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segunda-feira, 29 de maio de 2017

Felicidade Construída - Paul Dolan



Felicidade

Ouço que felicidade significa uma coisa diferente para cada pessoa. Não procede.

Felizmente para o leitor de Felicidade Construída, o livro começa com uma boa definição: felicidade são experiências de prazer e propósito ao longo do tempo.

Qualquer um sabe o que lhe é prazeroso, o que é sentir propósito, e como é sofrido fazer algo tedioso ou sem sentido.


Confusão e adaptação a esta leitura

Esse livro me confundiu, no bom sentido. Senti um desconforto de adaptação.

A organização é estranha. Em um mesmo capítulo, há um gênero smart thinking - que me atrai - e um tom de autoajuda, que me afasta.

Nas primeiras páginas, o autor soa como um cientista resumindo os resultados de experimentos recentes sobre o tema Felicidade. Ao falar de cada experimento, soa humilde, e diz que os resultados não são definitivos, que um equívoco no método do estudo pode tê-lo invalidado, e que, apesar de muito esforço, podemos saber ainda muito pouco sobre os padrões de satisfação. Já no final dos capítulos, o autor muda a atitude e vira guru. O cuidado, o reconhecimento das limitações da especulação, a admissão da incerteza desaparecem. Paul Dolan começa a decretar: para serem felizes, as pessoas deveriam fazer isso, e parar de fazer aquilo.

Daí a minha confusão: se o autor reconhece as limitações e as dificuldades das pesquisas sobre a felicidade, de onde vem a segurança para dizer às pessoas o que fazer?

Rejeitei o livro e sua aparente incoerência. Senti vontade de ironizar a obra. Até escrevi uns desaforos em um rascunho desse post, que excitaram um contra-pensamento: e se o autor estiver apenas sendo racional diante da incerteza e da ignorância? Se estiver reunindo as evidências, debatendo seus possíveis significados com os maiores especialistas que se conhece, digerindo o resultado desse esforço, e oferecendo a quem estiver interessado algumas sugestões que parecem brotar?


Vocabulário novo e útil

Paul Dolan propõe falar de felicidade em duas partes: prazer e propósito.

Prazer é o primeiro gole para quem está morrendo de sede, deitar depois de se exaurir, cair no mar em dia quente...

Propósito é a sensação de dar um passo na direção desejada. É vencer uma tentação, trabalhar cansado, economizar, resistir, doar dinheiro. É fazer algo até desagradável, mas que proporciona satisfação, porque nos deixa mais próximos do que queremos da vida.

Munidos desta distinção, podemos pesquisar melhor a felicidade. Perguntado "quão feliz você estava trabalhando ontem às oito da noite", eu responderia "pouco feliz". Se perguntado mais especificamente "quanto prazer você estava sentindo", eu responderia "zero", ou "prazer negativo." Mas se perguntado "quanto propósito você estava sentindo...", minha resposta seria mais positiva, porque sinto satisfação em sacrificar um pouco de tempo para chegar mais perto de matar uma vontade velha.

Às vezes tudo o que um livro nos dá é um vocabulário para expressar o que já sabemos. Uma experiência maravilhosa: ler algumas páginas, e ser capaz de dizer o que sempre se quis. É como aprender a falar.


Tensão

Talvez eu seja viciado em preocupação e remorso. Gosto de um livro perturbador. Preciso que minhas leituras sejam ricas em hesitações e verdades.

Esse livro resume os resultados de pesquisas sobre o que causa felicidade: quanto dinheiro, quanto estudo, quantos amigos, quantos filhos, quanta certeza, quanto tempo se deslocando para o trabalho, casamento, peso...

A cada parágrafo, uma chance de descobrir que você escolheu errado e é tarde demais para mudar de rumo. Ou pior, que você nasceu errado e não tem chances de mudar nada.


Redenção

Felicidade Construída nos aterroriza, mas também nos consola. As pesquisas sobre felicidade sugerem que não é possível ser muito infeliz, nem muito feliz.

Se você ganhar um aumento, quase que imediatamente passará a achar seu novo salário ruim. Se algo triste acontecer na sua vida, depois de um tempo tudo terá voltado ao normal.

O estado de satisfação mais comum é o moderado.

While we each may initially react quite differently to an event, we all have a built-in ability to detect and neutralize challenges to our happiness. This has been called our psychological immune system. Just as your body adjusts to getting into hot water, so your mind adjusts to change...


Felicidade comparada

Entre os muitos elementos que aumentam ou diminuem a felicidade, um apareceu quase nada em Felicidade Construída: a felicidade dos outros.

Essa ausência me saltou aos olhos porque ando lendo muito Alain de Botton e assistindo a muitos dos vídeos da sua The School of Life. Para ele, que digere filosofia e psicologia e devolve na forma de livros para o grande público, a felicidade resulta da comparação. Sentiremos bem estar se olharmos para os nossos pares e acharmos que estamos tão bem ou melhor do que eles.

Nossos pares são aqueles que nasceram e cresceram em circunstâncias parecidas. O Bill Gates ser rico não me fará mal, porque não começamos no mesmo lugar, nem na mesma época, nem estudamos juntos. Mas se meu colega de colégio, vindo de uma família parecida, acabar ganhando mais dinheiro, fazendo mais amigos e formando uma família mais bonita, isso irá ferir minha tranquilidade. Para recobrar minha paz, posso sentir necessidade de estudar e trabalhar mais para correr atrás do sucesso. Ou posso desprezar a sociedade de consumo e a vaidade alheia, e defender um estilo de vida simples e sem ambições para me convencer de que eu não queria mesmo aquilo que meu colega tem.

Por esse ponto de vista, a felicidade é estar em condições de humilhar nossos semelhantes. É olhar para a humanidade e estar em condições de sentir pena. Os impulsos de "compartilhar" as viagens, as compras, as conquistas, a beleza, as refeições e os finais de semana felizes nas mídias sociais, ou de publicar comentários sobre buscar a simplicidade para ser feliz, são o resultado da psique e dos instintos fervendo. É a alma desesperada para exibir o que possui e desdenhar do que não possui.

Por que será que o livro de Paul Dolan quase não explora esse aspecto? Especulo: talvez porque os experimentos científicos sobre felicidade partem da indagação. Em um experimento típico, uma pessoa é indagada: de zero a dez, quanto prazer você sente quando dirige para o trabalho? E na academia? E quando ganha um aumento? E quando ensina tabuada para seus filhos? Perguntas fáceis de se responder com sinceridade.

Mas e se um questionário para testar as especulações do Alain de Botton fosse aplicado? Obteríamos respostas honestas?

Como medir o desgaste emocional de testemunhar o sucesso alheio? E o deleite de assistir à humilhação do rival? Talvez seja essa a dificuldade que impede a entrada do tema no livro de Paul Dolan, que tenta falar de ciência. E se essa dificuldade existe, ainda faz sentido embarcar na especulação guiada pelo Alain de Botton. Faz sentido viver os mistérios que sobram.

Um dos poucos trechos de Felicidade Construída sobre o assunto:

We want to be like people we consider to be similar to us - but we can also be adversely affected by their success. Studies have found that life satisfaction and reports of pleasure fall when the income of those living in your local area rises. The income of those around you doesn't have to increase for it to adversely affect you - you just need to find out that others are earning more than you.

Envelhecimento

Pessoas reportam menos felicidade entre os quarenta e os cinquenta anos. Vi uma vez um jornal especular que o motivo seria o fardo que pessoas dessa idade costumam carregar: cuidar dos filhos muito jovens e dos pais muito idosos. Será que também poderia ser a tomada de consciência de que já se passou metade da vida? Será a sensação de envelhecimento se impondo, e durando até que a pessoa se conforme?

O que será que nos dizem então os resultados de experimentos com grandes primatas? Elem também são menos felizes durante sua meia idade! Tristemente, o livro não explica como se mediu a felicidade de um chimpanzé. Acreditando por um instante que de fato isso aconteceu e que a medição é confiável, quero imaginar: o que será que derruba a satisfação dos humanos e dos gorilas na mesma altura de suas vidas? O estado do corpo? Dos hormônios? Da mente? Do sexo? Sua posição na sociedade ou na família?
   

Riqueza 

Pesquisa feita nos EUA sugere que quanto mais dinheiro uma pessoa ganha, mais feliz ela é. Mas o limite da felicidade é 75.000 dólares por ano. Ganhar mais do que isso não deixa ninguém mais feliz.

Pensamento lateral: será que há uma renda abaixo da qual não é possível ser mais infeliz? Ou uma dor máxima? Ou uma tristeza limite?



Filhos

O cotidiano é feito de realidade, mas nossas conversas estão purificadas de verdades, e nossas interações são irrelevantes. Infelizmente, só na arte e nos livros a cabeça ousa.

The PPP might also help us answer a hugely important question, which actually got me thinking about purpose in the first place: why would any of us ever choose to have children? I mean really choose to, rather than because of a biological imperative to reproduce? A big part of the answer to this question must be because we would expect to be happier as a result. What do the data tell us? Well mostly, that, at best, children are neutral in their impact on happiness.
Now, it could still be the case that many of those who have kids might have been much less happy if they remained childless and also that some of those without kids would have been happier with them. To truly show the effect of kids on happiness, we would need to know what otherwise might have been the case for each individual, and this is impossible to establish. This highlights the fact that we need to be very careful about making any claims about the causal effects of life events on happiness when people, to some degree at least, self-select into the groups whose happiness we are comparing.
It should come as no great surprise that having children does not improve happiness, though. You need only to have a desire for having sex, which sometimes results in pregnancy, and then to emotionally connect to a baby that looks like you when it is born, which means that you are then much less likely to abandon your kids. What happens to your happiness thereafter is then of little consequence.

Demência digital


Temei.
A era moderna está constantemente removendo obstáculos ao vício em verificar e-mails ou atualizações de amigos virtuais no Facebook. Médicos estão agora alertando sobre "demência digital", que é definida como déficits irreversíveis no desenvolvimento do cérebro e perda de memória em crianças que passam bastante tempo em equipamentos eletrônicos como laptops e celulares.

A história do pescador

Um dos problemas que o livro discute é quanto vale a pena trabalhar para ganhar mais ou para ser promovido. Para explorar o tema, o autor introduz, vejam só, a história do pescador brasileiro que eu pauleei em outro post (para ler, clique aqui).

Foi a primeira vez que vi a história em inglês. Mas o episódio parece pertencer mesmo ao Brasil:

There was once a businessman who was sitting by the beach in a small Brazilian village. As he sat, he saw a Brazilian fisherman rowing a small boat toward the shore having caught quite a few big fish.

Para quem não sabe, é uma história em que um executivo sai para pescar e conhece um pescador humilde que, depois de pescar uns peixes grandes, começa a caminhar para casa. O executivo critica a falta de ambição do pescador humilde, que, se trabalhasse duro e aproveitasse seu talento de pescador, rapidamente enriqueceria e se aposentaria para viver uma vida tranquila e feliz. O pescador não vê sentido na crítica, porque já leva uma vida tranquila e feliz.

Essa história não ensina nada.

Neste caso, o autor aproveitou a história para lembrar que, além de perder a tranquilidade que se persegue, o trabalhador dedicado perde amigos no caminho, e se sente deslocado e estranho nos ambientes mais ricos que passa a frequentar.

Much of what the fisherman is meant to aspire to he has now. The consequences of this tale could, in fact, turn out to be worse than circular, as the fisherman loses friends on the way up and out. He could also develop doubts about his sense of identity. This is one reason why many of the scholarship kids from poor backgrounds are not as happy as their equally high-achieving peers from wealthier backgrounds.

O raciocínio é lógico, mas incompleto. Perde-se amigos no caminho, mas faz-se outros. E o senso de identidade pode ficar em dúvida no começo de uma experiência, mas uma nova identidade começa a se formar no mesmo momento. Isso não é nada mais que vivência. Toda pessoa que tiver o privilégio de envelhecer passará por isso em algum momento. A casa não parece mais nossa, o bairro em que crescemos não é mais aquele, as pessoas não se comportam como antes, as músicas mudam, e um dia quase todo o planeta é mais novo do que você, e suas preferências importam cada vez menos para o mundo.


Gostar de romances

Orhan Pamuk defende que os romances são as coisas mais preciosas. São a janela para o que as pessoas de uma época pensam e sentem.

Os romances são o acesso direto à intimidade do escritor, das pessoas que conheceu, das que escondeu, e das que gostaria de ter sido. Com os romances interage-se com outros humanos como não se pode de outra forma.

Meu caro Paul Dolan... você quase me faz jogar seu livro pela janela.

I have never read a novel in my life (unless you count Of Mice and Men at school...)

Mas você não está errado. Eu gosto de ler romances e, naturalmente, adoraria acreditar que isso me deixa mais inteligente e me faz melhor. Mas não há evidência nesse sentido. A verdade é que, para quem gosta, ler romances é viver. Pode ser puro hedonismo.


Trechos

When thinking about how to be happier, you must keep in mind that your memories of the past are important experiences of happiness in the present. Happiness includes good memories of good experiences.

Some philosophers say that you can only really judge a life from its deathbed, as you reflect upon your successes and failures. To quote Bertrand Russell, "I feel as if one would only discover on one's deathbed what one ought to have lived for." But no moment should be privileged simply because it is that moment, and that includes your deathbed. I'm sure may of us care about how we will look back on our lives on our deathbed, but the value of our lives comes from the experiences of pleasure and purpose over our lifetimes and not from a judgment we might make at an arbitrarily chosen moment in time.


Mais sobre o livro

Revisão do livro no Telegraph:
http://www.telegraph.co.uk/culture/books/bookreviews/11047898/Happiness-by-Design-review-occasionally-jargon-heavy.html

Entrevista com Paul Dolan na Veja:
http://veja.abril.com.br/economia/prazer-mais-proposito-a-equacao-da-felicidade/

Algumas ideias de Paul Dolan na Galileu:
http://revistagalileu.globo.com/Revista/noticia/2015/08/siga-nosso-guia-anarquista-da-felicidade-cientifica.html

Boa revisão no Goodreads:
https://www.goodreads.com/book/show/18667892-happiness-by-design