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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

O Gigante Enterrado - Kazuo Ishiguro



Cometi o erro de pensar que iria gostar de um livro. Mas dessa vez, pelo menos, o erro me divertiu.

Para mim, cada linha de um livro tem que valer a pena. Os parágrafos têm que ser todos bons. Não sou pego pelo suspense, nem fico curioso para saber o que vai acontecer no fim. O livro pode ser puro realismo ou pura fantasia, desde que as vontades e medos das personagens sejam reais, e as páginas sejam belas.

Em O Gigante Enterrado, o Bestseller número 1 do Sunday Times, só me senti envolvido no início, quando o casal Axl e Beatrice se sentem diminuídos em um vilarejo, onde são debochados pelas crianças, desprezados pelos trabalhadores e objeto de pena dos vizinhos. Certo dia resolvem deixar suas tristes vidas para trás e partem para uma viagem para encontrar o filho que não veem há muito tempo.

O que se passa desde a partida é enigmático: todas as pessoas que existem na história sofrem de memória curta, há bestas e ogros não descritos que atacam pessoas, há guerreiros que não se sabe ao certo de onde vem ou o que querem, há pessoas hospitaleiras não se sabe por quê, há dragões escondidos, há mentiras sendo contadas, o filho que o casal procura pode não existir... e lá se foram cento e trinta páginas sem que nada se esclarecesse, sem uma ocorrência memorável, sem uma reflexão que valesse a pena. Senti tédio e dificuldade de me concentrar.

Em busca de encorajamento, voltei para as revisões positivas sobre o livro. Uma delas dizia: "A literary tour de force so unassuming that you don't realize until the last page that you are reading a masterpiece"

Parece que a intenção era elogiar a obra, mas se dissessem isso sobre algo que eu escrevi, ficaria muito triste. Só na última página o leitor pode concluir que o livro é uma obra prima? O que o leitor deve fazer durante as trezentas e sessenta e uma páginas que vem antes? Rezar e confiar que a última página salvará o tempo perdido?

Insisti na tentativa de ler mais uns parágrafos. Os mistérios e as promessas de acontecimentos continuaram se acumulando e perdi a paciência. Resolvi ler logo a última página para ver o que acontece no final tão celebrado. E de fato acontece algo assombroso: é dolorosamente previsível. Eu já havia matado a charada na página quarenta e cinco, onde o que vai acontecer no fim fica tão óbvio que pode ser chamado de spoiler.

Um barqueiro é acusado de ter deliberadamente e cruelmente separado um casal. Ele teria levado o marido de barco até uma ilha, e depois se recusado a levar sua esposa conforme havia se comprometido. Em resposta à acusação, o barqueiro se explica para outro casal, que é o casal protagonista do livro:

Occasionally a couple may be permitted to cross to the island together, but this is rare. It requires an unusually strong bond of love between them. It does sometimes occur, I don't deny, and that's why when we find a man and a wife, or even unmarried lovers, waiting to be carried over, it's our duty to question them carefully. For it falls to us to perceive if their bond is strong enough to cross together. This lady is reluctant to accept it, but her bond with her husband was simply too weak. Let her look into her heart, then dare say my judgement that day was in error.

Tentei ler o último capítulo desde o começo, para ver se conseguia encontrar um significado maior no final óbvio. Mas fiquei entediado novamente.

Procurei na internet um resumo do livro, para ver o que perdi nas mais de duzentas páginas que pulei. Encontrei, mas só consegui ler metade. Até o resumo era chato. E as críticas na internet também são longas demais, e nem um pouco claras. Me parece que esse livro e tudo o que se escreve sobre ele está envolto em uma névoa de confusão. Será um milagre se esse post entreter alguém.

Mas pelo menos deixo esse livro para trás me sentindo intrigado. Só se fala bem da obra por todos os cantos. As críticas são tediosas, mas falam bem. Reconheço que muito possivelmente o livro tem atributos que não capturei, uma beleza que eu não soube apreciar, talvez significados importantes que eu não entendi.

Então segue a aclamação deste livro, de que não gostei, nem terminei. E já que reconheci que pode ser por pura falta de entendimento ou de gosto, peço para ser perdoado por um pouco de negatividade.


Revisões

Abaixo, apenas algumas das revisões que acompanham o livro, e que são uma pequena amostra de como a obra está sendo elogiada. Uma sugestão de que posso estar muito enganado na minha avaliação.

"Um conto extraordinariamente atmosférico e compulsivamente legível... Um belo e comovente livro sobre o dever de lembrar e a ânsia de esquecer". Alex Preston, Observer

Comentário meu: esses são alguns atributos de que gosto em um livro: que seja atmosférico, e que nos incomode ao nos criticar por esquecer propositalmente de coisas desagradáveis. O problema é que não encontrei esses atributos no livro, apenas alegorias sobre os temas.

"Absolutamente característico, comovente e perturbador... Mesmo depois de terminado o livro, muitos dias depois, você percebe que não consegue parar de pensar sobre ele..." Financial Times

Comentário meu: eu não conseguia pensar na obra nem enquanto estava lendo.

"...você não esquecerá esse livro tão cedo depois de virar suas últimas páginas. O final, particularmente, irá assombrar." Washington Post

"... É o final mais emocionalmente ruinoso que eu já li em muito tempo...". Slate

"... O final, como frequentemente acontece com este autor, é ainda mais devastador por ser tão controlado." Independent on Sunday

"As cenas conclusivas são muito impactantes...". Globe and Mail

"Imensamente satisfatório... a passagem final é uma das melhores coisas que já li." Saturday Paper

Comentário meu: talvez se eu não houvesse previsto o final, compartilharia da opinião das cinco revisões acima. Mas acredito que não. Livro bom, para mim, é aquele que pode ser interrompido no meio e mesmo assim te deixa feliz pelo tempo que você viveu nas páginas até ali. Em um livro bom de verdade, o final é irrelevante.

"Seu novo romance é cheio de imagens assombrosas... provoca fortes emoções - e permanece na mente." Economist

"Maravilhosamente estranho... O Gigante Enterrado nos mostra que para nações, assim como para indivíduos, pode haver memórias tão dolorosas e danosas que se tornam perigosas demais de se encarar." Evening Standard

Comentário meu: aqui sou obrigado a discordar completamente. O Gigante Enterrado não mostra isso, porque é uma obra de ficção. Quem está habilitado a ensinar sobre as nações é a História e a experiência. A narrativa desse livro é fictícia, assim como seus guerreiros, dragões e o feitiço que fazia com que as pessoas esquecessem suas memórias dolorosas e danosas.

"A prosa, como em muitos dos romances de Ishiguro, é lapidária e fascinante, sugestiva de segredos a serem revelados". Atlantic

"Uma delicada estória sobre casamento, memória e perdão... e as questões que emergem no curso de sua jornada... atingem o coração do mistério da vida." San Francisco Chronicle.

"Uma espantosa obra-prima". Le Monde