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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

A Menina Que Olha Pela Janela - Stela Victório Faustino

Degustar livro.

Admirar os selos do envelope que trouxeram os poemas lá do Mato Grosso do Sul.

Olhar para a capa e decidir que vale a pena, desta vez, procrastinar as obrigações, adiar os compromissos, deixar pra lá o que tinha planejado para dez da manhã. Que fique para três da tarde. Até a hora de outra leitura que eu havia programado para agora fica para depois, porque quero tirar prazer da beleza da capa sem ser incomodado por qualquer pensamento.




Muitos livros bons jamais serão clássicos ou cultuados. Quando pego um livro recém publicado, fico pensando qual será seu destino. A chance de ser injustiçado pelas probabilidades é alta. Mas aqui em casa não há esse perigo. A Menina Que Olha Pela Janela vai passar uma tarde entre O Tempo e O Vento, com o Minuano e com Os Capitães da Areia.


          O SONHADOR,
          Se é feliz
          fez do sonho sua raiz. 


Noto feliz que tenho uma janela igualzinha à da capa. Mas a minha tem um defeito: ela dá vista para prédios logo do outro lado da rua. Não me dá oportunidade de imaginar nada. Só se eu me deitar de baixo dela e olhar para cima, de forma que só consiga olhar o céu e uns galhos de árvore. Aí sim ela vira a janela de que o livro fala.


          Eis os mistério da alegria:
          iludir enquanto é dia...


Tentando tirar mais fotos boas do livro, acabei sem querer refletindo a minha janela da sala, embaçada, como eu gostaria que fosse.





Que sensação boa ler uma autora da minha idade, e contemporânea. Uma pessoa que desconheço, mas que vive no mesmo Brasil que eu, que nasceu no mesmo Mato Grosso do Sul que eu, que viveu o mesmo tempo que eu e que vive hoje, que tem um passado parecido com o meu e na mesma região, e que portanto deve ter tido desilusões parecidas, colocou no papel seus sentimentos. Vejo no livro meus próprios sentimentos, e sinto menos necessidade de deixar um registro próprio.

Isso me faz pensar: os livros não são as coisas mais importantes que existem só porque nos permitem ver o que as pessoas do passado pensavam e sentiam. Nos permitem adentar outro mistério também: o que as pessoas de hoje, como nós, estão sentindo?

Os agradecimentos que abrem o livro são comoventes. A escritora agradece a referência inspiradora de sua família, e agradece ao pai, que guarda para ela o Caderno B do jornal Correio do Estado há tanto tempo. Esse Caderno B virou um mistério para mim. O que será que vem nele? Será que esse objeto imagina o significado que pode ter tido para um pai e sua filha, e na formação de uma escritora? Naturalmente não. É um objeto inocente, como todos aqueles que foram para O Museu da Inocência, e não são capazes de saber o que significam para as pessoas.

Agradeço a herança da família Victório que respingou em mim. Uma cidadezinha colada ao Paraguai revive nas letras e músicas que nos fazem retornar às raízes e encantos vividos lá. 

Fico extremamente feliz de ver algo assim escrito neste ano que estou vivendo. Sobre a terra em que nasci e de que não lembro nada. Estão cultivando um mistério sobre o meu lugar. Que cidadezinha será essa? Será próxima de onde vim? Quem escreve essas letras e músicas?

O padrinho da autora, que ficou responsável pelo prefácio da obra, inicia-o assim, para quase levar, ou levar de fato, leitores às lágrimas.

Mato Grosso do Sul conta com mais uma mulher de letras

Por fim, o livro. É feito de poemas lindos e trechos brilhantes. É bom lê-lo como um canto.


          Canto
          para afastar o espanto
          dos dias que correm
          quase sem poesia


Para saber mais: https://www.facebook.com/poesiaspequenas

*Todas as citações acima foram retiradas do livro A Menina Que Olha Pela Janela.

4 comentários:

  1. Que texto mais lindo. "Quero tirar prazer da beleza da capa sem ser incomodado por qualquer pensamento." Quantas vezes tive essa sensação, muito bem traduzida por suas palavras. Parabéns! Fiquei com vontade de ler as outras poesias do livro. Ah! Adorei seu cantinho com Jorge Amado, Verissimo...

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  2. Que bom que você gostou do post, Kátia! E que você reconheceu sua sensação naquele trecho. Coisa de leitor!

    Eu também gosto daquele canto com os livros. Desde que peguei o hábito do livro eletrônico, começou a aparecer menos livros aqui em casa, e é uma pena, porque obviamente olhar para os livros desperta a lembrança da história, e do tempo de vida em que foi lida...

    Acho que vou ter que retomar o hábito dos livros impressos. Pelo menos para os melhores.

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  3. Emocionante para mim, lê-lo! Muitíssimo obrigada por tamanha gentileza. Um abraço grande! A menina que olha pela janela ☆☆

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    1. Emocionante é para o autor do blog receber a visita da autora do livro!

      Obrigado pela passagem e pelo comentário!

      Ansioso pelas próximas publicações.

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