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quinta-feira, 15 de junho de 2017

Science in the Soul - Richard Dawkins


Eu estava no meu corredor favorito: o corredor do Museu de História Natural de Oxford.


Muitas vezes entrei nesse museu disposto a olhar tudo. Mas acabei sempre exaurindo minha energia mental em umas poucas caixas de exibição. Prefiro voltar para apreciar o resto outro dia, descansado, atento e reverente diante do maior espetáculo da Terra: a evolução das espécies.

O ciclo se repete há anos. No dia 14 de junho de 2017, eu estava novamente nesse corredor. Eram 18:30. Faltavam trinta minutos para o evento: um bate-papo entre escritores. Decidi que enquanto não chegasse a hora eu passaria o meu tempo como se deve: admirando espécies de estrela do mar. Expostas juntas, suas mínimas variações são claras e de uma beleza que se atingiu depois de dezenas de milhões de anos de trabalho.

Algo na genética da nossa espécie gregária nos dá um impulso de querer dividir as experiências e de ser entendido. Minha esposa procurava o auditório e não estava ali para me ouvir falar do que eu sentia enquanto olhava também os pepinos do mar. Meu amigo mais capaz de compartilhar o sentimento estava muito longe. Então fiquei ali, aproveitando um maravilhamento intenso e solitário. Até que passa atrás de mim um senhor falante de cabelo branco: Richard Dawkins.

Aquele senhor não seria capaz só de entender a sensação que brotava daquela caixa de vidro em um corredor silencioso. Ele é bom em ensinar como se atinge esse estado quando se está diante da natureza. Por isso foi professor de compreensão pública da ciência. Sua escrita é a mais clara que lembro de ter lido. Em seus livros, ele auxilia quem está interessado em absorver a magia da realidade. Possivelmente eu teria aprendido a chorar diante de sequoias e de evoluções convergentes mesmo que não houvesse lido A Grande História da Evolução, O Gene Egoísta ou A Escalada do Monte Improvável, porque lembro de ser propenso à contemplação desde muito novo. Mas essas obras aguçaram a sensibilidade.

O velhinho se sentou diante de uma mesa e pré-assinou sozinho vários livros bonitos de capa preta com detalhes brancos, azuis e laranjas. Seria um novo livro dele? Pesquisei no celular, e não encontrei nada. Que milagre! Os mecanismos de busca não haviam ainda absorvido bem a novidade: Richard Dawkins publicou um novo livro.

Eu só entendi de fato que ele tinha um livro novo quando, minutos depois, eu já estava sentado no auditório e ele estava logo à frente, lendo o primeiro parágrafo sobre sua experiência de visitar o Grand Canyon:

The Grand Canyon confers stature on a religion, outclassing the petty smallness of the Abrahamics, the three squabbling cults which, through historical accident, still afflict the world. 

Na outra vez em que fora em um evento do Richard Dawkins, a ocasião fora mais solene. Ele lera em voz baixa trechos seríssimos de alguns de seus livros, diante de uma plateia grande em um auditório espaçoso.

No Museu de História Natural, a experiência foi mais próxima. Auditório pequeno e clima informal. Estava junto Yan Wong, com quem Dawkins escreveu A Grande História da Evolução. Eles bateram um papo diante dos presentes, se empolgando com os comentários um do outro sobre a melhor forma de se exibir a árvore da vida, os resquícios de genes de neandertais entre os europeus, os genes comuns que determinam o tipo sanguíneo A entre humanos e primatas, e outras coisas que não consegui acompanhar. Depois da dolorosa sessão das sempre mal formuladas perguntas do público, comprei o livro e peguei a assinatura desse autor tão fácil de se admirar. 

Interessante ver assim de perto um escritor tão grande, falando à vontade sobre seus assuntos favoritos, em seu habitat, e na sua companhia favorita.


O resumo do livro virá mais tarde. Quis registrar a experiência de chegar ao livro enquanto ainda estava quente na mente.

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