira parte é visivelmente mais bem composta que a segunda, e o livro se arrasta do meio para o final. A construção dos personagens que fazem o papel de interlocutores do narrador é defeituosa. Tanto Alain Tanneur, que explica ao narrador o lugar de Ben Abbes no contexto político francês, quanto Renon Rediger, que termina por explicar o “Islã afrancesado” ao narrador, têm a consistência frágil de meros títeres falantes.
E o resto da crítica é um blá blá blá ideológico típico da revista.

http://www.cartacapital.com.br/blogs/outras-palavras/submissao-e-o-declinio-da-cultura-eurocentrica-6364.html


Esta revisão do The Guardian afirma que o que impulsiona François à conversão é o desejo, que ele tentará satisfazer com a poligamia. O livro é bem avaliado, embora sua trama seja considerada "irrealizável."

http://www.theguardian.com/books/2015/feb/06/soumission-michel-houellebecq-review-france-islamic-rule-charlie-hebdo


Essa apresentação do site do Fronteiras do Pensamento referencia o Le Monde para falar de Houellebecq: ele é o escritor que reflete sobre "a enorme mutação em curso que todos nós vivemos e não sabemos como analisar." É assim que estou propenso a encarar o livro aqui resumido: não como uma tentativa de previsão, mas como uma reflexão.

Na excelente entrevista abaixo, também disponível no site do Fronteiras, mas feita pelo El País, uma surpresa: para o próprio autor, a cena-chave do livro é uma que não aparece nas primeiras treze páginas de críticas e revisões que encontrei no Google, e nem na minha, embora a passagem tenha me impressionado, e me levado a observar a foto da Madona Negra de Rocamadour por muitos minutos.

Na minha opinião, a cena-chave do livro é essa na qual o narrador dá uma última olhada na Madona Negra de Rocamadour, sente um poder espiritual, como umas ondas, e, de repente, ela se desvanece em direção ao passado e ele volta ao estacionamento, sozinho e basicamente desesperado.

Ainda nessa entrevista, ele admite que o cenário que desenhou é muito exagerado. Indagado sobre o motivo de ter ido adiante na escrita, mesmo não acreditando na própria criação, respondeu que foi seu lado "mercado de massa" falando alto.

O/a entrevistador(a) espreme o autor, questionando sua atitude, responsabilidade e sensatez por ter escrito de forma relaxada sobre temas sensíveis, possivelmente incentivando paranoias e preconceitos. A partir daí a entrevista vira um combate que chega nos limites do respeito, sem ultrapassá-los, e a obra é discutida em profundidade.

http://www.fronteiras.com/entrevistas/michel-houllebecq-fala-sobre-soumission-seu-livro-divulgado-pela-charlie-hedbo


Trechos

Tal cegueira nada tinha de historicamente inédita: podia-se encontrar a mesma entre os intelectuais, políticos e jornalistas dos anos 1930, unanimemente convencidos de que Hitler "acabaria por recobrar a razão." Talvez seja impossível, para pessoas que viveram e prosperaram em determinado sistema social, imaginar o ponto de vista dos que, nunca tendo tido nada a esperar desse sistema, encaram sua destruição sem nenhum terror especial.