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domingo, 3 de setembro de 2017

The Red-Haired Woman - Orhan Pamuk



Entre os prazeres de ler Orhan Pamuk está o de viajar no tempo.

Quando ele descreve as sensações de ser criança, revivo com nitidez minha infância. O mesmo acontece quando suas personagens vivem sua adolescência, seus primeiros anos como adultas e a passagem pelos trinta. Reconheço as agonias e as alegrias. O que me marca com mais força em sua literatura é isso: as vidas vividas pelas suas personagens têm a textura da vida real.

E por isso, quando ele fala das idades que ainda não tenho (quarenta, cinquenta, sessenta), sei que estou aprendendo como será minha existência.

Leitura em Andamento...

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Na Principal Estrada Entre Kendal e Keswick

Na principal estrada entre Kendal e Keswick, na Região dos Lagos, na Inglaterra, há uma bela casa onde se escreviam poesias.

Dove Cottage
O poeta que ali morava era William Wordsworth. Seu quintal parece uma serra em um domingo nublado que dura para sempre.

Dove Cottage
Do quintal sobe uma escada, que leva à cabana onde Dorothy Wordsworth escrevia cartas.

Dove Cottage
O que é mais solene: a cabana onde se escreviam cartas, ou a vista que tinha quem as escrevia?

Vista da cabana
A escada que une o quintal à cabana hoje é decorada com pedras onde se leem as poesias do antigo morador. Pode ser que a escada saia de um, leve a um, ou seja um paraíso.


Fotos por Renan Caleffi de Oliveira.

sábado, 29 de julho de 2017

The Shepherd's Life - James Rebanks



Capa

Uma capa que me induz tranquilidade. Provavelmente porque nada nela remete aos problemas da minha rotina. A neblina que nunca aparece na cidade, o Border Collie que eu gostaria de ter, ou de ser, envolvido em paz e silêncio, um mato bonito... nada disso existe no meu mundo diário.

Deve haver uns quantos para quem a imagem romântica oferece promessa de alívio. Sem tempo de buscar paz no campo, resta esperança em consumir o produto atrás da capa.


Conteúdo

O alívio está lá. É para a mente entristecida na cidade que o autor fala sobre seu lar, o Lake District.

O livro não vem na forma de fantasia. James Rebanks descreve uma vida rural que depende da ajuda financeira do governo. No Lake Districit as famílias criam ovelhas usando técnicas antigas, gerando lucros mínimos que já não permitem o sustento. Os filhos se mudam para a cidade para conseguir emprego. Às vezes um deles volta para assumir os negócios quando o pai já está muito velho e a fazenda está mais pobre.

Enquanto a vida dos moradores se complica, turistas vêm cheios de alegria e dinheiro passar as férias nas redondezas, e tratam como parque de diversões o chão que, para os locais, é um lar sagrado e um cemitério de tradições.

Ainda assim, o livro oferece ar fresco ao morador da cidade. Porque os problemas ali descritos são outros. Da descrição de se cuidar das ovelhas, de preparar a terra, de enfrentar o frio e de trabalhar com os vizinhos, brotam sentimentos que não brotam das telas de computador, das mesas de escritório e do concreto.


A vida do autor

Esse livro é, entre outras coisas, a biografia de um desconhecido. Uma maravilha. Um lembrete de como há universos soltos por aí dentro de pessoas, esperando por uma vazão literária.

James Rebanks narra uma infância em que ele e todas as crianças da região vão à escola porque a lei obriga. Na sala de aula os estudantes só pensam em voltar para a fazenda e ajudar os pais no trabalho do campo. Porque as paisagens do Lake District são tão belas, e seus valores de trabalho tão apaixonantes, que as famílias e seus filhos não consideram qualquer alternativa de futuro. O importante é viver o que eles já conhecem e querem, abandonando os estudos assim que permitido.

Para o autor, as pessoas da cidade são obcecadas pela ideia de fazer algo de suas vidas. Para os residentes do Lake District, que cuidam de suas terras há séculos, essa perturbação mental não está presente. Rebanks só sentiu necessidade de se afastar das ovelhas quando se tornou um adulto e quis cuidar da fazenda do seu jeito, entrando em conflito com o pai. Sendo um raro aluno de destaque, aproveitou as notas altas para se candidatar e passar em provas que o levaram à Universidade de Oxford.

Durante seu tempo de estudos e graduação, frequentou Oxford e Londres e achou tudo horrível. Contou os dias para retornar ao Lake District. Por hábito, continuou acordando de madrugada, no que diz ser um impulso de seguir os valores do campo e de começar a trabalhar antes de o sol nascer.

Acho que foi aqui que comecei a notar que o autor está propenso a achar especial cada aspecto de sua vida rural, em comparação com a vida na cidade. Senti vontade de adicionar uma nota de rodapé àquela página. Quem toca um restaurante na cidade também acorda de madrugada para preparar a comida. Cabeleireiros também acordam de madrugada para preparar o salão. Contadores também acordam de madrugada para preparar relatório. Advogados varam a noite preparando seus casos. A lista de quem dorme pouco para ir atrás do sustento é e sempre foi longa, no campo e longe dele.


A alma

Formado, o autor voltou para as terras da família, que hoje ele toca, ao mesmo tempo em que estuda estilos de vida semelhantes aos do Lake District ao redor do mundo, e que escreve e publica este livro em que despreza a vida urbana, e enaltece os atributos imensamente melhores de sua existência rural. Ter sido descoberto um prodígio e ter se graduado em uma das melhores universidades da Terra não mudaram sua preferência pelos lagos, de onde ele afirma e reafirma que o mundo está errado em não perceber o que há de precioso na vida que ele leva. Entre uma reflexão e outra, conta histórias de sucesso pessoal, em um tom de quem não as queria contar, mas pressionado pelas circunstâncias acabou contando sem querer.

O que leva alguém a repetir tanto que não quer uma coisa? A escrever páginas e páginas sobre assuntos e dúvidas que não o incomodam?

Esse livro não é apenas uma celebração do Lake District. Quem sente necessidade de celebrar sentiria necessidade de comparar? De derrotar?

Esse é um registro da angústia de uma existência em 2015. Uma ansiedade diante da morte de tradições e da indiferença do mundo urbano. Vejo um apelo para ser amado, para ter um estilo de vida reconhecido e valorizado, para não ser esquecido. A região que o autor descreve soa única e bela, mas essa mente que ali vive não parece estar livre dos impulsos de comparação e competição, e do medo da humilhação. Diz desprezar a cidade, mas pede seu carinho.


Sobre ler este livro

É mágico. O que falei acima é só minha interpretação, e não vejo nada de negativo. Se o que estou insinuando for verdade, o autor está sendo humano e produzindo um texto belo em que pede para não ser deixado para trás, enquanto descreve em um estilo original a sua vida. Uma obra de estreia e de valor. Cada página vale algo. O tema principal está pipocado de faíscas de reflexões sobre outros.

As descrições vêm em trechos de meia página a duas, que avançam e retrocedem entre memórias significativas. Pula-se de um jantar para um passeio na montanha, de uma reunião de pastores para uma colheita de feno, de um corte de lã para uma feira. Lembranças doloridas e prazerosas de alguém que tenta atribuir um propósito, uma ordem e uma direção ao seu passado. Um autor que tenta se defender e se justificar para um leitor que não havia perguntado nada.

I'd gone to prove a point to myself and maybe to other people too. But there wasn't much satisfaction in it. I'd lost the hunger to keep proving it.

Pode ser que o autor tenha experimentado as vidas no campo, na cidade e corroborado o que já sabia: a primeira é melhor. Ou pode ser que o autor tenha desejado a cidade, tentado conquistá-la, falhado, e então voltou para os braços do Lake District, de onde desdenha daquilo que diz que nunca quis.


Intercâmbio

Esse livro parece ter sido bem sucedido aqui na Inglaterra. Estava em destaque nas livrarias quando o comprei. Especulo que os leitores que gostaram da obra por aqui, que sentiram prazer no contato com tradições cultivadas no meio rural, gostariam muito de conhecer literatura gaúcha na sequência. Bom que seria se O Tempo E O Vento, traduzido para o inglês, fosse exposto na mesma prateleira. E que The Shepherd's Life fosse vendido em gauchês no Rio Grande do Sul. O mais próximo disso, por hora, é a tradução para o espanhol La vida del pastor.


Trecho

The past falters and dies by little steps. Then it has gone, and old men go home disappointed.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Science in the Soul - Richard Dawkins


Eu estava no meu corredor favorito: o corredor do Museu de História Natural de Oxford.


Muitas vezes entrei nesse museu disposto a olhar tudo. Mas acabei sempre exaurindo minha energia mental em umas poucas caixas de exibição. Prefiro voltar para apreciar o resto outro dia, descansado, atento e reverente diante do maior espetáculo da Terra: a evolução das espécies.

O ciclo se repete há anos. No dia 14 de junho de 2017, eu estava novamente nesse corredor. Eram 18:30. Faltavam trinta minutos para o evento: um bate-papo entre escritores. Decidi que enquanto não chegasse a hora eu passaria o meu tempo como se deve: admirando espécies de estrela do mar. Expostas juntas, suas mínimas variações são claras e de uma beleza que se atingiu depois de dezenas de milhões de anos de trabalho.

Algo na genética da nossa espécie gregária nos dá um impulso de querer dividir as experiências e de ser entendido. Minha esposa procurava o auditório e não estava ali para me ouvir falar do que eu sentia enquanto olhava também os pepinos do mar. Meu amigo mais capaz de compartilhar o sentimento estava muito longe. Então fiquei ali, aproveitando um maravilhamento intenso e solitário. Até que passa atrás de mim um senhor falante de cabelo branco: Richard Dawkins.

Aquele senhor não seria capaz só de entender a sensação que brotava daquela caixa de vidro em um corredor silencioso. Ele é bom em ensinar como se atinge esse estado quando se está diante da natureza. Por isso foi professor de compreensão pública da ciência. Sua escrita é a mais clara que lembro de ter lido. Em seus livros, ele auxilia quem está interessado em absorver a magia da realidade. Possivelmente eu teria aprendido a chorar diante de sequoias e de evoluções convergentes mesmo que não houvesse lido A Grande História da Evolução, O Gene Egoísta ou A Escalada do Monte Improvável, porque lembro de ser propenso à contemplação desde muito novo. Mas essas obras aguçaram a sensibilidade.

O velhinho se sentou diante de uma mesa e pré-assinou sozinho vários livros bonitos de capa preta com detalhes brancos, azuis e laranjas. Seria um novo livro dele? Pesquisei no celular, e não encontrei nada. Que milagre! Os mecanismos de busca não haviam ainda absorvido bem a novidade: Richard Dawkins publicou um novo livro.

Eu só entendi de fato que ele tinha um livro novo quando, minutos depois, eu já estava sentado no auditório e ele estava logo à frente, lendo o primeiro parágrafo sobre sua experiência de visitar o Grand Canyon:

The Grand Canyon confers stature on a religion, outclassing the petty smallness of the Abrahamics, the three squabbling cults which, through historical accident, still afflict the world. 

Na outra vez em que fora em um evento do Richard Dawkins, a ocasião fora mais solene. Ele lera em voz baixa trechos seríssimos de alguns de seus livros, diante de uma plateia grande em um auditório espaçoso.

No Museu de História Natural, a experiência foi mais próxima. Auditório pequeno e clima informal. Estava junto Yan Wong, com quem Dawkins escreveu A Grande História da Evolução. Eles bateram um papo diante dos presentes, se empolgando com os comentários um do outro sobre a melhor forma de se exibir a árvore da vida, os resquícios de genes de neandertais entre os europeus, os genes comuns que determinam o tipo sanguíneo A entre humanos e primatas, e outras coisas que não consegui acompanhar. Depois da dolorosa sessão das sempre mal formuladas perguntas do público, comprei o livro e peguei a assinatura desse autor tão fácil de se admirar. 

Interessante ver assim de perto um escritor tão grande, falando à vontade sobre seus assuntos favoritos, em seu habitat, e na sua companhia favorita.


O resumo do livro virá mais tarde. Quis registrar a experiência de chegar ao livro enquanto ainda estava quente na mente.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Felicidade Construída - Paul Dolan



Felicidade

Ouço que felicidade significa uma coisa diferente para cada pessoa. Não procede.

Felizmente para o leitor de Felicidade Construída, o livro começa com uma boa definição: felicidade são experiências de prazer e propósito ao longo do tempo.

Qualquer um sabe o que lhe é prazeroso, o que é sentir propósito, e como é sofrido fazer algo tedioso ou sem sentido.


Confusão e adaptação a esta leitura

Esse livro me confundiu, no bom sentido. Senti um desconforto de adaptação.

A organização é estranha. Em um mesmo capítulo, há um gênero smart thinking - que me atrai - e um tom de autoajuda, que me afasta.

Nas primeiras páginas, o autor soa como um cientista resumindo os resultados de experimentos recentes sobre o tema Felicidade. Ao falar de cada experimento, soa humilde, e diz que os resultados não são definitivos, que um equívoco no método do estudo pode tê-lo invalidado, e que, apesar de muito esforço, podemos saber ainda muito pouco sobre os padrões de satisfação. Já no final dos capítulos, o autor muda a atitude e vira guru. O cuidado, o reconhecimento das limitações da especulação, a admissão da incerteza desaparecem. Paul Dolan começa a decretar: para serem felizes, as pessoas deveriam fazer isso, e parar de fazer aquilo.

Daí a minha confusão: se o autor reconhece as limitações e as dificuldades das pesquisas sobre a felicidade, de onde vem a segurança para dizer às pessoas o que fazer?

Rejeitei o livro e sua aparente incoerência. Senti vontade de ironizar a obra. Até escrevi uns desaforos em um rascunho desse post, que excitaram um contra-pensamento: e se o autor estiver apenas sendo racional diante da incerteza e da ignorância? Se estiver reunindo as evidências, debatendo seus possíveis significados com os maiores especialistas que se conhece, digerindo o resultado desse esforço, e oferecendo a quem estiver interessado algumas sugestões que parecem brotar?


Vocabulário novo e útil

Paul Dolan propõe falar de felicidade em duas partes: prazer e propósito.

Prazer é o primeiro gole para quem está morrendo de sede, deitar depois de se exaurir, cair no mar em dia quente...

Propósito é a sensação de dar um passo na direção desejada. É vencer uma tentação, trabalhar cansado, economizar, resistir, doar dinheiro. É fazer algo até desagradável, mas que proporciona satisfação, porque nos deixa mais próximos do que queremos da vida.

Munidos desta distinção, podemos pesquisar melhor a felicidade. Perguntado "quão feliz você estava trabalhando ontem às oito da noite", eu responderia "pouco feliz". Se perguntado mais especificamente "quanto prazer você estava sentindo", eu responderia "zero", ou "prazer negativo." Mas se perguntado "quanto propósito você estava sentindo...", minha resposta seria mais positiva, porque sinto satisfação em sacrificar um pouco de tempo para chegar mais perto de matar uma vontade velha.

Às vezes tudo o que um livro nos dá é um vocabulário para expressar o que já sabemos. Uma experiência maravilhosa: ler algumas páginas, e ser capaz de dizer o que sempre se quis. É como aprender a falar.


Tensão

Talvez eu seja viciado em preocupação e remorso. Gosto de um livro perturbador. Preciso que minhas leituras sejam ricas em hesitações e verdades.

Esse livro resume os resultados de pesquisas sobre o que causa felicidade: quanto dinheiro, quanto estudo, quantos amigos, quantos filhos, quanta certeza, quanto tempo se deslocando para o trabalho, casamento, peso...

A cada parágrafo, uma chance de descobrir que você escolheu errado e é tarde demais para mudar de rumo. Ou pior, que você nasceu errado e não tem chances de mudar nada.


Redenção

Felicidade Construída nos aterroriza, mas também nos consola. As pesquisas sobre felicidade sugerem que não é possível ser muito infeliz, nem muito feliz.

Se você ganhar um aumento, quase que imediatamente passará a achar seu novo salário ruim. Se algo triste acontecer na sua vida, depois de um tempo tudo terá voltado ao normal.

O estado de satisfação mais comum é o moderado.

While we each may initially react quite differently to an event, we all have a built-in ability to detect and neutralize challenges to our happiness. This has been called our psychological immune system. Just as your body adjusts to getting into hot water, so your mind adjusts to change...


Felicidade comparada

Entre os muitos elementos que aumentam ou diminuem a felicidade, um apareceu quase nada em Felicidade Construída: a felicidade dos outros.

Essa ausência me saltou aos olhos porque ando lendo muito Alain de Botton e assistindo a muitos dos vídeos da sua The School of Life. Para ele, que digere filosofia e psicologia e devolve na forma de livros para o grande público, a felicidade resulta da comparação. Sentiremos bem estar se olharmos para os nossos pares e acharmos que estamos tão bem ou melhor do que eles.

Nossos pares são aqueles que nasceram e cresceram em circunstâncias parecidas. O Bill Gates ser rico não me fará mal, porque não começamos no mesmo lugar, nem na mesma época, nem estudamos juntos. Mas se meu colega de colégio, vindo de uma família parecida, acabar ganhando mais dinheiro, fazendo mais amigos e formando uma família mais bonita, isso irá ferir minha tranquilidade. Para recobrar minha paz, posso sentir necessidade de estudar e trabalhar mais para correr atrás do sucesso. Ou posso desprezar a sociedade de consumo e a vaidade alheia, e defender um estilo de vida simples e sem ambições para me convencer de que eu não queria mesmo aquilo que meu colega tem.

Por esse ponto de vista, a felicidade é estar em condições de humilhar nossos semelhantes. É olhar para a humanidade e estar em condições de sentir pena. Os impulsos de "compartilhar" as viagens, as compras, as conquistas, a beleza, as refeições e os finais de semana felizes nas mídias sociais, ou de publicar comentários sobre buscar a simplicidade para ser feliz, são o resultado da psique e dos instintos fervendo. É a alma desesperada para exibir o que possui e desdenhar do que não possui.

Por que será que o livro de Paul Dolan quase não explora esse aspecto? Especulo: talvez porque os experimentos científicos sobre felicidade partem da indagação. Em um experimento típico, uma pessoa é indagada: de zero a dez, quanto prazer você sente quando dirige para o trabalho? E na academia? E quando ganha um aumento? E quando ensina tabuada para seus filhos? Perguntas fáceis de se responder com sinceridade.

Mas e se um questionário para testar as especulações do Alain de Botton fosse aplicado? Obteríamos respostas honestas?

Como medir o desgaste emocional de testemunhar o sucesso alheio? E o deleite de assistir à humilhação do rival? Talvez seja essa a dificuldade que impede a entrada do tema no livro de Paul Dolan, que tenta falar de ciência. E se essa dificuldade existe, ainda faz sentido embarcar na especulação guiada pelo Alain de Botton. Faz sentido viver os mistérios que sobram.

Um dos poucos trechos de Felicidade Construída sobre o assunto:

We want to be like people we consider to be similar to us - but we can also be adversely affected by their success. Studies have found that life satisfaction and reports of pleasure fall when the income of those living in your local area rises. The income of those around you doesn't have to increase for it to adversely affect you - you just need to find out that others are earning more than you.

Envelhecimento

Pessoas reportam menos felicidade entre os quarenta e os cinquenta anos. Vi uma vez um jornal especular que o motivo seria o fardo que pessoas dessa idade costumam carregar: cuidar dos filhos muito jovens e dos pais muito idosos. Será que também poderia ser a tomada de consciência de que já se passou metade da vida? Será a sensação de envelhecimento se impondo, e durando até que a pessoa se conforme?

O que será que nos dizem então os resultados de experimentos com grandes primatas? Elem também são menos felizes durante sua meia idade! Tristemente, o livro não explica como se mediu a felicidade de um chimpanzé. Acreditando por um instante que de fato isso aconteceu e que a medição é confiável, quero imaginar: o que será que derruba a satisfação dos humanos e dos gorilas na mesma altura de suas vidas? O estado do corpo? Dos hormônios? Da mente? Do sexo? Sua posição na sociedade ou na família?
   

Riqueza 

Pesquisa feita nos EUA sugere que quanto mais dinheiro uma pessoa ganha, mais feliz ela é. Mas o limite da felicidade é 75.000 dólares por ano. Ganhar mais do que isso não deixa ninguém mais feliz.

Pensamento lateral: será que há uma renda abaixo da qual não é possível ser mais infeliz? Ou uma dor máxima? Ou uma tristeza limite?



Filhos

O cotidiano é feito de realidade, mas nossas conversas estão purificadas de verdades, e nossas interações são irrelevantes. Infelizmente, só na arte e nos livros a cabeça ousa.

The PPP might also help us answer a hugely important question, which actually got me thinking about purpose in the first place: why would any of us ever choose to have children? I mean really choose to, rather than because of a biological imperative to reproduce? A big part of the answer to this question must be because we would expect to be happier as a result. What do the data tell us? Well mostly, that, at best, children are neutral in their impact on happiness.
Now, it could still be the case that many of those who have kids might have been much less happy if they remained childless and also that some of those without kids would have been happier with them. To truly show the effect of kids on happiness, we would need to know what otherwise might have been the case for each individual, and this is impossible to establish. This highlights the fact that we need to be very careful about making any claims about the causal effects of life events on happiness when people, to some degree at least, self-select into the groups whose happiness we are comparing.
It should come as no great surprise that having children does not improve happiness, though. You need only to have a desire for having sex, which sometimes results in pregnancy, and then to emotionally connect to a baby that looks like you when it is born, which means that you are then much less likely to abandon your kids. What happens to your happiness thereafter is then of little consequence.

Demência digital


Temei.
A era moderna está constantemente removendo obstáculos ao vício em verificar e-mails ou atualizações de amigos virtuais no Facebook. Médicos estão agora alertando sobre "demência digital", que é definida como déficits irreversíveis no desenvolvimento do cérebro e perda de memória em crianças que passam bastante tempo em equipamentos eletrônicos como laptops e celulares.

A história do pescador

Um dos problemas que o livro discute é quanto vale a pena trabalhar para ganhar mais ou para ser promovido. Para explorar o tema, o autor introduz, vejam só, a história do pescador brasileiro que eu pauleei em outro post (para ler, clique aqui).

Foi a primeira vez que vi a história em inglês. Mas o episódio parece pertencer mesmo ao Brasil:

There was once a businessman who was sitting by the beach in a small Brazilian village. As he sat, he saw a Brazilian fisherman rowing a small boat toward the shore having caught quite a few big fish.

Para quem não sabe, é uma história em que um executivo sai para pescar e conhece um pescador humilde que, depois de pescar uns peixes grandes, começa a caminhar para casa. O executivo critica a falta de ambição do pescador humilde, que, se trabalhasse duro e aproveitasse seu talento de pescador, rapidamente enriqueceria e se aposentaria para viver uma vida tranquila e feliz. O pescador não vê sentido na crítica, porque já leva uma vida tranquila e feliz.

Essa história não ensina nada.

Neste caso, o autor aproveitou a história para lembrar que, além de perder a tranquilidade que se persegue, o trabalhador dedicado perde amigos no caminho, e se sente deslocado e estranho nos ambientes mais ricos que passa a frequentar.

Much of what the fisherman is meant to aspire to he has now. The consequences of this tale could, in fact, turn out to be worse than circular, as the fisherman loses friends on the way up and out. He could also develop doubts about his sense of identity. This is one reason why many of the scholarship kids from poor backgrounds are not as happy as their equally high-achieving peers from wealthier backgrounds.

O raciocínio é lógico, mas incompleto. Perde-se amigos no caminho, mas faz-se outros. E o senso de identidade pode ficar em dúvida no começo de uma experiência, mas uma nova identidade começa a se formar no mesmo momento. Isso não é nada mais que vivência. Toda pessoa que tiver o privilégio de envelhecer passará por isso em algum momento. A casa não parece mais nossa, o bairro em que crescemos não é mais aquele, as pessoas não se comportam como antes, as músicas mudam, e um dia quase todo o planeta é mais novo do que você, e suas preferências importam cada vez menos para o mundo.


Gostar de romances

Orhan Pamuk defende que os romances são as coisas mais preciosas. São a janela para o que as pessoas de uma época pensam e sentem.

Os romances são o acesso direto à intimidade do escritor, das pessoas que conheceu, das que escondeu, e das que gostaria de ter sido. Com os romances interage-se com outros humanos como não se pode de outra forma.

Meu caro Paul Dolan... você quase me faz jogar seu livro pela janela.

I have never read a novel in my life (unless you count Of Mice and Men at school...)

Mas você não está errado. Eu gosto de ler romances e, naturalmente, adoraria acreditar que isso me deixa mais inteligente e me faz melhor. Mas não há evidência nesse sentido. A verdade é que, para quem gosta, ler romances é viver. Pode ser puro hedonismo.


Trechos

When thinking about how to be happier, you must keep in mind that your memories of the past are important experiences of happiness in the present. Happiness includes good memories of good experiences.

Some philosophers say that you can only really judge a life from its deathbed, as you reflect upon your successes and failures. To quote Bertrand Russell, "I feel as if one would only discover on one's deathbed what one ought to have lived for." But no moment should be privileged simply because it is that moment, and that includes your deathbed. I'm sure may of us care about how we will look back on our lives on our deathbed, but the value of our lives comes from the experiences of pleasure and purpose over our lifetimes and not from a judgment we might make at an arbitrarily chosen moment in time.


Mais sobre o livro

Revisão do livro no Telegraph:
http://www.telegraph.co.uk/culture/books/bookreviews/11047898/Happiness-by-Design-review-occasionally-jargon-heavy.html

Entrevista com Paul Dolan na Veja:
http://veja.abril.com.br/economia/prazer-mais-proposito-a-equacao-da-felicidade/

Algumas ideias de Paul Dolan na Galileu:
http://revistagalileu.globo.com/Revista/noticia/2015/08/siga-nosso-guia-anarquista-da-felicidade-cientifica.html

Boa revisão no Goodreads:
https://www.goodreads.com/book/show/18667892-happiness-by-design

quarta-feira, 15 de março de 2017

A Importância dos Livros



Copiado de The Book Of Life

Os grifos são meus.

E só sou capaz de grifar. O motivo está no corpo do texto.


The Importance of Books


Around 130 million books have been published in the history of humanity; a heavy reader will at best get through 6,000 in a lifetime. Most of them won’t be much fun or very memorable. Books are like people; we meet many but fall in love very seldom. Perhaps only thirty books will ever truly mark us. They will be different for each of us, but the way in which they affect us will be similar.

The core – and perhaps unexpected – thing that books do for us is simplify. It sounds odd, because we think of literature as sophisticated. But there are powerful ways in which books organise, and clarify our concerns – and in this sense simplify.

Centrally, by telling a story a book is radically simpler than lived experience. The writer omits a huge amount that could have been added in (and in life always – by necessity – is there). In the plot, we move from one important moment directly to the next – whereas in life there are endless sub-plots that distract and confuse us. In a story, the key events of a marriage unfold across a few dozen pages: in life they are spread over many years and interleaved with hundreds of business meetings, holidays, hours spent watching television, chats with one’s parents, shopping trips and dentist’s appointments. The compressed logic of a plot corrects the chaos of existence: the links between events can be made much more obvious. We understand – finally – what is going on.


Writers often do a lot of explaining along the way. They frequently shed light on why a character is acting as they do; they reveal people’s secret thoughts and motives. The characters are much more clearly defined than the people we actually encounter. On the page, we meet purer villains, braver more resourceful heroes, people whose suffering is more obvious or whose virtues are more striking than would ever normally be the case. They – and their actions – provide us with simplified targets for our emotional lives. We can love or revile them, pity them or condemn them more neatly than we ever can our friends and acquaintances.

We need simplification because our minds get checkmated by the complexity of our lives. The writer, on rare but hugely significant occasions, puts into words feelings that had long eluded us, they know us better than we know ourselves. They seem to be narrating our own stories, but with a clarity we could never achieve.

Literature corrects our native inarticulacy. So often we feel lost for words; we’re impressed by the sight of a bird wheeling in the dusk sky; we’re aware of a particular atmosphere at dawn, we love someone’s slightly wild but sympathetic manner. We struggle to verbalise our feelings; we may end up remarking: ‘that’s so nice’. Our feelings seem too complex, subtle, vague and elusive for us to be able to spell out. The ideal writer homes in on a few striking things: the angle of the wing; the slow movement of the largest branch of a tree; the angle of the mouth in a smile. Simplification doesn’t betray the nuance of life, it renders life more visible.


The great writers build bridges to people we might otherwise have dismissed as unfeasibly strange or unsympathetic. They cut through to the common core of experience. By selection and emphasis, they reveal the important things we share. They show us where to look.

They help us to feel. Often we want to be good, we want to care, we want to feel warmly and tenderly – but can’t. It seems there is no suitable receptacle in our ordinary lives into which our emotions can vent themselves. Our relationships are too compromised and fraught. It can feel too risky to be very nice to someone who might not reciprocate. So we don’t do much feeling; we freeze over. But then – in the pages of a story – we meet someone, perhaps she is very beautiful, tender, sensitive, young and dying; and we weep for her and all the cruelty and injustice of the world. And we come away, not devastated, but refreshed. Our emotional muscles are exercised and their strength rendered newly available for our lives.

Not all books necessarily contain the simplifications we happen to need. We are often not in the right place to make use of the knowledge a book has to offer. The task of linking the right book to the right person at the right time hasn’t yet received the attention it deserves: newspapers and friends recommend books to us because they work for them, without quite thinking through why they might also work for us. But when we happen to come across the ideal book for us we are presented with an extraordinarily clearer, more lucid, better organised account of our own concerns and experiences: for a time at least our minds become less clouded and our hearts become more accurately sensitive. Through books’ benign simplification, we become a little better at being who we always really were.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

O Gigante Enterrado - Kazuo Ishiguro



Cometi o erro de pensar que iria gostar de um livro. Mas dessa vez, pelo menos, o erro me divertiu.

Para mim, cada linha de um livro tem que valer a pena. Os parágrafos têm que ser todos bons. Não sou pego pelo suspense, nem fico curioso para saber o que vai acontecer no fim. O livro pode ser puro realismo ou pura fantasia, desde que as vontades e medos das personagens sejam reais, e as páginas sejam belas.

Em O Gigante Enterrado, o Bestseller número 1 do Sunday Times, só me senti envolvido no início, quando o casal Axl e Beatrice se sentem diminuídos em um vilarejo, onde são debochados pelas crianças, desprezados pelos trabalhadores e objeto de pena dos vizinhos. Certo dia resolvem deixar suas tristes vidas para trás e partem para uma viagem para encontrar o filho que não veem há muito tempo.

O que se passa desde a partida é enigmático: todas as pessoas que existem na história sofrem de memória curta, há bestas e ogros não descritos que atacam pessoas, há guerreiros que não se sabe ao certo de onde vem ou o que querem, há pessoas hospitaleiras não se sabe por quê, há dragões escondidos, há mentiras sendo contadas, o filho que o casal procura pode não existir... e lá se foram cento e trinta páginas sem que nada se esclarecesse, sem uma ocorrência memorável, sem uma reflexão que valesse a pena. Senti tédio e dificuldade de me concentrar.

Em busca de encorajamento, voltei para as revisões positivas sobre o livro. Uma delas dizia: "A literary tour de force so unassuming that you don't realize until the last page that you are reading a masterpiece"

Parece que a intenção era elogiar a obra, mas se dissessem isso sobre algo que eu escrevi, ficaria muito triste. Só na última página o leitor pode concluir que o livro é uma obra prima? O que o leitor deve fazer durante as trezentas e sessenta e uma páginas que vem antes? Rezar e confiar que a última página salvará o tempo perdido?

Insisti na tentativa de ler mais uns parágrafos. Os mistérios e as promessas de acontecimentos continuaram se acumulando e perdi a paciência. Resolvi ler logo a última página para ver o que acontece no final tão celebrado. E de fato acontece algo assombroso: é dolorosamente previsível. Eu já havia matado a charada na página quarenta e cinco, onde o que vai acontecer no fim fica tão óbvio que pode ser chamado de spoiler.

Um barqueiro é acusado de ter deliberadamente e cruelmente separado um casal. Ele teria levado o marido de barco até uma ilha, e depois se recusado a levar sua esposa conforme havia se comprometido. Em resposta à acusação, o barqueiro se explica para outro casal, que é o casal protagonista do livro:

Occasionally a couple may be permitted to cross to the island together, but this is rare. It requires an unusually strong bond of love between them. It does sometimes occur, I don't deny, and that's why when we find a man and a wife, or even unmarried lovers, waiting to be carried over, it's our duty to question them carefully. For it falls to us to perceive if their bond is strong enough to cross together. This lady is reluctant to accept it, but her bond with her husband was simply too weak. Let her look into her heart, then dare say my judgement that day was in error.

Tentei ler o último capítulo desde o começo, para ver se conseguia encontrar um significado maior no final óbvio. Mas fiquei entediado novamente.

Procurei na internet um resumo do livro, para ver o que perdi nas mais de duzentas páginas que pulei. Encontrei, mas só consegui ler metade. Até o resumo era chato. E as críticas na internet também são longas demais, e nem um pouco claras. Me parece que esse livro e tudo o que se escreve sobre ele está envolto em uma névoa de confusão. Será um milagre se esse post entreter alguém.

Mas pelo menos deixo esse livro para trás me sentindo intrigado. Só se fala bem da obra por todos os cantos. As críticas são tediosas, mas falam bem. Reconheço que muito possivelmente o livro tem atributos que não capturei, uma beleza que eu não soube apreciar, talvez significados importantes que eu não entendi.

Então segue a aclamação deste livro, de que não gostei, nem terminei. E já que reconheci que pode ser por pura falta de entendimento ou de gosto, peço para ser perdoado por um pouco de negatividade.


Revisões

Abaixo, apenas algumas das revisões que acompanham o livro, e que são uma pequena amostra de como a obra está sendo elogiada. Uma sugestão de que posso estar muito enganado na minha avaliação.

"Um conto extraordinariamente atmosférico e compulsivamente legível... Um belo e comovente livro sobre o dever de lembrar e a ânsia de esquecer". Alex Preston, Observer

Comentário meu: esses são alguns atributos de que gosto em um livro: que seja atmosférico, e que nos incomode ao nos criticar por esquecer propositalmente de coisas desagradáveis. O problema é que não encontrei esses atributos no livro, apenas alegorias sobre os temas.

"Absolutamente característico, comovente e perturbador... Mesmo depois de terminado o livro, muitos dias depois, você percebe que não consegue parar de pensar sobre ele..." Financial Times

Comentário meu: eu não conseguia pensar na obra nem enquanto estava lendo.

"...você não esquecerá esse livro tão cedo depois de virar suas últimas páginas. O final, particularmente, irá assombrar." Washington Post

"... É o final mais emocionalmente ruinoso que eu já li em muito tempo...". Slate

"... O final, como frequentemente acontece com este autor, é ainda mais devastador por ser tão controlado." Independent on Sunday

"As cenas conclusivas são muito impactantes...". Globe and Mail

"Imensamente satisfatório... a passagem final é uma das melhores coisas que já li." Saturday Paper

Comentário meu: talvez se eu não houvesse previsto o final, compartilharia da opinião das cinco revisões acima. Mas acredito que não. Livro bom, para mim, é aquele que pode ser interrompido no meio e mesmo assim te deixa feliz pelo tempo que você viveu nas páginas até ali. Em um livro bom de verdade, o final é irrelevante.

"Seu novo romance é cheio de imagens assombrosas... provoca fortes emoções - e permanece na mente." Economist

"Maravilhosamente estranho... O Gigante Enterrado nos mostra que para nações, assim como para indivíduos, pode haver memórias tão dolorosas e danosas que se tornam perigosas demais de se encarar." Evening Standard

Comentário meu: aqui sou obrigado a discordar completamente. O Gigante Enterrado não mostra isso, porque é uma obra de ficção. Quem está habilitado a ensinar sobre as nações é a História e a experiência. A narrativa desse livro é fictícia, assim como seus guerreiros, dragões e o feitiço que fazia com que as pessoas esquecessem suas memórias dolorosas e danosas.

"A prosa, como em muitos dos romances de Ishiguro, é lapidária e fascinante, sugestiva de segredos a serem revelados". Atlantic

"Uma delicada estória sobre casamento, memória e perdão... e as questões que emergem no curso de sua jornada... atingem o coração do mistério da vida." San Francisco Chronicle.

"Uma espantosa obra-prima". Le Monde

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Um escritor realiza sua obra na solidão

Winter Landscape - Efim Volkov

Um escritor realiza sua obra na solidão. E se for suficientemente bom, deve a cada dia enfrentar a eternidade ou a ausência da eternidade.

Hemingway

domingo, 15 de janeiro de 2017

Todos Os Segredos da Alma de Um Escritor

Emile Claus - The Ice Birds

Every secret of a writer's soul, every experience of his life, every quality of his mind, is written large in his works.

Virginia Woolf